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RECONSTRUÇÕES FAMILIARES

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Stay Dogs, de Tsai Ming-liang.

O italiano Giafranco Rosi apresentou hoje a concurso, 'Sacro GRA', uma boa ideia de documentário, mas uma oportunidade perdida para contar as muitas e interessantes histórias das pessoas, que vivem em volta da grande auto-estrada circular de Roma. Os caminhos para a reconstrução da familia e a solidão nas grandes cidades, cada uma à sua maneira, foi na verdade os temas comuns de 'Stray Dogs', do cineasta taiwanês Tsai Ming-liang; e igualmente de 'La Jalousie', do francês Philippe Garrel, um eterno inspirado no cinema da nouvelle vague. Amanhã termina a competição com 'Les Terrasses', de Merzak Allouache e a festa está quase no fim.... 

José Vieira Mendes

Numa grande metrópole marcada pela crise financeira e desemprego elevado, uma pequena família luta desesperadamente para sobreviver e encontrar a estabilidade. Este é o ponto de partida de 'Stray Dogs' (www.youtube.com/watch?v=pnyEmjmpI78) e o pretexto para Tsai Ming-liang ('Não Quero Dormir Sozinho'), um dos cineasta-aurtores orientais mais anti-narrativos, trazer à competição de Veneza, o dia-a-dia de uma família em dificuldades e uma poética fábula, sobre a marginalidade e a solidão nas grandes cidades. Hsiao Kang (Lee Khang Sheng) um pai traumatizado pela separação, anda com duas crianças pela cidade de Taipé, recolhendo-se com elas num velho edifício abandonado e em ruínas, da periferia da cidade. Enquanto ganha a vida como 'homem-anúncio', as crianças vagueiam, pelo hipermercado. É lá que Xiau Lu (Lu Yi-Ching), uma generosa mulher, decide ajudar as crianças, procurando restabelecer o precário equilíbrio familiar em que vive esta família monoparental. Mas ao mesmo tempo Xiau Lau procura sarar as suas próprias feridas e solidão. 'Stray Dogs' é um conto metropolitano concebido através  planos exaustivos, mas muito belos (como é habitual em Tsai Ming-liang). É sobretudo um perturbante retrato social de Taipé, capital de um dos países orientais mais afectados pela crise financeira mundial (e a bolha imobiliária nos EUA), ao contrário da China. Rotura familiar, drama de ciúmes, confusão de sentimentos e nova oportunidade para a família, resume-se assim a simples trama de 'La Jalousie', (www.youtube.com/watch?v=dBEfwKRbc9g), o novo filme a preto e branco de Philippe Garrel. Um filme que na verdade não escapa muito à ligação com os temas dos seus filmes anteriores: 'Os Amantes Regulares' e 'Fronteiras do Amanhecer'. O cineasta-autor francês coloca-nos assim perante mais uma história comum, de título bastante explícito, sobre os ciúmes de um actor e jovem pai (Louis Garrel), que abandonou a sua família, e da sua relação com a sua nova e instável namorada (Anna Mouglalis), que acaba também por o deixar e por fim a esta relação. 'La Jalousie' é um filme simpático, mas sem grandes enigmas ou complexidades e demasiado igual aos anteriores.  Os três anos dentro de uma carrinha VW a filmar a GRA (sigla de Grande Raccordo Anulare), não chegaram ou talvez terão sido demais, para Gianfranco Rosi em (www.youtube.com/watch?v=a2oEx9tuCr4) 'Sacro GRA', descrever e contar as histórias das múltiplas figuras, que habitam os arredores de Roma, cercados quase como um muro, por uma das maiores rodovias da Europa, em torno da capital italiana. Rosi centra-se pouco na GRA, perde-se nas demasiadas personagens (as prostitutas, o pescador de enguias e sobretudo Roberto, o homem do 118, ou a estranha figura do Conde Templário), e passa infelizmente muito ao de leve pela sua riqueza narrativa. Um boa ideia que se perdeu talvez pela falta de um argumento bem planeado e na quantidade de imagens captadas por Rosi.<#comment comment="EndFragment">