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LUIS DIOGO: '...BASICAMENTE NÃO GOSTO DE CINEMA PORTUGUÊS...'

Imagens de Fundo

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PECADO FATAL, DE LUIS DIOGO

No dia da projecção oficial de 'Pecado Fatal', o filme português, que com surpresa integra a competição oficial onubense, o realizador, que começou por escrever argumentos para outros, fala da sua primeira longa-metragem, da escolha dos protagonistas, das dificuldades de financiamento e distribuição desta obra que foge aos cânones habituais do cinema português. É um filme feito com um orçamento muito reduzido, pago do seu próprio bolso, mas para chegar aos espectadores. Um prémio em Huelva dá-va muito jeito....

José Vieira Mendes

IMAGENS DE FUNDO: Na pesquisa vi num cartaz de 'Pecado Fatal', está uma frase: 'Um filme português para quem não gosta de cinema português'. Porquê esta frase?

LUIS DIOGO: O primeiro cartaz (provisório) do filme tinha realmente essa frase. Já retiramos porque disseram-me que era perigosa. Mas basicamente não gosto de cinema português, e sinto que quase ninguém gosta. Era uma frase que queria dizer que, apesar de português, o filme podia ser apreciado por quem não gosta de cinema português.

I.F.: Esta é a tua primeira longa-metragem, depois dos argumentos de 'A Bomba', do Leonel Vieira e de 'Gelo' do Luis Galvão Teles. Sentiste-te que estavas na altura de dirigires os teus próprios filmes?

L.D.: 'A Bomba' é um filme que não existe. Não existe sequer em DVD. Por isso quando me pedem para vê-lo, não o consigo mostrar, porque mesmo a minha cópia em DVD, está estragada e o Tino Navarro não me arranja uma nova. O 'Gelo', apesar de ter recebido subsídio do ICA em 2005, nunca se fez... Continua em pré-producao. Ou seja, sou guionista de dois filmes que não existem. Em marco de 2012, o Luis Galvão Teles telefonou-me a dizer que mais uma vez a producão do filme ia ser adiada, porque o ICA não ia dar dinheiro sequer aos filmes já subsidiados. Quando desliguei pensei: 'se fico a espera, daqui a 20 anos ainda continuo esperando. Por isso vou e produzir eu uma longa-metragem. E cá estamos um ano e meio depois com o 'Pecado Fatal'.

I.F.: Há uma história de amor, que provém de uma história de abandono e solidão. Baseaste-te em factos reais?

L.D.: A história não se baseia em factos reais. Geralmente as minhas histórias não tem base na realidade. Curiosamente, as minhas 3 curtas-metragens tocam o tema da paternidade ou a da ausência dela. Mas só notei isso quando me chamaram a atenção, já durante a rodagem do 'Pecado Fatal. Não tenho nenhum problema de paternidade, porque os meus pais estão vivos e de saúde.

I.F.: Normalmente os filmes portugueses, passam-se sempre nas grandes cidades (Lisboa ou Porto). Porque é que 'Pecado Fatla', passa-se numa cidade tão improvável, como Paços de Ferreira, 'a capital do móvel'?

L.D.: Neste momento vivo em Paços de Ferreira. A casa do filme é a minha. Foi por isso que filmamos aí. Tambem achei que não devia filmar no Porto, porque mesmo se a maioria da equipa vivia lá, estou farto de filmes passados sempre em Lisboa ou Porto.



I.F.: Tiveste apoios institucionais? Como financias-te o filme?

L.D.: Não tive qualquer tipo de apoio financeiro. Este filme foi pago por mim, com dinheiro meu filme custou ao todo 10 mil euros, que o torna provavelmente no filme português mais barato de sempre. Aqui em Huelva o orçamento médio dos outros 11 filmes em competição é de 1 milhão e 500 mil euros! A Filmógrafo e o Cineclube de Avanca, que são dirigidos pelo António Costa Valente , e que produziram as minhas curtas, cederam material, dão apoio logístico e também apoio já ao nível da pós produção.

 

I.F.: A banda sonora é muito boa e ajuda a criar determinados ambientes. Quem são o DJWild e a Daniela Galbin, que canta uns temas maravilhosos?

L.D.: A Daniela Galbin surgiu no casting. Falou-me que tinha editado um álbum que quase ninguém ouviu porque as rádios não passavam. Mostrou-me aquela canção 'Unforgettable' (http://www.youtube.com/watch?v=cO0f9ybfNDo ), que não tinha saído nesse álbum. Pedi-lhe para me deixar utilizá-la. E pedi-lhe uma cancão para o genérico inicial que falasse de pecado, e outra para o genérico final. Ela fez as duas numa semana! Digo sempre que se este filme fosse americano, ela corria sérios riscos de ser nomeada para o Óscar. Mas estamos em Portugal, por isso ninguém lhe liga. De tal forma que ela já não vive em Portugal; foi para Londres, para ver se ao menos lá alguém reconhece o seu trabalho. 

O DJWILD e um DJ, que também compõe músicas, sobretudo para discotecas.  Não o conhecia, mas disseram-me que que ele tinha produzido uma música para o filme português A OUTRA MARGEM. Ouvi o que ele fazia, e gostei. Pedi-lhe que fizesse toda a banda sonora. O que fez muito melhor do que eu esperava, mesmo que só comunicasse-mos por email, tirando na fase final do seu trabalho.

I.F.: O filme está a fazer o circuito de festivais, Huelva, Bagotá, Fantasporto, quando estreia nas salas? Já tens distribuidor nacional?

L.D.: Não tenho distribuidor. Todos recusaram o filme. Mesmo aqueles que logo a seguir dão entrevistas a dizer que o Estado deve subsidiar o cinema português. No fundo é uma hipocrisia, porque defendem que o Estado deve dar 650 mil euros para filmes portugueses, mas depois não arriscam 5 mil euros, num filme português desprotegido! Mas vou avançar com a minha própria distribuicão. Em princípio quero estrear a 27 de marco, mas claro que isso depende também dos exibidores.