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OS SONS AFRO-TROPICAIS

Imagens de Fundo

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Death Metal Angola, um grande documentário angolano.

'Tropicália' de Marcelo Machado é uma brilhante homenagem aos músicos e cantores brasileiros percursores da chamada MPB da década de 60: Caetano Veloso e Gilberto Gil, debutam num 'Zip-Zip', de Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado. E é assim que começa simbolicamente este 'Tropicália' com imagens de arquivo da RTP. Mas a música continua nesta secção Signal: Sound Stages com 'Death Metal Angola', de Jeremy Xido, mostrando o planalto do Huambo que foi devastado pela guerra civil entre o MPLA e a UNITA e agora tornou-se o epicentro da cena musical hardcore africana. Um grande documentário musical pouco ou nada politicamente correcto.

José Vieira Mendes

'Tropicália' foi um movimento artístico que explodiu principalmente fora do Brasil no final dos anos 60, com Caetano Veloso e Gilberto Gil como principais figuras no campo musical. Em contrapartida o realizador Glauber Rocha revelou-se o mais ilustre realizador e representante deste tropicalismo ao nível do cinema, ao divulgar o seu talento pelo mundo fora.Tratou-se de uma reação natural dos intelectuais e artistas à ditadura e á turbulenta história sócio-política do Brasil nos anos 60 e 70. Tal como os modernistas brasileiros, antes deles, os 'tropicalistas' procuravam combinar os aspectos da vanguarda europeia e norte-americana, com as culturas tradicionais afro-brasileiras e indígenas. O objectivo era criar uma música popular e contemporânea saída de um híbrido de influências culturais. 'Tropicália' é um documentário musical, feito a partir de uma vibrante colagem de imagens, notícias, vídeos, fotografias, que retratam estes anos loucos e até de alguma forma psicodélicas. O filme é uma  evocação à estética tropicalista que vai desde, e ao nível da música, da 'importada' guitarra elétrica, dos Beatles, aos pífaros tradicionais (flautas) tocados por músicos populares. Assistimos agora como mostra 'Tropicália', a uma espécie de regresso a esta estética 'world music', com músicos contemporâneos, como Beck, David Byrne, Nelly Furtado e os Sonic Youth a beberem estas influências, afro-brasileiras

A música angolana não se reduz apenas ao ritmo do kuduro de Luanda, capital de um dos países mais ricos de África. Depois de uma luta pela indepêndência que durou 14 anos e uma guerra civil que durou mais de duas décadas, Angola era um país completamente desvastado. Talvez por isso a cidade do Huambo, uma das mais atingidas pela guerra entre o MPLA e a UNITA, tornou-se no epicentro de uma emergente cena musical: o death metal, um espécie de rock hardcore africano. O documentário 'Death Metal Angola', de Jeremy Xido é sobre duas pessoas que trabalhavam num orfanato do Huambo, que tiveram o sonho de organizar o primeiro grande concerto de death metal, a nível nacional. Depois todo o filme é um viagem pela música de uma geração de jovens que cresceram com as promessas não cumpridas numa Angola pós-guerra. Uma geração decepcionada com as várias tentativas falhadas para reconstruir seu país, mas que quer fazer história. A sua expressão é a música e o concerto teve uma importancia simbólica, pois mais que um simples evento, funcionou como uma afirmação de vida e um grito de revolta. Um documentário espantoso do melhor que já saiu do actual cinema angolano.

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