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AS BODAS DE SEVILHA

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O cartaz do X Festival de Cinema Europeu de Sevilha.

Já abriu a grande festa ibérica do cinema europeu, numa gala realizada no Teatro Lope de Vega de Sevilha, conduzida pela actriz Eva Hache, onde estiveram presentes figuras do cinema internacional, já que no fim-de-semana foram anunciadas na 'capital do cinema europeu', as nomeações para os Prémios EFA, da Academia Europeia de Cinema. A secção Focus Europa dedicada este ano a Portugal, abriu praticamente a programação sevilhana, demonstrando a grande força criativa do cinema português da actualidade, apesar de todas as contigências. 

José Vieira Mendes

Sandro Aguilar em entrevista:http://www.youtube.com/watch?v=hGeQuIxOIN8

Martin Pawley, crítico e divulgador do cinema português em entrevista: http://www.youtube.com/watch?v=Mpk3U3jBO7s

Carloto Cotta, em entrevista sobre a sua participação como jurado: http://www.youtube.com/watch?v=7-Q6pXYvNmw

O X SEFF, começou no sábado com muitos famosos a pisarem a passadeira vermelha sevilhana: Paz Vega, Lucía Hoyos, o actor português Carloto Cotta, além de Imma Cuesta e Paco Léon e todas as estrelas da comédia 'Tres Bodas de Más', o filme inaugural, apresentado fora da competição. A cerimónia de abertura foi a oportunidade para a entrega, do Prémio Especial X Aniversário, ao produtor sevilhano Antonio Pérez, ('Solas'), grande impulsionador deste festival. O cinema português está e apesar do quase cancelamento das ajudas públicas, a despertar muito interesse nos festivais internacionais desta temporada. O SEFF 2013, não fugiu à regra e está a apresentar na sua secção Focus, quase duas dezenas de filmes portugueses, de realizadores como Rodrigo Areias, Sandro Aguilar (estão ambos em Sevilha, o primeiro para realizar um Masterclass), Miguel Gomes, João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata, Gonçalo Tocha, João Canijo, João Nicolau, Rita Azevedo Gomes, e Salomé Lamas. Para já 'Tabu' de Miguel Gomes, 'A Zona', de Sandro Aguilar e igualmente o tríptico '3x3D', de Peter Greenway, Jean-Luc Godard e Edgar Pêra (este último realizado no âmbito de Guimarães-Capital Europeia da Cultura 2012) encheram, as salas dos Cinema Avenida e do Cine Plaza de Armas, uma espécie de quartel-general deste festival sevilhano.

 

TRÊS CASAMENTOS SEM FUNERAL

Quanto aos outros filmes nas diversas secções o destaque nos três primeiros dias, vai para os filmes que não vimos em outros festivais e em particular para dois espanhois, pois infelizmente chegam pouco às salas portuguesas: em primeiro lugar o filme de abertura, 'Tres Bodas de Más', de Javier Ruiz Caldera (o realizador do notável 'Spanish Movie), uma divertida comédia que tem qualquer coisa de 'O Diário de Bridget Jones', mas com a garra e um humor bem espanhol. A actriz Inma Cuesta ('Amar en tiempos revueltos', 'Águila roja') interpreta Ruth a cientista solteirona, que no espaço de poucas semanas é convidada a assistir ao casamento de três dos seus ex-namorados, com outras. Além da óbvia relutância em aceitar os convites, o único homem que consegue convencer a acompanhá-la é o seu novo estagiário (Martín Rivas). Nestes casamentos de filme (ou 'filmes de casamentos', um sub-género de comédia, que despertou com êxito na indústria de Hollywood) passam personagens exagerados e tresloucados, curiosamente interpretados por um elenco, muito conhecido do público espanhol: além do par romântico final, Cuesta e Rivas, aparecem ainda, Quim Gutiérrez, Paco León, María Botto, Berto Romero, Rossy de Palma, Joaquín Reyes, Silvia Abril e Laura Sánchez, que conhecemos, quanto mais não seja por outros filmes espanhois. 'Tres bodas de más' é um filme no feminino, mas tem um humor que agrada tanto às mulheres como homens e por isso vai certamente ser um grande sucesso nas salas espanholas. Dificilmente vai chegar a Portugal. Do outro lado dos gostos do público, está '10.000 Noches em Ninguna Parte', de um 'recuperado' Ramón Salazar ('Piedras'), que há muito não estreava, e que aparece integrado na Secção Oficial em Competição: um filme hipnótico, de narrativa não-linear, pesado filmado entre a alucinação filosófica e de sentido da vida de um Michel Gondry e a luz ténue e misteriosa de Terrence Malick. Um jovem de uma desconcertante ingenuidade (Andrés Gertrudix), vive como uma espécie de vidas paralelas ou sonhos passados ora em Paris ora em Berlim, para fugir à sua realidade traumática de uma relação quase incestuosa com uma mãe alcoólica e decadente. Um filme enigmático que conta igualmente com algumas estrelas do cinema espanhol como Lola Dueñas e a diva da música electrónica Najwa Mimri, que concebeu igualmente a banda sonora. Na Competição Oficial uma referência para 'El Gran Caderno', do húngaro Jáno Szász, para já um dos grandes filmes europeus de 2013, premiado em Karlovy Vary e com a direcção de fotografia do mestre Christian Berger ('O Laço Branco'). O filme conta uma história passada durante a II Guerra Mundial e a posterior ocupação russa, de dois gémeos de 13 anos, abandonados pela mãe na casa de uma velha avó alcoólica e cruel, e que lutam desesperadamente para sobreviver. Um filme angustiante, de grande dimensão humana e histórica.

 

RECORDAR IMAGENS DA EUROPA 2012

A Selecção EFA é também uma oportunidade para ver alguns dos melhores filmes europeus do ano de 2012, que nem sempre chegam às salas comercias e que integraram a lista dos pré-nomeados aos Prémios EFA da Academia Europeia de Cinema. No primeiro caso o notável e enigmático 'Berberian Sound Studio', de Peter Strickland (Reino Unido), um filme protagonizado pelo grande actor britânico Toby Jones, sobre o cinema dentro do cinema, em particular sobre a relação do som com a imagem, ambientado na Itália dos anos 70, na noturna e sórdida produção dos 'giallos italianos', que fizeram escola. Por outro lado  'Imagine', de Andrezej Jakimowski (Polónia), um filme todo rodado em Lisboa em co-produção com a Filmes do Tejo, com actores portugueses (João Lagarto, Filipe Duarte, Teresa Madruga).  No entanto a magia da 'Lisboa antiga', do porto e do Tejo, estão bem marcados e parecem ter fascinado o realizador polaco, nesta história de um revolucionário professor (Edward Hogg) que chega a uma clínica para cegos em Lisboa, para os ensinar a orientarem-se na rua e acaba apaixonado pela cidade e por uma bela e misteriosa paciente (Alexandra Maria Lara). E por último, não se pode deixar passar o poderoso drama islandês, 'The Deep', de Baltasar Kormákur ('101 Reykjavík'), sobre uma extraordinária história real de sobrevivência a um naufrágio de um pescador islandês, que ocorreu em 1984, nas águas geladas e agitadas dos mares do Norte e que se tornou num case-study da biologia e um herói nacional. Uma história forte sobre essa tremenda relação por vezes desigual entre o homem e a natureza. A título de curiosidade: o artista sevilhano Miki Leal é o autor do excelente cartaz do X Festival de Cinema Europeu de Sevilha. Inspirou-se nos cartazes dos filmes X (pornográficos) na década de 80. Miki Leal além de ter introduzido as cores e as letras originais destes velhos cartazes e o ecrã a negro (por não se poder na altura utilizar imagens), cobriu o texto com listas amarelas e brancas verticais. São referências da obra deste artista, que tem agora uma exposição individual no Centro Andaluz de Arte Contemporáneo (CAAC), em Sevilha. Curiosamente poderia ser e a propósito do Focus Portugal, também uma homenagem a João César Monteiro, realizador entre outros de 'Recordações da Casa Amarela' e Branca de Neve'.

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