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LA VÉNUS À LA FOURRURE, de Roman Polansky

A competição de Cannes 2013, fechou em grande com dois belos filmes, ambos contra à corrente, que vão passar certamente ao lado da premiação. O primeiro intitula-se 'La Vénus a la Fourrure', é um comédia erótica de Roman Polansky, com dois únicos actores em cena: Emmanuel Seigner e Mathieu Amalric e inspirado no romance de Leopold Sacher-Masoch; 'Only Lovers Left Alive', um romance intemporal, dirigido por Jim Jarmuch, com Tilda Swinton, um filme que chegou à ultima da hora à Competição. 

José Vieira Mendes

Presidente do júri em 1991, Palma de Ouro com 'O Pianista' em 2002, senhor de um curriculo impressionante, o realizador de origem polaca Roman Polansky, regressou à competição, curiosamente com o seu primeiro filme falado em francês. E dos poucos que dirigiu a sua mulher, a actriz Emmanuele Segnier (o último foi a 'Nona Porta', em 1999). Depois de 'Carnificina', a partir da peça de Yasmina Reza, que estreou, na última temporada e à beira de completar 80 anos, Polansky, revisita novamente a estética do teatro dentro do cinema, com 'La Vénus a la Fourrure', a adaptação da peça de David Ives, inspirada no romance homónimo de Sader-Masoch. Sozinho num velho teatro parisiense e depois de um dia intenso de audições de actrizes para o principal papel da sua nova peça, Thomas (Mathieu Amalric) lamenta-se ao telemóvel da fraca qualidade das candidatas ao papel principal. Quando se prepara para sair eis que surge Vanda (Emmanuele Seigner), uma actriz com maus modos, mas um verdadeiro turbilhão de energia. Vanda incorpora tudo o Thomas odeia. É vulgar e inculta. Forçado Thomas acaba por deixá-a tentar o papel e é com espanto que vê Vanda metamorfosear-se numa grande actriz: dá sugestões para adereços e figurinos, compreende a essência da peça, tem os diálogo decorados, além de ter o nome da protagonista. Enquanto a 'audição' se vai estendendo, vai redobrando a intensidade da relação entre os dois. Aquilo que era um simples teste para uma papel vai-se transformando numa obsessão pessoal e numa profunda reflexão sobre o teatro, a duplicidade e a dominação. Emmanuel Seignier e Mathieu Amalric são brilhantes neste filme inteligente, uma pretensa comédia erótica que não tem um única cena de sexo. A realização de 'La Vénus a la Fourrure' é impressionante, pois o filme é rodado como apenas uma câmara num único décor (um palco e uma plateia de teatro) todo construído de raiz. Foi tambem uma surpresa, 'Only Lovers Left Alive', de Jim Jarmuch, uma curiosa história de amor entre um homem e uma mulher, Adão (Tom Hiddleston) e Eva (Tilda Swinton). Um filme que tem tanto de romântico, como de pouco convencional. O argumento é baseado em 'A Vida Privada de Adão e Eva', o último livro de Mark Twain. Embora não exista nenhuma referência direta a esta obra, para além dos nomes dos personagens. A história passa-se nas decadentes e inspiradoras cidades de Detroit (marcada pela crise da indústria automóvel) e Tânger (cidade de Paul Bowles e de outros 'estrageiros') Em Detroit vive sózinho e deprimido Adam, um músico alternativo com poucos contactos com o mundo exterior; Eva uma mulher enigmática, está em Tanger relacionando-se apenas com um velho amigo Christopher Marlow (John Hurt), como o sanguinário dramaturgo inglês. Eva acaba por ir ao encontro do seu amante em Detroit. O seu idílio é perturbado pela chegada da extravagante e incontrolável Ava (Mia Wasiokowska) a irmã de Eva. Os dois amantes que são os arquétipos do conhecimento, já que a sua visão da história dura há séculos, mas sempre viveram na verdade à margem da sociedade. Além disso não é fácil sobreviverem neste mundo moderno, pela simples razão de que são vampiros. Contudo, 'Only Lovers Left Alive', não é uma história vulgar de vampiros, como a saga de 'Crepúsculo' e outros filmes da moda. O filme é uma verdadeira obra de arte, desenrola-se inteiramente à noite pois Adão e Eva precisam de sangue humano para sobreviver. No século XXI, morder o pescoço a um estranho é um risco regressivo, pois têm de ter certeza que o sangue (que os faz viver) é puro, saudável e não está contaminado. Metáfora da sociedade contemporãnea e da sua crise de valores materiais e intelectuais 'Only Lovers Left Alive' é uma história de amor intemporal  e vanguardista serve para nos fornecer em primeiro lugar uma perspectiva genuína na história da humanidade. Depois é um alerta muito subtil para o poder das forças da natureza em relação aos homens. Por último, uma crítica ao comportamento irrefletido dos homens do Poder, que são totalmente desprovidos de uma visão a longo prazo, algo que nos pode levar nas sociedades ocidentais a uma especie de zombies no meio do caos e do colapso. A banda sonora é excelente, como aliás quase sempre nos filmes de Jim Jarmuch, pois atravessa tempos, lugares e géneros: rock&roll e soul dos anos 50 e 60, a experimental de Bill Laswell, até à world music, com por exemplo o tema 'Hal', interpretado ao vivo pela cantora libanesa Yasmina, em Tânger e quase no final do filme.<#comment comment="EndFragment">