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Há várias maneiras de dizer Não

Cinema

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Mesmo quando tudo parece perdido

Este é um filme do momento: aquele que toda a gente devia assistir. Porque diz mais sobre os sentimentos, os processamentos da memória, as reciclagens da história e, em suma, a alma humana (seja lá o que isso for) do que quaisquer tratados e preleções. O terceiro filme da trilogia de Larraín - Tony Manero e Post Mortem - dedicada à ditadura chilena (nomeado a melhor filme estrangeiro nos Oscars), passa-se durante um mês, em 1988, nos bastidores de uma campanha. Pressões internacionais exigiam que se realizasse um referendo que sustentasse a permanência do sinistro ditador Pinochet. Os militares no poder e a oposição (para a qual confluiam todos os movimentos, dos democratas cristãos aos comunistas) teriam ambos direito a um tempo de antena de quinze minutos diários na TV. Os homens do ditador acordaram que o melhor era dar uma dimensão humana ao general, pô-lo a aparecer sem farda, a beijar criancinhas, ao som de um hino bem chileno... Os adeptos do "não" temiam duas coisas: as velhas resignadas e a juventude que achava que as eleições seriam forjadas e nada valia a pena. Preparavam-se para fazer um tempo de antena-denúncia, em que as mães lamentavam o desaparecimento dos seus filhos, as torturas, as mortes. Entra em cena um jovem publicitário e apercebe-se de que eles estão a fazer tudo mal: o horror e o sentimentalismo não vende. E "vendeu" o "não", com base numa campanha pateta, com um gingle que clamava "Chile é alegria", sketches humorísticos, palhaços, mimos, coreografias tontas, cavalgadas, piqueniques... como quem publicita um refrigerante ou um detergente... Perfeitamente desconcertante. Dá que pensar. Afinal, tratava-se da ditadura mais sanguinária, dos fuzilamentos, das valas comuns, dos estádios cheios de cadáveres... O sofrimento não vende... O "Não" ganhou, mesmo sob coação e vigilância, e todo o filme é construído com o arquivo das reais peças publicitárias dos finais dos anos 80, tendo o restante filme a mesma estética visual, cheio de grão e falhas de foco: foi filmado com as câmaras televisivas de época, o que lhe confere a simbiose perfeita.