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REFLEXÕES SOBRE AS MEMÓRIAS

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Carne de Perro, de Fernando Guzzoni

'Carne de Perro' é uma sólida estreia do jovem chileno Fernando Guzzoni, com uma história 'stressante', sobre um cinquentão chileno que não consegue escapar ao fardo do seu passado sombrio de verdugo de Pinochet. Passado numa pequena aldeia de montanha turca, 'Die Erbin', de Ayse Polat, conta a história de Hülya que vem da Alemanha para escrever um romance sobre seu falecido pai. Um assassino profissional, divertido e melancólico que já não mata mais ninguém é o protagonista de 'El Muerto y ser feliz', de Javier Rebollo, um road movie irónico, tranversal e panorâmico sobre a sociedade argentina através paisagem das planícies das pampas.

José Vieira Mendes

Os chilenos, como uma boa parte dos latino-americanos, vivem agora o sonho do desenvolvimento e da democracia. Por isso, podem agora olhar o futuro com um certo optimismo e esperança. No entanto, as chagas da ditadura de Pinochet que afogou o país no medo entre 1973 e 1990 são permanente reavivadas no cinema chileno (Pablo Larraín é um dos grandes exemplos) e são o tema de 'Carne de Perro', do jovem Fernando Guzzoni, mostrado no Bright Future. Alejandro (interpretado por Alejandro Goic, um dos mais famosos actores chilenos) é um cinquentão aposentado, que trabalhou na tortura das prisões de Pinochet. Alejandro, vive agora à margem da sociedade, incapaz de se recuperar dos seus traumas do passado. Quando um de seus antigos colegas comete suicídio, vem ao de cima ainda mais o seu temperamente violento e instável. A mulher e a filha não querem saber dele. E a sua única companhia é um velho e fiel cão moribundo, que foi baleado pelos vizinhos por fazer muito barulho, a quem Alejandro corresponde com algum afecto e cuidados. Fernando Guzzoni faz sua estreia nas longas-metragens com este filme sólido, muito marcado pela excelente direcção de fotografia de Bárbara Álvarez ('De jueves a domingo'). Sempre em cima do protagonista e muitas vezes de costas para o espectador, os planos vão realçando a paranoia de Alejandro, adensando ainda mais um clima que está na fronteira da tensão e da claustrofobia. 'Carne de Perro' apesar de ser um filme bastante opressivo, não é de todo moralista, nem faz qualquer julgamento. Na verdade, não vemos o cão a ser baleado durante o filme, mas Alejandro Goic, (foi em jovem torturado pelos homens de Pinochet), faz um papel absolutamente brilhante.

O filme 'Die Erbin', da realizadora turca Ayse Polat, apresentada na secção Spectrum, é uma bela viagem pelas memórias familiares de Hülya, uma jovem escritora turco-alemã, que vive em Berlim. Trata-se de mais um filme na linha de muito filmes do cinema turco, ambientado nas belas paisagens das montanhas da Turquia. Alguns anos após a morte de seu pai, Hülya decide escrever um romance sobre ele. Com o objectivo de conhecer melhor as suas raízes familiares, viaja para Damal, a localidade onde o seu pai nasceu e onde ela própria cresceu até imigrarem para a Alemanha. Hülya reencontra as pessoas da sua infância e reconstrói parte da sua vida, na escola onde aprendeu a ler e a escrever, na casa onde viveu, inspirada na bela paisagem em redor da aldeia. Enquanto vai observando, vai alterando aos poucos a imagem positiva que tinha do seu pai, já que acontecimentos dramáticos moldaram as suas vidas. Imagens difusas vão-se reconstruíndo na sua cabeça ao mesmo tempo, que presente, passado, realidade e fantasia vão encaixando naturalmente, mostrando cada vez mais que a memória é um instrumento por vezes falível, e ainda bem para certas situações mais traumáticas. A natureza perdida num tempo passado (que pode por vezes ser impiedoso), é o cenário idílico e perfeito de 'Die Erbin', uma excelente reflexão sobre o valor dos laços familiares, amor e honra, na ainda algo impermeável sociedade turca.

Depois dos dramas, eis que nos chegou um toque de humor para desanuviar, na diversidade da secção Spectrum, com 'El Muerto y ser feliz', de Javier Rebollo. Não se trata de uma estreia, pois 'El Muerto y ser feliz', foi o filme vencedor do Prémio FIPRESCI da crítica internacional, em San Sebastian, onde José Sacristán (Santos) ganhou um Prémio de Melhor Ator. Na verdade, ambos os prémios são bastante merecidos. Com uma caixa amarela cheia de seringas de morfina, que comprou a enfermeira que também lhe oferece serviços eróticos, Santos (José Sacristan), um ex-assassino a soldo, em fase terminal, faz a sua última viagem. O destino deste 'homem comum' é tão incerto quanto é certo que no seu caprichoso destino não pode evitar a morte. No entanto, consegue encontrar uma maneira de viver, os seus últimos dias. No seu velho carro, que carinhosamente chama Cambório, Santos viaja através das panorâmicas planícies argentinas, hospedando-se em hotéis manhosos. Pelo caminho, Santos encontra uma mulher que também tem uma ligação com a morte. 'El Muerto y ser feliz' é um curioso road movie de amor, com situações inesperadas e ocasionalmente absurdas, com uma voz off, de uma narrador que comenta o que vai acontecendo, numa linguagem que combina o cinema com a banda desenhada.