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Ferrugem e Osso - De tanto bater a sua mão estilhaçou

Cinema

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Um filme arriscado onde a tragédia nunca é exclamada (!)



A estreia mais forte da semana, do premiadíssimo realizador francês: um filme que noutras e mais inseguras ou trementes mãos tinha tudo para ser piegas, insuportavelmente sentimental, a transbordar de compaixão pungente e de comiseração desperdiçada. O mundo está dividido entre os que choram e os que vendam lenços. Felizmente, o realizador está do lado dos pragmáticos, e não necessita de puxar ao sentimento e à lágrima fácil para captar a benevolência. As desgraças acontecem, até ao limite da tragédia, sem contemplações apenas um pré-aviso ao espectador que percorre todo o filme, em tons de uma imersa turbação. Desde o genérico que mostra um visão submersa, tão fascinante quanto inquietante, ao azul da piscina e todo aquele atordoamento medonho e excessivo do show das baleias - que faz um estranho raccord com o aturdimento e vertigem da discoteca - ou ao ambiente subaquático do hospital de luzes coadas, ou ao azul do Mediterrâneo quando a banhista inválida se afasta da costa, ou ao olhar azul do pugilista já tombado, esmurrado, espatifado no chão, à beira do KO, e vê a mulher sem pernas, a mulher sereia, a mulher robocop (extraordinária Marion Cottiard também com olhar azul pálido), a aproximar-se, sem mágoa visível, apenas determinação... E é a sensação que nos acode ao longo do filme, quando tudo está mal ainda pode piorar. E há uma criança sem mãe, um pai pugilista ausente e imaturo, uma caixa de supermercado precária que leva para casa os produtos fora de prazo, uma amestradora de orcas que sofre um acidente, uma amputação terrível - e toda a a gente fala na violência dos rios e não das margens que a comprimem. E talvez essa violência que nos é atirada à cara de uma forma crua e algo rude é parecida com aquela que as baleias assassinas vivem, comprimidas naqueles tanques infernais, rodeadas de frémito e música agressiva que ecoa e repercute-se funestamente na água que é boa condutora destes sons hostis. Frio e duro, mas delicadamente filmado, e excelentemente musicado, o filme só há de terminar quando a pior desgraça anunciada acontecer, numa espécie de prisão aquática, como o tanque das orcas, e o pugilista vai enfim perceber outra utilidade, que não a de esmurrar caras, para os 27 ossos da mão.  E só na incompletude, este lutador de mão quebrada e esta treinadora de baleias sem pernas, se poderão encontrar.      

Ferrugem e Osso

 De Jacques Audiard. De rouille et d'os, com Bouli Lanners, Jean-Michel Correia, Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Matthias Schoenaerts, Mourad Frarema, Yannick Choirat. Drama. 120 min. França. 2012