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'A VIDA DE ADÈLE, CAP I & II': ÁGUA NA BOCA

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A Vida de Adèle

Não há amor como o primeiro e 'A Vida de Adèle, Cap. I & II', de Abdellatif Kechiche é um excelente filme sobre um primeiro amor entre duas jovens mulheres, que vai evoluíndo para um labiríntico drama de dúvidas, paixão, desejos, poucas vezes visto no cinema. Vai ser lembrado, não por ser uma obra-prima, por ser a Palma de Ouro 2013, do Festival de Cannes ou pelo seu erotismo lésbico, mas antes por ser um belo ensaio, sobre o amor desejo e paixão. Seguem-se cenas dos próximos capítulos?

José Vieira Mendes

Já em 'A Esquiva', baseado na peça de Marivaux, o realizador franco-tunisino, Abdellatif Kechiche tinha abordado a questão do primeiro amor e a sexualidade. E de certa maneira, igualmente de uma forma menos directa, em 'O Segredo do Cuscuz' (2007) ou na trágica 'Venus Negra'(2010). No entanto, se os seus filmes anteriores eram movidos por impulsos narrativos e teatrais em 'A Vida de Adèle, Cap. I & II', (www.youtube.com/watch?v=Y2OLRrocn3s) há como que um fluxo de vida e uma autenticidade única, que nos faz vibrar, ficar sem fala, e criar água na boca, durante as quase três horas de projecção. O ponto de partida de 'A Vida de Adèle' é adaptação livre da banda-desenhada, 'Le bleu est une couleur chaude', de Julie Maroh e de 'A Vida de Marianne', de Marivaux. Foi da inspiração poética e erótica destas historias que nasceu esta quinta longa-metragem de Kechiche (fétiche???). Inicialmente Kechiche queria fazer um filme baseado na história verídica dos desejos incontroláveis de uma jovem professora primária, que acabaram mal. Não sei porquê, veio-me agora à cabeça a história da professora de Mértola e dos seus videos pornográficos. No entanto 'A Vida de Adèle Cap.I & II', acabou por concentra-se no fogoso processo de descobertas sexuais e emocionais da jovem liceal, que se forma posteriormente em docente do ensino primário: a jovem Adèle Exarchopoulos (tem apenas 20 anos e é de origem grega), contracena com a experiente actriz francesa Léa Seydoux ('Meia-Noite em Paris'). Começo por dizer que o trabalho de interpretação das duas actrizes é notável, na gestualidade, nos olhares, nas muitas cenas de sexo explícitas, nesta arrebatada história de amor e paixão, que chega aos limites dos sentimentos. E seria uma história banal, como é banal as suas vidas entre a escola, a familia, as refeições (não é só o sexo que faz crescer água na boca, mas também a bolonhesa), se não fosse contada ao estilo vigoroso, íntimo e lento de Kechiche, que a torna mais rica e excitante (tanto para homens, como para mulheres) e de um realismo quase pornográfico, que não me lembro de ver alguma vez no cinema. Nem mesmo em 'Imperio dos Sentidos', de Nagisa Oshima. 'A Vida de Adèle Cap.I & II', só não é um filme pornográfico, (e isso não seria mal algum ao mundo, e louve-se o mérito e risco do cineasta e das suas actrizes, de estrearem o filme na competição do Festival de Cannes), porque tudo é feito com arte e beleza: as bocas, os gestos de tocar no cabelo, a forma de mexer a boca e beijar, as esculturais cenas de sexo que transpiram emoção e calor, os rostos de dor e ardor da rotura, a ttristeza da solidão final, os diálogos de uma espantosa naturalidade. E por fim uma câmera observacional assente sobretudo em grandes planos, que vai reforçando a intimidade e a proximidade com os espectadores, até ao arrepio. Pouco importa a polémica à volta do filme ou se as longas e belas, cenas de sexo entre Adèle e Emma, correspondem aos padrões de comportamento das lésbicas ou são as fantasias masculinas do cineasta, para alimentar o vouyerismo dos espectadores. A grande excepção que é 'A Vida de Adèle, Cap. I & II', não fica apenas por ser Palma de Ouro ou pela sua forte carga de erotismo lésbico, mas sobretudo por se tratar de um filme de uma espantosa beleza e um grande ensaio sobre o desejo, paixão e as contradições dos seres humanos, sejam no primeiro ou no último dos amores. E mesmo assim e apesar das quase três horas, ficou muito por contar da vida de Adèle. 

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