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ERA UMA VEZ NO VENETO

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Shun Li e o Poeta

O filme 'Shun Li e o Poeta' de Andrea Segre foi um brilhante vencedor da 8 1?2 Festa do Cinema Italiano, (recebeu o Prémio Oficial Rottapharm Madaus e o Prémio do Público), depois de em Dezembro passado, ter ganho o Prémio Lux do Cinema Europeu. Na verdade, 'Shun Li e o Poeta' é um filme que consagra aquilo que deviam ser neste momento os grandes valores europeus, como a tolerância, solidariedade, integração social, fraternidade entre os povos e as nações, além de ser uma bela história de amor. 

José Vieira Mendes

'Shun Li e o Poeta' de Andrea Segre, foi considerado o melhor filme entre os títulos do novo cinema italiano na competição da 6ª Festa do Cinema Italiano. O Prémio do Público atribuído através de votação direta dos espectadores, no final das sessões, voltou a eleger 'Shun Li e o Poeta', como o melhor dos filmes em competição. O filme conta a história de Shun Li (Zhao Tao, a actriz de 'Still Life'), uma imigrante chinesa que trabalha numa empresa têxtil da periferia de Roma, para obter os documentos e dinheiro necessários para trazer o filho para a Itália. De repente, é transferida para trabalhar como empregada numa taberna da pequena localidade piscatória de Chioggia, perto de Veneza. Aí vai conhecer Bepi, (o conhecido ator croata Rade Sherbedgia) um pescador de origem eslava, há muito imigrado, a quem chamam 'o Poeta', pela facilidade com que constroi rimas entre os frequentadores do bar. O encontro entre os dois torna-se numa fuga poética à solidão, um diálogo entre culturas diferentes, que aos poucos vão ficando mais próximas. Esta amizade, porém, acaba por incomodar tanto os locais, como a comunidade chinesa, que se vão opor a esta improvável relação e mostrar as implicações da integração.

A MELANCOLIA DE VENEZA

É assim entre a melancólica e cinzenta da paisagem da laguna veneziana (excepcionalmente fotografada por Luca Bigazzi) e o património em transformação da província do Veneto, que o habitual documentarista Andrea Segre, (também docente em Sociologia da Comunicação, na Universidade de Bolonha) fez a sua estreia no cinema de ficção. Segre estreou em 2012, com Stefano Liberti, 'Mare Chiuso', um premiado documentário-denúncia sobre os imigrantes africanos, que viajam de barco da Líbia e são interceptados no Mediterrâneo. Segre é um cientista por isso desta vez em 'Shun Li e o Poeta', investiga a dimensão humana, não apenas como um objeto de conflito politico, mas antes como motor de mudança social. E logo com um tema que lhe é particularmente caro, que afecta cada vez mais as nossas vidas: a imigração. No entanto, 'Shun Li e o Poeta' apesar do seu realismo, não tem um tom demasiado documental ou de ensaio académico.  É antes um filme marcado pela pura poesia, que se vai tranformando em imagem e palavra a cada momento, mesmo nos mais circunstanciais e dramáticos. O filme consegue um equilibrio perfeito entre o lirismo, a leveza de um sorriso genuíno, e a denúncia da escravidão e do tráfico humano, já abordado em 'Gomorra' de Matteo Garrone e mais ainda no romance de Roberto Saviano. As imagens cinzentas, as cheias, o 'sol tímido a tremer de frio' da laguna, a trivilidade do imobiliário moderno, que vai substituíndo o património e o antigo, o provincianismo arcaico (encarnado pela bruta personagem do actor Giuseppe Battiston), mais a bela música de fundo, mergulhar-nos numa dimensão de beleza e prazer, rara em filmes de matriz social e realista. 'Shun Li e o Poeta' parece um conto de fadas, passado na realidade, que não se rende ao sentimentalismo fácil ou ao dramatismos bacoco de uma tragédia social. Pelo contrário, é um filme leve, com um final feliz, com excelentes interpretações dos actores de diferentes nacionalidades. Em 'Shun Li e o Poeta' nada fica fora do lugar, nem mesmo a estupidez de certos legados culturais e racistas que sobrevivem, nesta Europa, desde tempo de Marco Polo às políticas da Senhora Merkle. 'Shun Li e o Poeta', vai felizmente estrear nas salas comerciais.  Contudo, a 8 1?2 Festa do Cinema Italiano vai seguir em Abril, para Coimbra de 2 a 5, Porto de 4 a 7, Funchal de 11 a 14 e Loulé de 19 a 21. Em Junho, a Festa vai acontecer pela primeira vez em Luanda (Angola) de 6 a 9. A 8 1?2 , além de ter consagrado 'Shun Li e o Poeta', de Andrea Segre como filme vencedor, mostrou o melhor do cinema italiano actual e recordou o cinema de género dos anos 70 (western spaghetti e policial italiano) a mais de 11 000 espectadores nas salas do Cinema São Jorge e Teatro do Bairro em Lisboa. Um  número notável para um cinema que chega pouco às salas comerciais portuguesas.