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A INFÂNCIA É UM LUGAR ESTRANHO

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Infancia Clandestina, foi o vencedor do Colombo de Ouro.

O longa-metragem 'Infancia Clandestina', dirigida pelo argentino Benjamín Ávila foi o vencedor do Colombo de Ouro de Melhor Filme, numa Selecção Oficial de Filmes a Concurso, feita de excelentes e cirúrgicas escolhas no panorama cinematográfico ibero-americano e num ano de muitas dificuldades a todos os níveis. O júri atribuí ainda um merecido Prémio Especial, para a grande beleza e simbolismo do filme mexicano 'Mai morire', de Enrique Rivero. O filme português 'Florbela', ficou fora dos prémios, passou despercebido nesta competição onubense e sentiu-se mesmo que, talvez não tenha sido entendido por todos, aliás como a figura da notável poetisa portuguesa.

José Vieira Mendes

O júri do 38º Festival de Cinema Ibero-Americano de Huelva, constituído pelo produtor Luis Miñarro, realizador Gerardo Olivares, actriz Irene Visedo, encenador teatral e argumentista Marcelo Vernengo e por último o jornalista e escritor Fernando Lara, distinguiram de uma forma muito acertada os prémios por cada categoria, premiando os melhores, incluindo as respectivas menções honrosas: uma para o filme brasileiro 'O Palhaço' e 'Ni un hombre más', uma comédia negra, vinda da Argentina. Dois filmes que em si demonstram igualmente a qualidade e diversidade de géneros e estilos do cinema ibero-americano. No entanto, os últimos, acabam quase sempre por ser os primeiros: 'Infancia Clandestina', a primeira obra de ficção do documentarista argentino Benjamín Ávila ('Nietos, Identidad y Memoria', 2004), apresentado no último dia da Competição Oficial (já tinha apaixonado muita gente na última Quinzena dos Realizadores em Cannes) foi curiosamente consagrado como o Colombo de Ouro para Melhor Filme da Selecção Oficial a Concurso.

O MELHOR ENTRE OS MELHORES

A história de 'Infancia Clandestina', passa-se em 1979 na Argentina, quando em plena ditadura militar, uma família de revolucionários-guerrilheiros, decide regressar com os filhos e depois de um exílio, continuar a luta armada no País. A trama desenrola-se segundo o ponto de vista de Juan, um pré-adolescente que tenta adaptar-se à arriscada vida que os pais escolheram, às mudanças e ao seu natural crescimento com indivíduo. 'Infancia Clandestina' é contada sob a perspectiva desta criança de uma forma logo tocante e sensível: um relato sincero, confessional e pessoal, que complementa a obra documental de Ávila, um realizador que tem reflectido nas memórias da ditadura e nos protestos da Praça de Maio. O filme é aliás baseado em factos reias e na sua própria vida: filho de uma mãe desaparecida, durante a repressão da ditadura e neto confesso de uma Avó da Praça de Maio. 'Infancia Clandestina', é também um filme que mostra um outro lado da guerrilha armada raramente visto: uma história de família, de pessoas simples que lutavam por um ideal, pais, mães, tios, amigos, que viviam no limite do risco, mas tentavam fazer uma vida normal, apesar da clandestinidade, dos nomes e documentos falsos. O grande mérito de Benjamín Ávila nunca necessitar de recorrer muito à violência ou aos conflitos directos com os militares, para contar e mostrar o ambiente de constante tensão. Os conflitos são apenas familiares e normais. A violência quando acontece é animada através dos 'comics', um dispositivo narrativo extremamente original no desenvolvimento do filme. Além da beleza da história e da competência da realização, Benjamín Ávila arranca aos actores interpretações perfeitas e credíveis. A começar pelo notável Teo Gutiérrez Moreno, o miúdo que conta a história e interpreta Juan. E depois com um extraordinário elenco de actores latino-americanos, que já vimos em outros filmes incontornáveis, como o 'Segredo dos Teus Olhos' ou 'El Baño del Papa', entre outros: o argentino Ernesto Alterio (pai), os uruguaios César Troncoso (tio Alberto) e Natalia Oreiro (mãe) e a veterana Cristina Banegas (avó). Ao Colombo de Ouro junta-se igualmente a pré-candidatura pela Argentina, de 'Infancia Clandestina', aos Óscares de Melhor Filme em Língua Estrangeira em Hollywood.

UM PALMARÉS ACERTADO

O Prémio Especial para o filme mexicano 'Mai morire', de Enrique Rivero, também não constitui uma surpresa: um excelente trabalho dos actores não-profissionais (destaque para a protagonista interpretada pela cantora Margarita Saldaña) que dão vida a personagens que parecem interpretar-se a elas próprias. Tudo isto associado à beleza fotográfica das imagens e à frescura simbólica da história e da música de 'Mai morire'. A proposta de Rivero foi muito bem acolhida, mesmo como filme de abertura, embora seja um relato no feminino, intimista e profundo sobre uma mulher índia mexicana que vê aproximar-se o fim da sua velha mãe, quase centenária e reflecte como vai reagir a essa morte e perda. As importantes menções honrosas foram atribuídas: a Claudio Amaral Peixoto pela já destacada qualidade da direcção artística do circo tradicional e um prémio para a Direcção de Fotografia, de Adrián Tejido (Colombo de Prata) no filme brasileiro 'O Palhaço', dirigido por Selton Mello; a outra menção foi atribuída à coralidade interpretativa do conjunto de actores e actrizes da comédia negra argentina intitulada 'Ni un hombre más', dirigida por Martín Salinas, que ganhou igualmente um Colombo de Prata para Melhor Argumento. O Colombo de Prata para Melhor Realização, foi atribuído a Kenya Márquez pela sua obra 'Fecha de caducidad' (México, 2012), um thriller de equívocos e uma brilhante história de três personagens que cruzam tragicamente as suas vidas, num cenário de violência e sequestros permanentes. O Colombo de Prata para Melhor Actriz foi para a jovem Alicia Rodríguez, que dá 'o corpo ao manifesto', no surpreendente filme 'Joven y alocada' (Chile, 2012), de Marialy Rivas. O argentino Pablo Pinto pelo seu notável trabalho de composição da personagem do culturista de 'De martes a martes' (Argentina, 2012), de Gustavo Fernández Triviño, recebeu um Colombo de Prata para Melhor Actor. A Caravela de Prata correspondente ao Realizador Revelação do Festival foi atribuido também atribuído ao jovem Gustavo Fernández Triviño, realizador do filme 'De martes a martes' (Argentina, 2012). O Prémio do Público foi para  'O Palhaço', de Selton Mello um dos filmes brasileiros mais vistos do ano e igualmente um dos pré-nomeados aos Óscares de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

www.festicinehuelva.com

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