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Fecha de Caducidad, da mexicana Kenya Márquez

O Palhaço', filme brasileiro pré-nomeado para os Óscar e dirigido pelo actor e realizador Selton Mello, era o mais aguardado deste terceiro dia de festival. A surpresa foi 'Fecha de Caducidad', uma primeira obra de Kenya Márquez, realizadora de curtas, documentarista, exdirectora do Festival de Guadalara, que dirigiu uma excelente e rara história de humor negro, sobre os sequestros e assassínios no violento México. 

José Vieira Mendes

'O Palhaço' é um daqueles filmes que encanta o espectador desde o primeiro momento, numa espécie de viagem poética a fazer lembrar 'A Morte de Um Palhaço', de Raul Brandão. O realizador Selton Mello é ele próprio Benjamín, um palhaço conhecido como Pangaré, que dirige um circo simbolicamente chamado 'Esperança'. Além de ter o difícil trabalho de fazer rir, mesmo quando não lhe apetece, Pangaré  dirige com dificuldade o circo herdado do pai, também um palhaço (um personagem interpretada pelo grande actor Paulo José). Além de não se sentir muito à vontade com o seu trabalho, Pangaré tem de lidar com as revindicações da sua trupe de artistas. O filme é antes demais um excelente ensaio sobre o humor e como se pode tornar por vezes cruel e doloroso para que o pratica. Mas acima de tudo 'O Palhaço' é uma pequena pérola de execução artística: uma fotografia sobre os tons pastel amarelado das paisagens empoieradas do Brasil profundo; uma notável direcção artística e fantasista de um circo tradicional (e da memória de uma infância passada nos anos 70), para um filme de baixo orçamento; uma realização perfeita, que termina num longo e belo plano sequência final. 'O Palhaço' é um filme alegre e triste ao mesmo tempo, como a nossa vida cheia de momentos doces e outros bem mais amargos. Assistimos ainda ao magnífico 'Fecha de Caducidad', da realizadora mexicana Kenya Márquez, situado no violento cenário do México nos dias de hoje. O filme é interpretado por por alguns dos melhores e mais conhecidos actores mexicanos da actualidade: Ana Ofelia Murguía, Damián Alcázar (este até faz lembrar Cantiflas) e Marisol Centeno. Trata-se de uma inspirada primeira obra, um drama sobre os sequestros, estranhamente e genialmente carregado de humor negro. Conta a história de Ramona, uma velha mãe abnegada e obsessiva, que perde as suas rotinas diárias, quando o seu filho Osvaldo, um trintão machista que vive com ela, desaparece e se descobre que afinal está morto. Uma série de acontecimentos levam-nos ao desvendar uma complicada trama criminal, que se torna no pretexto para contar a história de três personagens que cruzam (à boa maneira de Alejandro González Iñarritu), fatalmente as suas vidas. Na verdade, são três histórias de amor muito distintas, sobre pessoas muitodiferentes que tinham apenas em comum a solidão da cidade e os fantasmas da violência lactente. <#comment comment="EndFragment">