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A NOITE DE GLÓRIA

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Flores Raras, de Bruno Barreto, filme de abertura de Gramado 2013.

Começou ontem com o filme 'Flores Raras', de Bruno Barreto, (extra competição), um dos mais antigos e prestigiados festivais de cinema brasileiros. Celebração do cinema brasileiro e do melhor da produção latino-americana, o Festival de Gramado vai decorrer de 9 a 17 de Agosto na bela cidade serrana e gaúcha do Rio Grande do Sul. Conta nas suas principais competições com oito longas-metragens brasileiras e seis estrangeiras, incluíndo 'Reparem Bem', um filme dirigido pela actriz portuguesa Maria de Medeiros, todos na disputa pelo Kikito de Ouro.
(em Gramado)

José Vieira Mendes

Estamos no Inverno e no Sul do Brasil, por isso o frio e a chuva, acabaram por atrapalhar os planos da organização e anular alguns dos eventos previstos para a abertura solene na elegante Rua Coberta e na longa passadeira vermelha que dá acesso ao Palácio dos Festivais. Mas nem por isso deixou de ser uma noite emocionante e de glamour na 'capital do chocolate' e durante esta semana igualmente do cinema latino. No entanto, a noite foi de Glória Pires, a protagonista de 'Flores Raras' (antestreado em Portugal na Premiere Brasil), a homenageada e que recebeu um troféu Oscarito, uma prémio que de alguma forma consagra a carreira da grande actriz brasileira no cinema, que começou com 'Índia, a Filha do Sol' de Fábio Barreto (curiosamente o irmão de Bruno Barreto), em 1981. 'Flores Raras', é um excelente filme do realizador Bruno Barreto (esteve na secção Panorama da Berlinale 2013 e, recentemente, no Festival de Tribeca), que conta a história de amor entre Elizabeth Bishop, poetisa americana que ganhou o Prémio Pulitzer, e Lota Macedo de Soares, interpretada por Glória Pires, arquiteta carioca que idealizou e supervisionou a construção do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro. Elisabeth Bishop (Miranda Otto) é de ínicio uma mulher emocionalmente frágil, alcoólica, que passava a vida em viagens, sem família e residência fixa, mas vai-se tornando cada vez mais forte e a sua obra de poetiza vai crescendo, à medida que se consolida a sua relação, com Lota Soares de Macedo (Glória Pires). Esta por sua vez uma contagiante optimista, autoconfiante e empreendora arquitecta, torna-se cada vez mais frágil, quando vê ameaçado o grande amor da sua vida e o controle do seu maior projecto de arquitectura: o Parque do Flamengo. Estreado na sempre surpreendente secção Panorama da Berlinale, praticamente todo falado em inglês e baseado em factos reais (embora o argumento tenha sido escrito por Matthew Chapman, Julie Sayres e Carolina Kotcho, a partir do romance 'Flores Raras e Banalíssimas', de Carmen Lúcia de Oliveira) este filme é um drama tocante e uma bela história de amor homosexual tratada com grande sensibilidade e sem preconceitos, que aborda em segundo plano questões como por exemplo a adopção de crianças, por casais do mesmo sexo. Mas trata-se no essencial de um retrato de duas visões diferentes do processo de criação: da poesia e da arquitectura. Notável e arriscado é igualmente o trabalho das duas actrizes: Miranda Otto ('O Senhor dos Anéis') na instável personagem de Bishop e de Glória Pires, masculinizada e afirmativa. Belíssima igualmente a direcção de arte (incluíndo o guarda-roupa) num filme que recria com rigor alguns projectos da arquitecta e o Rio de Janeiro das décadas de 50 e 60, durante a ditadura militar. A actriz portuguesa Maria de Medeiros vai apresentar aqui a sua nova passagem para detrás das camaras com 'Repare Bem', uma coprodução Brasil/Espanha/França, em parte uma homenagem ao trabalho da Aministia Internacional, que a seu tempo e quando for a projecção vamos abordar.