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ERA UMA VEZ OS CLÁSSICOS AMERICANOS

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Maitê Proença em ‘Primeiro Dia de um Ano Qualquer’ (2012)

A destacar ontem foi a presença na passadeira vermelha de Gramado, da bela Maitê Proença. A actriz é uma das protagonistas do filme coral 'Primeiro Dia de um Ano Qualquer' do veterano realizador Domingos de Oliveira, um especialista em 'comédias' existenciais' (à Woody Allen), concorrente na competição de longas brasileiras. Apesar de integrar a competição de filmes estrangeiros, 'A Oeste do Fim do Mundo', de Paulo Nascimento, é na verdade uma co-produção  Argentina/Brasil, que cruza os destinos de três 'losers': um inadaptado ex-militar da Guerra das Malvinas e dois brasileiros que fogem de si mesmos, numa paisagem desértica andina que parece um western. Em ambos os filmes estão curiosamente muitas referências ao cinema clássico americano.
(em Gramado)

José Vieira Mendes

A atriz Maitê Proença foi a estrela da noite de quinta-feira no tapete vermelho do 41º Festival de Cinema de Gramado. A atriz veio a Gramado para apresentar e reforçar o prestígio do realizador Domingos de Oliveira e de 'Primeiro Dia de um Ano Qualquer' (2012), (https://www.youtube.com/watch?v=oaHaGEhU_kE) curiosamente rodado na bela casa da actriz, nos arredores do Rio de Janeiro. O prolífico realizador, dramaturgo e encenador Domingos de Oliveira, de 76 anos, curiosamente pouco conhecido em Portugal, esteve presente e embora algo debilitado mostrou a sua grande inteligência e humor. 'Primeiro Dia de um Ano Qualquer' é um regresso deste veterano à competição gramadense com uma comédia social, que se passa durante um Dia de Ano Novo, na ressaca do reveillon e numa rica casa de campo nos arredores do Rio. O filme é uma comédia romântica e existencial do chamado 'Woody Allen brasileiro', pois a história cmbina hilariantes situações, com uns notáveis, improvisados e desconcertantes diálogos, prodizidos por um conjunto de personagens-tipo, todos elas de meia-idade e imersas numa profunda crise existencial, como nos filmes do realizador nova-iorquino. O elenco de 'Primeiro Dia de um Ano Qualquer', inclui excelentes actores como Dedina Bernardelli, Ricardo Kosovski, Orã Figueiredo, Clarice Falcão, a surpresa do cantor Ney Matogrosso, e ainda de Priscilla Rozenbaum (mulher do cineasta) e o próprio realizador Domingos de Oliveira. Um filme divertido mas pouco original, e mais que qualquer filme de Woody Allen, faz lembrar um pouco 'Invasões Bárbaras', de Denys Arcand.

'A Oeste do Fim do Mundo', (https://www.youtube.com/watch?v=8B-w-Q5MQgs) de Paulo Nascimento (um 'realizador da casa' e de 'Diário de um Novo Mundo' 2005, 'Valsa para Bruno Stein', 2007 e 'Em Teu Nome... ', 2009), também faz lembrar alguma coisa, porque tem muitas referências cinéfilas aos filmes clássicos americanos. Esta coprodução entre Brasil e Argentina, concorrente às longas estrangeiras do gaúcho Paulo Nascimento é um filme muito redondinho e bem feito, com apenas três actores, mas com uma história demasiado formatada e tipificada. 'A Oeste do Fim do Mundo', foi praticamente todo rodado na região de Uspallata, uma pequena cidade argentina, próxima a Mendoza e vizinha do monte Aconcágua, quase na fronteira com o Chile. Aos pés da Cordilheira dos Andes, numa estação de serviço de uma estrada no meio do nada, onde quase não passa um carro, desenvolve-se este encontro de perdidos (losers como diz um deles) na vida. O cenário desértico é o lugar onde se cruzam estes destinos e estas personagens esquivas e que escondem qualquer coisa: o argentino León (César Troncoso), dono da bomba de gasolina, e os brasileiros Ana (Fernanda Moro), uma mulher em viagem e Silas (Nelson Diniz), o homem da Harley Davidson. Em comum, este trio guardam certos segredos que não querem revelar e justificam os seus comportamentos arredios: León é um veterano da Guerra das Malvinas que não conseguiu adaptar-se socialmente e depois da fuga da mulher, afastou-se mesmo do filho agora um adolescente, que tenta em vão contactá-lo; Ana foge da violência doméstica, de uma marido violento, alcoólico e desadaptado e pretende encontrar-se com a irmã em Santiago do Chile; e depois o motoqueiro Silas, um estranho amigo de conveniência de León, que se recusa a falar do seu passado e a razão da permanência naquela região isolada e desértica. O melhor do filme, sempre sem grandes diálogos devido aos silêncios das personagens, são os enquadramentos da câmera e a fotografia de Alexandre Berra: as tonalidades terrosas da paisagem, esta emoldurada pelas portas (que batem com o vento) e as janelas, como nos western americanos (e se queríamos uma referência cinéfila....) em particular em 'A Desaparecida de John Ford. Quanto ao trio de actores, muito limitados pelos escassos diálogos e planos muito parados, o destaque vai para o argentino César Troncoso, que é talvez o mais eficaz a transmitir as emoções contidas, com o seu olhar melancólico e uma gestualidade quase minimal.