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UM COMBOIO PARA LISBOA

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Comboio Noturno para Lisboa, de Bille August

A adaptação do best-seller de Pascal Mercier, 'Comboio Noturno para Lisboa', dirigido pelo cineasta dinamarquês Bille August e rodado a maior parte em Lisboa, foi recebido ontem à noite na sessão de imprensa com alguma frieza. Na competição o oscarizado cineasta balcânico Danis Tanovic, apresentou esta manhã 'An Episode in the Life of an Iron Picker, um filme feito direitinho para os festivais, sobre a descriminação a que estão sujeitos os ciganos. Por último, com a competição quase a terminar o norte-americano David Gordon Green estreou 'Prince Avalanche', uma tragicomédia sobre o universo de dois amigos que pintam os traços nas estradas. 

José Vieira Mendes

A adaptação de 'Comboio Nocturno para Lisboa' de Pascal Mercier não era à partida uma tarefa muito fácil para nenhum realizador. E quem já leu este romance pode certicar esta afirmação. Não há livros impossíveis de levar ao ecrã, só que este, 'Comboio Noturno para Lisboa' é essencialmente um profundo ensaio filósofico e existencial, em que a viagem a Lisboa torna-se apenas o pretexto do protagonista para inspirar o seu pensamento. Para um homem com duas Palmas de Ouro e um Óscar de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar, como Bille August ('Pelle, o Conquistador'), também se esperava mais. Mesmo com as naturais dificuldades da adaptação literária; e sabendo que não é por acaso que o realizador tenha feito apenas dois filmes na última década: 'Return to Sender', e 'Goodbye Bafana', filmes que na verdade desapareceram sem deixar rasto, mesmo um biopic sobre Nelson Mandela. De qualquer modo esta produção alemã-suiça e que conta ainda com 10% da portuguesa Cinemate, consegui reunir um grupo de estrelas internacionais e portuguesas: Jeremy Irons, Bruno Ganz, Mélanie Laurent, Christopher Lee, Lena Olin, Martina Gedeck, Jack Huston, August Diehll e os portugueses Nicolau Breyner, Marco de Almeida, Adriano Luz, José Wallenstein e Beatriz Batarda, com risco de esquecer alguns mais. A grande curiosidade (pelo menos para nós portugueses) era o facto de ter sido quase na totalidade filmado em Lisboa e como uma operação de promoção que até traz em principio à Berlinale, um espectador improvável: António Costa, Presidente da Câmara de Lisboa, está anunciado para daqui a pouco numa conferência de imprensa com a produção portuguesa e os actores Marco de Almeida e Beatriz Batarda. Quanto ao filme conta a história de Raimund Gregorius (Jeremy Irons) um talentoso, mas maçador professor de meia-idade. Depois de um encontro casual com uma misteriosa mulher, num dia chuvoso da cidade de Berna onde ensina e leciona, Raimund descobre um livro do escritor e medico português, Amadeu de Prado, uma figura perseguida pelo regime de Salazar. É com este pretexto que enceta uma surpreendente viagem de comboio até Lisboa, para descobrir o destino de tão fascinante personalidade. A jornada de autodescoberta de Raimund e o que está à volta dela, é na verdade uma história apaixonante e bela, ainda mais apoiada no cenário, cor e na luz da lindíssima Lisboa, que é felizmente a grande protagonista de 'Comboio Noturno para Lisboa. O filme não é mau, mas é monótono e enrrolado: repetem-se muitos planos da cidade e das viagens de cacilheiro; a história é reduzida ao mínimo do drama; procura fazer um relato e uma história dos movimentos da oposição e da polícia política de Salazar, mas nem sempre da forma mais correcta e verossímel, pelo menos para nós portugueses. Pois é evidente que 'Night Train to Lisbon' é uma produção internacional, com um magnífico elenco, mas imagino quanto vai ser estranho para os espectadores portugueses, verem um filme rodado em Lisboa, sobre a história e as memórias do Estado Novo, todo falado em inglês.

O bósnio-hersgovínio Danis Tanovic, em 'An Episode in the Life of an Iron Picker', um conto de inverno, desenvolve um excelente drama com muita autenticidade e realismo social, sobre as dificuldades económicas e a descriminação a que estão sujeitos os ciganos nos países balcânicos. As excelentes interpretações dos actores não-profissionais parecem ser a chave para uma recriação de um episódio das suas próprias vidas: a recusa de assistência médica ou o pagamento de um valor muito elevado do tratamento, a uma mulher cigana, que tem um nado-morto de cinco meses na barriga, e não tem cartão da segurança social. O filme recusa a má imagem que temos dos ciganos, ao mostrar uma família pobre e um grupo de pessoas unidas (amigos e vizinhos), com uma coragem extraordinária para sobreviver e enfrentar as dificuldades económicas. 'Prince Avalanche' é um remake do filme islandês de Hafsteinn Gunnar Sigurdsson. No entanto, o realizador norte-americano David Gordon Green ('A Desbunda') conseguiu criar uma excelente comédia láconica e filosófica, feita entre a estrada (road movie) e o campo: dois amigos muito diferentes, que estão juntos a passar o verão a pintar os traços da estrada, decidem trocar os seus segredos e desapontamentos da vida. 'Prince Avalanche' um filme muito divertido, cheio da poesia visual típica dos filmes anteriores de Green (que apelido tão apropriado para um filme com certas características ambientalistas) e dos filmes independentes americanos, vindos da 'estufa' do Festival de Sundance. 'Prince Avalanche' foi muito aplaudido mas não tem força para chegar ao Urso de Ouro.<#comment comment="EndFragment">