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FELIZ ANO ZERO

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Balas & Bolinhos-O Último Capítulo, o filme português mais visto do ano.

Num ano zero de financiamentos públicos ao cinema português, os resultados não foram assim tão catastróficos. O cinema português está vivo e recomenda-se. E com a nova Lei do Cinema a entrar em força em 2013, parece haver muita luz ao fundo do túnel. O ano começou com importantes prémios para filmes portugueses na Berlinale. Em termos de espectadores, os filmes portugueses ultrapassaram os 700.000 e foram os filmes europeus mais vistos nas salas. Embora à custa de filmes que não se podem considerar referências no contexto da filmografia nacional: 'Balas & Bolinhos-O Último Capítulo' e 'Morangos Com Açucar-O Filme', trouxeram pelo menos muitos espectadores às salas. O cinema português foi homenageado em vários festivais internacionais e pela primeira vez manifestou-se à porta do Parlamento, em São Bento, numa reação à quase paralisação do sector. Nem tudo foi mau em 2012, e para 2013 só pode melhorar...

José Vieira Mendes

 

A palavra de ordem dos produtores nacionais para 2013 é 'reconstruir', com base na nova Lei do Cinema e na sua regulamentação, que vai trazer mais recursos financeiros ao cinema português, terminando com um ano de uma profunda indefinição no sector audiovisual, ao qual se junta ainda a possibilidade de privatização da RTP. Esperemos que não! Sem por de parte a resolução dos vários problemas de fundo do cinema português ao longo de décadas, os prémios na Berlinale-Festival Internacional de Cinema de Berlim em Fevereiro, (um dos mais importantes festivais do mundo), foi um dos marcos de 2012 e foram uma proeza que importa valorizar: 'Rafa', de João Salaviza, obteve um Urso de Ouro, na categoria de curtas-metragens, enquanto 'Tabu", de Miguel Gomes, recebeu o Prémio Alfred Bauer, para a longa-metragem mais inovadora, além do Prémio FIPRESCI, atribuído pela crítica Internacional. Além disso 'Tabu', foi um dos filmes portugueses que mais circulou por festivais internacionais e obteve mais vendas em 2012. Isto numa carreira internacional que culminou com a importante pré-nomeação para os EFA-European Film Awards e a selecção final (3 filmes) nos Prémios Lux do Cinema Europeu. Em matéria de prémios há de destacar ainda, o documentário 'É na Terra não é na Lua', do realizador Gonçalo Tocha, que conquistou o Prémio de Melhor Filme na secção Cinema do Futuro do Festival Internacional de Cinema Independente em Buenos Aires, depois de em 2011 ter vencido o prémio principal do festival DocLisboa, uma menção especial do Júri do Festival de Cinema de Locarno, na Suíça e ter recebido elogios da crítica em todo o mundo. O Festival de Locarno (homenageou os 20 Anos do Curtas de Vila do Conde) foi juntamente com o Festival do Rio de Janeiro, Mostra de São Paulo (a propósito do Ano Brasil-Portugal) e Viennale (numa homenagem ao realizador Manuel Mozos), as grandes montras do cinema português, que aliás despertou um grande interesse em todo o mundo cinéfilo, no ano de 2012. O cinema português continua na verdade a ser um dos principais cartões-de-visita da cultura portuguesa, conseguindo uma implantação um prestígio internacional que se destaca em relação às outras áreas artísticas nacionais. Em relação à leitura fria dos números (e com dados do ICA-Instituto de Cinema e Audiovisual, relativos a 19 Dezembro passado), revelam-se algumas importantes referências. Estrearam cerca de 29 longas-metragens portuguesas (23 ficção e 6 documentários) num total de 729.172 espectadores em sala; estrearam apenas 3 curtas-metragens ('Rafa, de João Salaviza, 'O Dia mais Feliz da Tua Vida', de Adriano Luz e 'Ensaio', de Dinis M. Costa), como complemento a longas-metragens estreadas em sala. Os filmes portugueses mais vistos (ultrapassaram ambos o mais visto de origem europeia, o famoso filme francês 'Amigos Improvavéis') e os 'fenómenos do ano' que muito contribuíram para este extraordinário e inesperado ' box office' nacional foram: 'Balas & Bolinhos-O Último Capítulo', de Luís Ismael com 255.477 espectadores e 'Morangos com Açucar-O Filme', de Hugo de Sousa com 236.856 espectadores em sala. O filme português menos visto foi o documentário 'Berlenga-A Ilha do Farol', de Paulo César Fajardo, com apenas 26 espectadores, uma produção de orçamento muito limitado. Destaque para a excelente carreira nas salas dos filmes 'Aristides de Sousa Mendes-O Consul de Bordéus', de Francisco Manso e João Correa (50.086 especatdores), 'Linhas de Wellington', de Valeria Sarmiento (49.330 espectadores) e 'Florbela', de Vicente Alves do Ó (40.875, espectadores), que demonstram uma certa apetência e interesse dos espectadores para os temas históricos e da cultura portuguesa e não apenas para o chamado 'cinema comercial'. Os filmes estritamente associados ao cinema de autor fizeram igualmente excelentes audiências, com é o caso de 'Tabu', de Miguel Gomes (21.169 espectadores) e de 'O Gebo e a Sombra' (5.983 espectadores), do decano realizador Manoel de Oliveira, que completou este ano 104 anos de idade. A nível das obras cinematográficas rodadas, 2012 não foi um ano de total bloqueio: filmaram-se cerca de 15 filmes (curtas, longas e documentários) e cineastas tão importantes como Joaquim Leitão ('Quarta Divisão'), João Botelho ('Quatro'), João Mário Grilo ('Não Esquecerás'), Manuel Mozos ('João Benard da Costa'), Margarida Cardoso ('Yvone Kane'), estiveram no activo, juntamente com algumas cineastas-revelações recentes como Inês Oliveira ('Bobô') ou o actor Angelo Torres ('Aqui a Batalha de Yaguajay-Sobreviventes'). Passaram por Portugal e em regime de co-produção as rodagens de algumas importantes obras internacionais como 'As Grandes Ondas', de Lionel David Baier (Filmes do Tejo II) ou a adaptação do best seller 'Comboio Noturno Para Lisboa', realizada pelo grande cineasta sueco Billie August (Cinemate). Em relação às memórias do cinema português de 2012, realça-se ainda importantes factos que marcaram de certa maneira o panorama cinematográfico de 2012: a criação há muito aguardada da Academia Portuguesa de Cinema, que procurará reunir todos os agentes do sector cinematográfico e atribuir anualmente os prémios da indústria nacional (Prémios 'Sophia', numa referência à poetisa Sophia de Mello Breyner). A Academia já este ano indicou 'Sangue do Meu Sangue', de João Canijo como pré-candidato ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira e 'Florbela', de Vicente Alves do Ó, aos Prémios Goya de Melhor Filme Ibero-Americano A destacar ainda a importância crescente de todos os festivais nacionais como única alternativa cinematográfica: à concentração da distribuição e exibição de cinema da Zon e empresas associadas; à escassez de 'salas de cinema de arte & ensaio'; à limitada distribuição e exibição de  cinema independente e dos cinemas do mundo. Com isto, uma referência para o crescimento e sucesso de público de festivais de cinema temáticos, como é o caso entre outros dos lisboetas Motel X-Festival de Cinema de Terror de Lisboa e do FEST'in-Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa. A par da produção cinematográfica 2012 importa referir ainda duas importantes iniciativas: as quarto obras nacionais produzidas no âmbito do Estaleiro e dos 20 Anos do Curtas de Vila do Conde e mais de uma dezena de obras sobre a memória produzidas por cineastas nacionais no âmbito de Guimarães 2012-Capital Europeia da Cultura. Por último, pela primeira vez, que há lembrança, o cinema português saiu à rua em Maio de 2012, para se manifestar de uma forma muito original. Centenas de pessoas ocuparam as escadarias do Parlamento, formando uma grande sala de cinema ao ar livre. Foi uma homenagem histórica com projeção de excertos de cerca de 400 filmes portugueses, numa tela sob a fachada dos prédios em frente ao Palácio de São Bento. O objetivo foi uma homenagem única ao cinema nacional e ao mesmo tempo um protesto contra a paralisação do sector e atraso na aprovação da nova Lei do Cinema, entretanto em vigor, que vai esperemos, senão revolucionar, pelo menos 'reconstruir' o cinema português em 2013.

 

José Vieira Mendes ©, Dezembro, 2012. 

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