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O LUGAR DA TRAGÉDIA

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De Martes a Martes, uma excelente primeira obra.

'De Martes a Martes', do argentino Gustavo Fernández Triviño, é uma excelente primeira obra que reflecte as dificuldades de vida e de sobrevivência da população pobre, numa Argentina que vive numa crise económica permanente. A mexicana Lúcia Carreras em 'Nos vemos, papá', ofereceu-nos um ensaio intimista sobre a dor e a perda. 'Ni un hombre más' é uma tragi-comédia do absurdo, dirigida pelo argentino Martín Salinas, que procura dar um olhar humorístico sobre o lado animal dos humanos. 

José Vieira Mendes

'De Martes a Martes' de Gustavo Fernández Triviño, é um filme fabuloso carregado de suspense e tensão policial. E ao mesmo tempo é um filme que vai pouco a pouco questionando o espectador em relação à ética do (aparentemente) simpático protagonista. Tudo isto como pretexto para apresentar uma obra de carácter social que mostra a luta constante e quotidiana pela sobrevivência, das pessoas menos abastados, num dos países mais ricos da América Latina. O filme passa-se durante uma semana, conta a história de Juan Benitez (Pablo Pinto), um musculado trabalhador fabril de poucas falas, adepto do culturismo, humilhado pelos seus colegas e chefias. À custa de uma chantagem sobre o autor de uma violação, que Juan presencia sem agir, acaba por consolidar o seu sonho de abrir um ginásio. Um enorme destaque sobretudo para o sofisticado trabalho de composição do actor Pablo Pinto, que constroi um personagem obscuro e misterioso que foge cobardemente ao contacto com a sociedade. Pinto não fala muito, expressa-se com olhar, teve até que aprender certos movimentos de uma estrutura física mais pesada. Notável todo este processo de preparação do personagem que durou varios anos e levou Pinto a engordar 30 kilos, seguir um dieta e contar com um treinador pessoal para ganhar musculação. Mais um filme que demonstra o grande carácter e originalidade de histórias do cinema argentino. Em 'Nos vemos, papá' a realizadora mexicana Lucía Carreras construí uma curiosa história sobre a exploração obsessiva da dor e do vazio. E torna-se mais interessante ainda pela possibilidade de deixar em aberto muitos segredos sobre a complexa personagem, interpretada pela bela actriz Cecilia Suárez. 'Nos vemos, papá' explora não só a dor e vazio provocado pela morte de uma pessoa muito querida, mas também a perda de um companheiro de 40 anos de vida, que pode ser mais do que apenas um pai. Um filme que deixa em aberto um caso de incesto e que de alguma forma remete para o tema universal do complexo de Electra. 'Ni un hombre más', é igualmente uma primeira obra, desta vez dirigida pelo agora realizador, antes veterano argumentista e produtor argentino, Martín Salinas. 'Ni un hombre más' é uma obra coral ao nível das interpretações, mas a cabeça de cartaz é a conhecida (pelo menos na Argentina) actriz Valeria Bertuccelli. O filme decorre na floresta perto da fronteira da Argentina com o Brasil. E de facto através da comédia (negra) e do humor podem-se abordar temas muito sérios. Esta história de mortes sucessivas (inspirada em algumas estafadas comédias americanas) torna-se por vezes até caricata e absurda. Estabelece à custa do humor e de um rigoroso estudo sobre as iguanas, essa natural relação entre homens e animais. No fundo temos em comum, cérebro de répteis e instinto de sobrevivência. <#comment comment="EndFragment">