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UMA 'TATUAGEM' DA (NOVA) ONDA PERNAMBUCANA

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Tatuagem, de Hilton Lacerda.

Domingo à noite já houve prémios no Palácio dos Festivais de Gramado. Foi a noite da Mostra Gaúcha de Curtas Metragens, integrada na programação oficial dedicada aos jovens realizadores do Rio Grande do Sul. A competição principal continuou com 'El Padre de Gardel', um documentário biográfico do realizador uruguaio Ricardo Casas. E depois segui com o surpreendente 'Tatuagem', de Hilton Lacerda, mais um filme daquela que se pode já chamar uma 'nova onda do cinema pernambucano'. (em Gramado)

José Vieira Mendes

'El Padre de Gardel' é o segundo filme consecutivo do cineasta uruguaio Ricardo Casas no género documentário biográfico. Em 2006, dirigiu 'Palabras Verdaderas', sobre sobre um dos grandes expoentes da literatura sul-americana: Mario Benedetti. 'El Padre de Gardel' trata-se igualmente de um documentário de investigação biográfica sobre Carlos Escayola, político durante 30 anos da pequena cidade de Tacuarembó, no Uruguai. Este fazendeiro e ex-militar ficou conhecido pelas suas conquistas políticas e culturais - incluindo a construção de um teatro municipal - mas igualmente pela sua fama de sedutor, que lhe valeu uma das maiores polémicas familiares da história da região e da época: viveu maritalmente com três irmãs e foi o progenitor de um bastardo, nunca assumido chamado: Carlos Gardel, o criador do tango. Na verdade o tango é argentino, mas Gardel era de origem uruguaia. O documentário é uma rigorosa (e talvez demasiado longa )viagem por uma curiosa figura do passado, mas para se tornar mais abrangente, faltou a ligação a Gardel. O cinema pernanbucano está em alta e causado grande impacto, além de muitos prémios nos festivais internacionais na Europa: 'A Febre do Rato', de Cláudio Assis, 'Eles Voltam', de Marcelo Lordelo, 'Domésticas' de Gabriel Mascaro, entre outros. E claro esse espantoso filme chamado 'O Som ao Redor', de Kleber Mendonça Filho, que está de volta a Gramado, depois de no ano passado ter apresentado o seu filme, agora como jurado da competição de longas-metragens brasileiras e que Wagner Moura não se cansou de elogiar.

A sessão da noite de domingo foi preenchida com 'Tatuagem' (ver trailer em: http://www.youtube.com/watch?v=zO18p8TUgSk), uma estreia na ficção de mais um talentoso cineasta pernanbucano de seu nome Hilton Lacerda. Foi o realizador do documentário 'Cartola - Música para os Olhos' e argumentista de filmes como 'Baile Perfumado', de Paulo Caldas e Lírio Ferreira e 'Baixio das Bestas' de Cláudio Assis, mais dois filmes a reter. Em comum com 'Flores Raras', que abriu o festival extra competição, 'Tatuagem', tem o facto de ser mais uma história de um relacionamento homossexual e ser passado durante a ditadura. Só que em 'Tatuagem' são dois homens os protagonistas do romance. A história passa-se em 1978, num cabaré-teatro recifense chamado 'Chão de Estrelas', um espaço comunitário onde se reunem intelectuais e artistas, para produzirem espectáculos e 'happenings' de rua, geralmente dirigidos ao público gay e apreciadores da vaguardas off. Esta é a forma de resistência do 'Chão das Estrelas' à ditadura militar, que passa além da multidisplinaridade artistica pela anarquia, provocação e deboche.  Este núcleo teatral é liderado por Clécio (Irandhir Santos), um jovem encenador de 32 anos, culto e com uma personalidade muito forte. Só que Clécio apaixona-se por Fininha (Jesuíta Barbosa), um jovem recruta-soldado de apenas 18 recém-chegado do interior do Brasil, que vai alterar o equilibrio dessa comunidade hippie. 'Tatuagem' é um filme provocador que faz uma profunda revisitação, de um um tempo em que a palavra, o teatro-musical, e as artes tinha a força de uma revolução. O romance homosexual, até pode vir para um segundo plano. E depois há o brilhantismo e o ecletismo interpretativo de Irandhir Santos (vimo-lo em 'Tropa de Elite 2', 'A Febre do Rato' e 'O Som ao Redor'), que interpreta Clécio, e é actualmente um dos melhores actores brasileiros. O elenco de 'Tatuagem' inclui ainda grande nomes da cena pernambucana, como: Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado, Jesuíta Barbosa, o jovem actor que intérpreta Fininha, todos numa notável coralidade.

Novamente a produção local de curtas-metragens foi destacada na programação oficial com a Mostra Gaúcha, que integrou este ano 18 títulos de jovens realizadores, originários das escolas de cinema do Estado e que compuseram uma interessante competição. O grande vencedor foi 'O Matador de Bagé', de Felipe Iesbick, um divertido ensaio sobre um matador a soldo, muito inspirado nos filmes de Quentin Tarantino, que recebeu três prémios importantes: Melhor Filme, Melhor Música (Frank Jorge), Melhor Actor (João França).<#comment comment="EndFragment">