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MIGUEL GOMES: UM CINEASTA SEM TABUS

Imagens de Fundo

MIGUEL GOMES, REALIZADOR DE TABU

  O vencedor do Prémio Alfred Bauer e da Crítica na Berlinale sentiu logo que 'Tabu' não tinha passado despercebido. Ainda a frio e com uma das mais repletas conferências de imprensa sem 'estrelas americanas' realizadas em pleno festival, Miguel Gomes explicou os segredos de 'Tabu' e fala d seu e de um dos melhores filmes portugueses de sempre. Na verdade, como prémio veio a confimar, 'Tabu' é igualmente um dos filmes mais inovadores da cinematografia mundial contemporânea. Eis em linhas gerais as palavras directas do realizador para melhor compreender e levar ainda mais espectadores às salas para ver um grande filme português, que está já na calha do mercado e dos maiores festivais internacionais. Estreia na próxima quinta-feira.

José Vieira Mendes

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HOMENAGEM AO CINEMA? 

O cinema não precisa de ser homenageado. É um filme que tem muita vontade de dialogar com a memória do cinema clássico americano e com o cinema mudo. Não é uma homenagem pois o cinema não precisa de ser homenageado, a não ser pelos filmes que vamos continuando a fazer.

 

REFERÊNCIAS A MURNAU:

Tenho uma questão neurológica que é a minha fraca capacidade de me recordar das coisas. Portanto, não tenho qualquer intenção de citar filmes ou realizadores em concreto. Desde a minha juventude que devoro filmes, inclusivamente do Murnau. Lembro-me que nessa altura as televisões generalistas ainda faziam algum sentido e passavam ciclos do Murnau. Algo que hoje seria completamente impossível. Quando tinha quinze anos a RTP, a televisão pública portuguesa, até passou um ciclo inteirinho do Murnau. Não estou, apesar do título a citar este ou aquele filme do Murnau. Não me interessa fazer um cinema de citações, que tenha um referência concreta. Pois isso pode fechar o cinema numa espécie de circuito fechado. Mas existe de facto em mim integrada (e espero que digirida) essa experiência de espectador de cinema, que passa pelo Murnau e por outros grandes cineastas. Quem tenha um bocadinho de coração não é indiferente aos filmes do Murnau.

 

EXOTISMO VERSUS COLONIALISMO:

Acho que as duas coisas podem coexistir. Não quis demonstrar que o colonialismo é uma coisa necessariamente má. Há uma memória disso e chega! Muita gente regressou a Portugal há cerca de 30 anos vinda das antigas colónias portuguesas. Para preparar este filme conheci um grupo de pessoas que tinham uma banda de música em Moçambique que me falavam como se ainda estivessem ligadas aquela terra. Diziam coisas que do ponto de vista politico e ideológico, eu não estava de acordo. Mas havia nelas uma grande verdade emocional, na forma como descreviam o tempo que lá passaram e as coisas que tinham feito em Moçambique. Percebi que esse lado afectivo era muito forte, independentemente do tempo e do regime politico que viveram na sua juventude. O filme está de alguma forma estruturado dessa maneira. Uma parte tem a ver com a velhice e outra com a juventude. Outra com a solidão, outra por oposição com a possibilidade do amor existir. Aí talvez tenha a ver como o Murnau e com o cinema mudo. No cinema mudo havia opções binárias muito fortes. Havia estes contrastes, campo-cidade, 'paradise, paradise lost'. Quis pôr essas duas coisas em oposição, razão pela qual o filme está dividido em duas partes. Na segunda parte, existe um lado afectivo, relativamente à memória daquele tempo. Não quer dizer que não haja um distanciamento crítico em relação aquela sociedade. O colonialismo ali é um bocado como a barriga da Aurora (Ana Moreira). Ela está grávida e aquela relação dela com o Ventura (Carloto Cotta) é um bocado a prazo. Sente-se que há como que uma bomba-de-relógio, que vai explodir a qualquer momento. Podemos tentar ignorar isso, mas essa bomba vai explodir à mesma. O colonialismo facilita uma relação entre duas pessoas, que obviamente não tem futuro.

 

FILME FALADO OU FILME MUDO?

Trabalhamos com os actores de uma forma diferente da primeira para a segunda parte. Na primeira, ensaiamos como é normal alguns meses a partir do guião. Na segunda, fizemos uma coisa que adoro fazer: atirei fora o guião e os actores não sabiam o que iam fazer. Agradeço o excelente trabalho de todos os actores do filme. Estou muito contente com aquilo que deram. Mas em relação aos actores da segunda parte, havia essa questão um bocado ingrata: isto é, quando acordavam não tinham a minima ideia do que iam fazer nesse dia. Sabiam na generalidade um pouco da história, que havia uma tal de Aurora e um Senhor Ventura, que iam acabar por se envolver num romance. Sabiam mais ou menos qual ia ser o desfecho da história. E até sabiam que havia um crocodilo romântico. Mas mais nada. De facto este actores trabalharam comigo numa relação de absoluta confiança e entrega aos seus papéis. Se lhes pedisse as coisas mais absurdas - e até tenho noção que pedi algumas - mostraram-se sempre dispostos a fazê-lo. O trabalho desses actores foi de uma generosidade espantosa,

 

DUAS PARTES E UM PRÓLOGO

De repente lembrei-me da personagem do explorador, que aparece no prólogo. Ele não faz parte da história passada nos anos 60. O filme começa com um prólogo: um explorador, uma espécie de Livingstone, neste caso um português do século XIX. A ideia era começar o filme com uma espécie de imaginário romântico, quase extremo. Há um texto que acompanha essa história do explorador, que está escrito de uma forma muito barroca. Portanto esse romantismo logo de início é quase caricatural no sentido em que é tão excessivo. Quis começar com esse romantismo todo e depois trabalhar o filme todo nesse sentido, para que cena após cena chegar ao início outra vez. Ou seja chegar ao fim do filme, na parte africana e ter recuperado qualquer coisa desse lado excessivo, com a sequência de troca de cartas entre os amantes. Enfim o objectivo era atingir esse romantismo inicial.

 

UM CINEASTA SEM TABUS

Quanto á ideia central do filme, vou tentar responder a isso.. Não gosto de ideias centrais nos meus filmes. Dei aulas ou seja estranhamente convidaram-me para dar aulas numa escola de cinema em Genébra, na Suiça,. Nesse curso tive que acompanhar o trabalho dos alunos, que nesse ano iam fazer um filme, desde a sua fase inicial: desenvolvimento do guião, escolha de actores, por aí for a...  até terem o filme feito. Nessa altura estava precisamente a escrever 'Tabu', e disse-lhes: O filme que estou a escrever agora, nasceu de um simples relato de uma familiar minha, que me contou um problema que teve no prédio; a empregada doméstica de uma vizinha, estava muito zangada com ela, porque achava que ela se estava a meter demasiado na vida da patroa, como a Pilar (Teresa Madruga) da primeira parte do filme. Tudo começou por aí por uma história e umas personagens que me interessaram e que habitualmente não se vêem no cinema: mais velhas, sem um lado romanesco muito acentuado e com lado quotidiano muito vulgar. E de repente cheguei a África e á história do crocodilo. Isto se calhar não é o melhor exemplo do vosso professor português. Mas na verdade quando se trabalha com o lado mais racional e se fala de temas e de se tenta encontrar cenas para ilustrar uma determinada ideia de uma construção racional,  ficamos muito reféns disso. Eu acredito que o cinema se faz de uma forma mais orgânica: temos uma cena e de repente existe a possibilidade de acabarmos em África, com crocodilos. Provavelmente os meus alunos suiços ficaram ainda mais baralhados, do que estavam. Espero, pedindo as minhas desculpas à Suiça se os confudi, que eles com esta ideia, evoluam e possam vir a fazer bons filmes.

 

Sinopse

 

Uma idosa temperamental, a sua empregada cabo-verdiana e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filme de aventuras.

 

MIGUEL GOMES.

Nasceu em Lisboa em 1972. Estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema e trabalha como crítico de cinema na imprensa portuguesa entre 1996 e 2000.

Realizou várias curtas metragens premiadas em festivais como Oberhausen, Belfort ou Vila do Conde e exibidas em Locarno, Roterdão, Buenos Aires ou Viena. Realizou em 2004 a sua primeira longa metragem, A CARA QUE MERECES. Em 2008, estreou o seu filme, AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, na Quinzena dos Realizadores em Cannes, posteriormente exibido em mais de sessenta festivais internacionais onde recebe dezasseis prémios. Teve retrospectivas nomeadamente na Viennale (Aústria) em 2008, no Bafici (Argentina) em 2009 ou no Cinema Arsenal em Berlim (Alemanha) em 2010. Estreia agora a sua última longa-metragem, TABU, exibida na competição oficial da Berlinale, onde recebeu: Prémios Aflred Bauer e Prémio Fipresci.

 

 

Realização: Miguel Gomes. Interpretação: Teresa Madruga • Laura Soveral • Ana Moreira • Henrique Espírito Santo • Carloto Cotta • Isabel Cardoso • Ivo Müller • Manuel Mesquita • Argumento: Miguel Gomes e Mariana Ricardo • Director de Fotografia: Rui Poças • Som Vasco Pimentel • Produtor associado: Alexander Bohr, ZDF/Arte • Produtor executivo: Luís Urbano • Co-produtores Janine Jackowski, Jonas Dornbach, Maren Ade, Fabiano Gullane, Caio Gullane, Thomas Ordonneau • Produtores: Luís Urbano e Sandro Aguilar. 35MM | P&B | 1:1.37 | Dolby SRD | 118'