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'SHUN LI E O POETA': UMA ELEGIA AOS VALORES EUROPEUS

Imagens de Fundo

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Shun Li e o Poeta, de Andrea Segre.

Shun Li e o Poeta', de Andrea Segre, Prémio Lux 2013 e o melhor da 8/12 Festa do Cinema Italiano, estreou finalmente nas salas comerciais, mas apenas com duas cópias. Na verdade, 'Shun Li e o Poeta', é um filme que merece ser visto por muitos espectadoresa:  além de uma bela e terna história de amor, é uma pequeno-grande obra, que consagra os grandes valores europeus, como a tolerância, solidariedade, integração social, fraternidade entre os povos e as nações, esquecidos nestes tempos de difíceis de crise e afirmação do capitalismo financeiro, contra os povos e o Estado-social. 

José Vieira Mendes

O filme conta a história de Shun Li (Zhao Tao, a actriz chinesa de 'Still Life' de Jia Zhangke), uma imigrante chinesa que trabalha numa empresa têxtil da periferia de Roma, para obter os documentos e dinheiro necessários para trazer o filho para a Itália. De repente, é transferida para trabalhar como empregada numa taberna da pequena localidade piscatória de Chioggia, perto de Veneza. Aí vai conhecer Bepi, (o conhecido ator croata Rade Sherbedgia) um pescador de origem eslava, há muito imigrado, a quem chamam 'o Poeta', pela facilidade com que constroi rimas entre os frequentadores do bar. O encontro entre os dois torna-se numa fuga poética à solidão, um diálogo entre culturas diferentes, que aos poucos vão ficando mais próximas. Esta amizade, porém, acaba por incomodar tanto os locais, como a comunidade chinesa, que se vão opor a esta improvável relação e mostrar as implicações dessa necessidade de integração social. É assim entre a melancólica e cinzenta da paisagem da laguna veneziana (excepcionalmente fotografada por Luca Bigazzi) e o património edificada e que passa por uma transformação, na província do Veneto, que o habitual documentarista Andrea Segre, (docente em Sociologia da Comunicação, na Universidade de Bolonha) faz a sua estreia no cinema de ficção. Segre estreou em 2012, com Stefano Liberti, 'Mare Chiuso', um premiado documentário-denúncia sobre os imigrantes africanos, que viajam de barco da Líbia e são interceptados no Mediterrâneo. Segre é um cientista social e em 'Shun Li e o Poeta' (www.youtube.com/watch?v=fB6aNVyLqx8), regressa ao estudo da dimensão humana, não apenas como um objeto de conflito politico, mas igualmente como motor de mudança social. E com um tema que lhe é grato e afecta as vidas de todos os cidadãos europeus: a imigração. No entanto, 'Shun Li e o Poeta' apesar do seu realismo cru, não tem um tom demasiado documental ou académico.  É um filme de pura poesia, que se vai tranformando em imagem e palavra a cada momento, mesmo nos mais circunstanciais e dramáticos. O filme consegue um equilibrio entre o lirismo e a realidade, a leveza de um sorriso genuíno e a denúncia da escravidão e do tráfico humano. Já abordado no filme 'Gomorra' de Matteo Garrone e de uma forma mais cruel no romance original de Roberto Saviano. As imagens cinzentas, as cheias, o 'sol tímido a tremer de frio' da Laguna, a trivilidade do imobiliário moderno, que vai substituíndo o património e o antigo, o provincianismo arcaico (encarnado pela bruta personagem do actor Giuseppe Battiston), mais a bela música de fundo, mergulhar-nos numa dimensão de beleza e prazer, rara em filmes de matriz social e realista. 'Shun Li e o Poeta' é na verdade uma espécie de conto de fadas, passado na realidade, que não se rende ao sentimentalismo fácil ou ao dramatismos bacoco de uma tragédia social. A tal contaminação perfeita da realidade coma ficção. 'Shun Li e o Poeta' é um filme leve, com um final feliz, com excelentes interpretações dos actores de tão diferentes nacionalidades, como são os dois protagonistas. Em 'Shun Li e o Poeta' nada fica fora do lugar, nem mesmo a estupidez de certos legados culturais e racistas que sobrevivem, nesta Europa: curiosamente desde tempo de Marco Polo, aos tempos das políticas da Senhora Merkle. Em exibição em Lisboa: Cinema City Alvalade; Porto: Zon Lusomundo Dolce Vita Porto.

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