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AFINAL O MAL NÃO É BANAL...

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Le Dernier des Injustes, de Claude Lanzmann.

Ontem o Festival de Cannes viveu na apresentação de 'Les Dernier des Injustes', do jornalista Claude Lanzmann, que esteve presente na sessão, um longo momento de quase religiosidade, com mais um dos seus documentários sobre as memórias do Holocausto. Takeshi Miike, 'enfant terrible' do cinema de terror japonês, apresentou esta manhã um surpreendente thriller de acção, intitulado 'Shield of Straw', sobre um grupo de policias do departamento de segurança, que têm por missão e dever ético, proteger um assassino.

José Vieira Mendes

Memorialista do Holocausto, ao qual dedicou a sua vida e a sua obra-prima, 'Shoah', em 1985, Claude Lanzamann recebeu este ano no Festival de Berlim um Urso de Ouro pela sua carreira, como jornalista, escritor e cineasta. Dando quase sempre enfoque aos testemunhos e às imagens de arquivo nos seus filmes como por exemplo 'Un Vivant Qui Passe' (1997). Neste filme recolheu as declarações de um funcionário da Cruz Vermelha Suíça, sobre o Campo de Extermínio de Theresienstadt (no território da então Checoslováquia) que se referia a esse lugar como um 'modelo de ghetto judeu'. Ora Lazmann vai muito mais longe neste 'Le Dernier des Injustes', ao incidir este longo documentário (3h40) sobre o caso Benjamim Murmelstein, o rabino-chefe de Viena que dirigiu o Campo de Theresienstadt, até 1945. Lazmann entrevistou-o extensivamente em 1975. Murmelstein fala do seu 'jogo de cintura', da sua relação com os Nazis em (que o levou a ser acusado de colaboracionista), da sua luta semana após semana, durante sete anos, como consegui ajudar 121.000 judeus a deixar o país, e a evitar a liquidação do ghetto. Benjamin Murmelstein mostra a sua extraordinária personalidade, uma inteligência deslumbrante, uma coragem e memória invulgares, tranformando-se num contador de histórias algumas terríveis, mas sempre num tom maravilhosamente irónico, sarcástico e autêntico. Lanzmman, procura ainda em 'Le Dernier des Injustes', encontrar justificações para o fanatismo anti-semita, desafiando a controversa teoria da 'banalidade do mal' da filósofa Hannah Arendt: a revelação da personalidade e o funcionalismo de Adolfo Eichman, na Solução Final. Aliás o tema do filme biográfico sobre Hannah Arendt, realizado por Margarethe Von Trotta, que estreia em breve em Lisboa. Claude Lanzmann, sem esconder nada da passagem do tempo sobre os homens, mostra a incrível permanência dos lugares e regressa a Theresienstadt, a cidade dada aos judeus por Hitler, um 'modelo de ghetto', pensado por Adolf Eichmann para enganar o mundo. Através de três períodos, de Nisko na Polónia, a Theresienstadt, de Viena a Roma, este extarordinário docomentário oferece-nos uma visão sem precedentes sobre a génese da Solução Final. Revela ainda o verdadeiro rosto de Eichmann, e expõe sem artifícios as contradições dos Conselhos de Judeus, criados pelos Nazis. Dois anos depois de estar na competição com 'Hara-Kiri: Death of a Samurai' e um ano depois da apresentação numa Sessão da Meia-Noite, com 'Ai de Makoto', o japonês Takashi Miike, regressou a Cannes com a adaptação de um romance de manga Kazuhiro Kuchi. Esta história de vingança, bem urdida, começa com um anúncio nos media japoneses: 'Mate este homem e receberá 1 milhão de yenes de recompensa'. Com este anúncio o velho bilionário Ninagawa, colocou a cabeça a prémio, de Kiyomaru, que supostamente assassinou de sua neta de sete anos. Inimigos potenciais, traições e milhõoes colocam-se no caminho dos policias que escoltam o assassino até Tóquio para ser julgado. A jornada dos policias e do criminoso tranforma-se no início numa perseguição infernal e intensa para o espectador e até soa a muitas reviravoltas. É pena que uma boa ideia de western urbano, tenha-se transformado num filme médio de final certo e óbvio. Dois filmes curiosamente sobre a natureza do mal.

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