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PRÉMIOS PARA UM BRASIL (QUASE) INVISÍVEL!

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A Colecção Invisível, o Melhor Filme do FESTin 2013.

Os filmes brasileiros dominaram sem grande surpresa, os prémios da quarta edição do único festival de cinema lisboeta e itinerante, dedicado a filmes exclusivamente em língua portuguesa. O importante é que nos mostraram o outro lado de um país enorme, de grandes contrastes e ilusões, assentes numa economia emergente, que não é a 'terra prometida', que muitos pensam. Foi talvez por isso, que 'A Coleção Invisível', de Bernard Attal, filme de estreia do realizador francês radicado na Baía, ganhou o Prémio de Melhor Longa-Metragem da Competição. O Prémio CPLP, foi atribuído pela primeira vez e desta feita, ao documentário 'Cartas para Angola', dos realizadores Coraci Ruiz e Júlio Matos (Brasil), um galardão que representa, além dos aspectos artísticos, a essência deste festival, no reforço dos valores culturais e cinematográficos dos países da língua portuguesa.

José Vieira Mendes

O júri presidido pela actriz Sara Carinhas, em representação da Academia Portuguesa de Cinema atribuíu o Prémio de Melhor Longa Metragem ao filme baíano 'A Coleção Invisível', de Bernard Attal, um realizador francês, radicado na Baía, apaixonado desde a juventude pela obra literária de Jorge Amado e pelo Brasil. O filme, que passou injustamente quase invisível (pelo menos pela crítica mais mediática) na secção Premiere Brasil, do Festival do Rio 2012 é uma bela e misteriosa viagem de auto-reconhecimento de Beto (Wladimir Brichta), um jovem DJ da classe média-alta baíana, em decadência, que tem como pano de fundo a crise nas plantações de cacau no interior da Baía. 'A Colecção Invisível' é ao mesmo tempo um cirúrgico e súbtil retrato dos grandes contrastes da sociedade brasileira e que decompôem na a ilusão de um rápido crescimento da economia brasileira da actualidade, pelo menos fora da das grandes metrópoles como São Paulo ou Rio de Janeiro. Beto é oriundo de uma tradicional família de antiquários que depois da morte do seu patriarca entra em crise financeira. Para tentar solucionar este problema, salvar o negócio de antiguidades da família, Beto algo marcado por um tragédia, que por pouco não lhe retirou a vida, faz uma viagem até a cidade de Itajuípe, no interior da Baía, atrás de uma coleção raríssima de gravuras, vendidas há muitos anos pelo seu pai. É nas paisagens das grandes plantações de cacau, vendido agora por meia-dúzia de reais e nos arredores da pequena e miserável cidade do interior, que Beto vai encontrar o sábio colecionador Samir (Walmor Chagas) e sua amragurada família, que passam igualmento por uma situação financeira muito difícil. Este encontro, bem como o confronto com uma realidade social e económica que desconhecia, faz com que Beto altere de certa forma de pensar a vida e a sua maneira de olhar o mundo. Inspirado num conto do escritor austríaco Stefan Zweig que procurou inspiração e terminou a sua vida na cidade de Petrópolis na década de 40 do século XX. Este filme foi também o último trabalho do grande ator Walmor Chagas, (conhecido em Portugal por muitas telenovelas como 'Os Maias' ou 'Páginas da Vida', antes do seu falecimento recente na sua fazenda no interior de São Paulo. Chagas interpreta em 'A Colecção Invísível', um personagem solitário do ponto de vista psicológico e debilitado fisicamente, muito semelhante aos seus últimos dias de vida, terminada por vontade própria. Aliás ironicamente, (mas por razões diferentes), como muito dos plantadores baíanos falidos e destruídos por más colheitas, devidas a uma 'peste vegetal', que afectou o cultivo do cacau e os levou à crise financeira.Pela primeira vez no FESTin, foi atribuído o Prémio Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, que reflecte de alguma forma a essência deste festival. Surpreendentemente em relação ao favoritismo quase óbvio de 'O Grande Kilapy', uma co-produção Portugal-Brasil-Angola do realizador luso-angolano Zézé Gamboa, o Prémio CPLP, foi entregue ao filme 'Cartas para Angola', dos realizadores Coraci Ruiz e Júlio Matos (Brasil). Trata-se de um excepcional e brilhante documentário que segue uma 'narrativa continuada' de cartas e mensagens trocadas entre individuos dos três países de língua portuguesa: Brasil, Angola e Portugal. O filme segue várias histórias e 'narrativas', onde as pessoas revelam algo mais sobre as suas culturas, falam dos amores, preconceitos, arte e poesia, tentando esboçar, um retrato sincero e íntimo das suas identidades individuais e nacionais no contexto das relações entre estes três países com uma história e língua comuns. O júri das longas-metragens atribuiu ainda Prémios de Melhor Intepretação: a Leandra Leal, a jovem actriz desta nova versão de 'Bonitinha, mas Ordinária', um filme de Moacyr Góes (Brasil), a partir da peça do dramaturgo Nélson Rodrigues; e ao grande actor brasileiro Lázaro Ramos pela sua brilhante interpretação de um 'gingão' luso-angolano em 'O Grande Kilapy', do realizador Zezé Gamboa. O aplaudido e muito apreciado 'Colegas', de Marcelo Galvão, um filme positivo de grande sensibilidade e diversão, protagonizado por três brilhantes actores com síndrome de down, recebeu uma menção honrosa do júri e foi naturalmente escolhido pelo público como a melhor longa-metragem do festival (Prémio do Público). Na outra competição, o júri presidido por Zeca Brito, realizador e director do Festival Internacional de Cinema da Fronteira, Bagé (Brasil) elegeu 'Cowboy', de Tarcísio Lara Puiati (Brasil), como a Melhor Curta-Metragem do FESTin 2013, um filme que mostra igualmente um Brasil, invisível aos olhos do mundo, vendido como uma economia emergente, dos eternos sol, samba e futebol, mas a ainda com fortes contrastes sociais. O filme é um brilhante e único plano-sequência de um homem sem-braço, denominado 'cowboy', que circula montado numa bicicleta por uma via interminável, atrás do veículo que leva a câmara e a equipa de filmagens, no decorrer de um belo fim de tarde do norte do Brasil e na paisagem urbana e pobre da região amazônica. A luz do ocaso vai emprestando cores e sombras únicas, em particular na observação de um céu vermelho, lindíssimo em fundo. Em voz off vamos ouvindo num registo essencial do tempo de uma curta-metragem, um protagonista que não se rende à necessidade de contar as suas verdades ou pelo contrário iludir-nos com com as suas estranhas mitómanomias e contradições. Este júri de curtas-metragens atribuiu ainda três menções honrosas: a Fernanda Montenegro pela sua interpretação em 'A Dama do Estácio', do brasileiro Eduardo Ades; e ao ator português Cristóvão Campos, em 'Nylon da Minha Aldeia', do realizador Possidónio Cachapa (Portugal), que recebeu o prémio em nome do protagonista do filme; e ainda a 'Água Boa, Vida Saudável', do realizador são-tomense Kalú Mendes, pela relevância da temática em foco neste documentário de sensibilização ambiental e oportuno já que se comemora Ano Internacional da Cooperação pela Água, em 2013. 'O Bebé', do jovem realizador iraniano Reza Hajipour, radicado em Portugal, foi a curta preferida pelo público das sessões realizadas todas entre 3 e 10 de Abril nas salas do Cinema São Jorge em Lisboa.

www.festin-festival.com

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