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AMOR E CONSCIÊNCIA

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Promise Land, de Gus Van Sant

Com 'Paradies: Hoffnung', o realizador austríaco fechou com uma certa ternura, a sua trilogia sobre três mulheres, ligadas não apenas por laços familiares, mas igualmente por uma forte necessidade de amar e ser amadas. A questão do amor e da consciência liga também os outros dois filmes desta segunda jornada berlinense: 'In the Name Of', da polaca Malgoska Szumowska, sobre a homosexualidade e o sacerdócio e 'Promise Land', de Gus Van Sant, um filme com Matt Damon, no papel de um executivo que faz uma escolha entre a ética e a carreira.

José Vieira Mendes

Esta terceira parte da trilogia, à qual antecedem os dois filmes estreados o ano passado, 'Paradies: Liebe' e 'Paradies: Glaube', o realizador Ulrich Seidl toca de novo na questão da necessidade humana de amor e de segurança. Desta vez a anafada e loirinha Melanie (muito bem interpretada pela jovem Melanie Lenz, que já aparecia fugazmente nos filmes anteriores) vai para um campo de férias dietista, nas montanhas austríacas. A sua mãe viajou para o Quénia para fazer turismo sexual ('Paradies: Liebe') e a sua tia beata depois de a ter deixado no campo de férias, faz evangelismo de porta-em-porta ('Paradies: Glaube'). Entre os treinos físico, as aborrecidas sessões de aconselhamento nutricional, os jogos de verdade ou consequência com os colegas, um fuga noturna seguida de uma bebedeira na discoteca local, a jovem gordinha de 13 anos apaixona-se e usa todas as artimanhas para seduzir o médico quarentão do campo de férias. É assim que no cenário estéril e vazio do edifício que mais parece um sanatório, no meio do rigor quase militarista (ou nazi), que Seidl filtra impecavelmente em imagens minimalistas e com ironia, o dia-a-dia dos miúdos e dos seus monitores, em que a paixão e sensualidade parecem ser um paradoxo completo. 'Paradies: Hoffnung' é o mais débil dos filmes da trilogia, mas é também o mais terno, pois os seus jovens e pesados protagonistas parecem (ao contrário dos adultos dos filmes anteriores) terem dentro de si uma certa esperança (verdade ou consequência) de que o amor pode ser uma emoção forte e honesta e não é apenas uma ilusão que passa com o tempo.

'In the Name Of' da polaca Malgoska Szumowska é um filme que se atreve a abordar o tabu, (mas de uma espantosa actualidade), sobre a homosexualidade no sacerdócio. E Szumowska trata o tema com muita delicadeza, sem julgamentos: Adam (Andrzej Chyra) é um padre moderno e muito bem parecido, que descobriu sua vocação relativamente tarde em Varsóvia. Agora vive na zona rural de Polónia, como orientador de uma 'casa de correcção' de rapazes adolescentes, ao mesmo tempo que recusa os avanços de Ewa (Maja Ostaszewska). O celibato não é a unica razão para a recusa já que Adam parece ter abraçado o sacerdócio e a abstinência para ultrapassar a sua própria sexualidade. E quando  conhece Lukasz (Mateusz Kosciukiewicz), um rapaz de uma família rural, torna-se complicado gerir o seu voto. 'In the Name Of' é um filme visualmente poderoso com uma belíssima fotografia: as imagens do jogging do padre na floresta nublada, são uma penitência do protagonista quase semelhante à Paixão de Cristo renascentista. Confrontado com os seus desejos proibidos Adam experimenta momentos de felicidade e desespero, que são muito bem representados por Andrzej Chyra. 'In the Name Of' é um filme sobre as emoções violentas e confusas, só foi pena Szumowska não o ter acabado no momento certo e ter revelado o mistério da consciência e da paixão deste Adam, que não cedeu aos desejos de Ewa, mas de Lukasz.

De que lado está a verdade é o problema de consciência de Steve Butler (Matt Damon), o protagonista de 'Promise Land', de Gus Van Sant, um excelente thriller politico sobre as grandes questões ecológicas contemporâneas. Buttler parecia estar no bom caminho para uma brilhante carreira de RP. Mas eis quando os seus chefes de Nova Iorque o mandam para o interior rural dos EUA, com a sua colega Sue (mais um grande papel secundário de Frances McDormand) para conseguirem o impossível: persuadir os habitantes e sem mencionar os riscos, a venderem para uma grande empresa, o direito de exploração de gás natural das suas terras,. Este novo método conhecido como 'fracking' permite a extração de grandes reservas de gás em profundidade anteriormente inacessíveis. Mas em contrapartida, tem más consequências ambientais e fragiliza os terrenos criando fracturas no subsolo, que não se sabem neste momento quais serão no futuro. Além da resistência dos moradores, Butler vai ter que lutar contra a agressiva campanha de um activista ambiental (John Krasinski). Mas Steve, apesar de tudo é um tipo sério, com raízes no campo e muito consciente da verdade. Um filme que apela à consciência ambiental, mas igualmente à verdade, que está cada vez mais em causa no mundo da política e dos negócios.<#comment comment="EndFragment">