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Woody Allen: Turista Ocidental

Estado Crítico

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para roma com amor

Tanto as atrizes como as cidades europeias aliciam Woody Allen para entrar nos seus filmes. A razão é exatamente a mesma: ele sabe como embelezá-las, criar-lhes charme e mistério. Depois de Londres, Barcelona, Paris, é a vez de Roma, cidade (supostamente) eterna. E entre as grandiosas ruínas, colunas sem serventia e os despojos de uma civilização desabada, o novo filme é invadido pelo síndroma de Ozymandias que tanto apoquenta as personagens de Allen. E a ele próprio também, muito, "tantíssimo"...

Scarlett Johansson já disse que para entrar num filme de Woody Allen era capaz de lhe engraxar os sapatos. Assim que soube que o mais europeu dos realizadores nova-iorquinos ia rodar em Espanha , Penélope Cruz correu a pedir-lhe um papel. Allen assentiu, e acrescentou generosamente:"Antes que ela mudasse de ideias". A atriz espanhola fez saber, através dos seus managers, que era fluente em italiano, quando o realizador preparava Para Roma, com Amor (estreia-se hoje, dia 20). Grande parte das suas principais intérpretes femininas foram nomeadas para os óscars- ressalvando-se o esquecimento imperdoável de Mia Farrow, que entrou em 13 dos seus 47 filmes. É quase uma questão de estatuto, mais do que a experiência de trabalhar com Woody Allen, 76 anos, invariavelmente descrito em rodagem, como lacónico, carrancudo, enfadado, pouco disponível para conversas, quanto mais para convívios. "Não tenho interesse na vida real, nem em vida social com os meus atores".

Mais difícil será arrastá-lo para fora de Nova Iorque. Aliás, é difícil arrastá-lo para fora de qualquer cidade. Ele detesta campo. Costuma dizer esta piada, um bocado intransponível para português, a propósito da sua aversão pelo campo e pela natureza: "I'm two with nature" (por contraste à expressão "to be one with something, estar em uníssono com...). "Os grilos deixam-me nervoso- isso resume tudo o que penso sobre o campo". Tem sempre medo de ter um ataque de"agorafobia ou de apanhar uma doença qualquer que seja totalmente desconhecida, exceto para uns quantos médicos de Manhattan". Uma vez comprou uma casa junto do mar, arranjou-a e decorou-a meticulosamente durante meses a fio. Passou lá uma noite e foi a última: "Não suportei o ruído do mar". E assume: "Sou um homem do asfalto". Em Match Point (2005) estava prevista uma cena romântica entre Scarlett Johanson e Jonathan Rhys-Meyers, no campo, à chuva, durante a noite. Mas quando chegou a altura de procurar exteriores, pensou que não queria nada ir para o campo a meio da noite. E a célebre cena fez-se à chuva, durante a tarde, numa plantação de trigo.

Tudo isto para dizer que Woody Allen não é, nunca foi um desses realizadores- viajantes. Se lhe propusessem, já comentou, filmar o Lawrence da Arábia, ele ficaria arrepiado de ter de passar meses no deserto - se é que é adequada a enregelada sensação em tão tórridas paragens. No fim das filmagens gosta de ir para casa, ter as suas rotinas, ir aos restaurantes de sempre e dormir na sua cama. Vinte e seis dos seus filmes são passados quase integralmente na sua cidade, Nova Iorque city. Mesmo assim, já fez várias andanças pelos EUA: Em Los Angeles filmou, O Herói do Ano 2000 (1973), ou A Maldição do Escorpião de Jade (2001); em Beverly Hills, parte de Hanna e as Suas Irmãs (1986); em São Francisco, Inimigo Público (1969); em Orangetown Rosa Púrpura do Cairo (1985); Em Long Island Melinda e Melinda (2004); em Closter Crimes e Escapadelas (1989), em Alpine, Zelig (1983)... Também passou pela Hungria a rodar Nem Guerra nem Paz (1975); ou pela Sicília , Poderosa Afrodite (1995); em Veneza e Paris para parte do musical Todos Dizem que te Amo (1996)...

Hollywood Ending (2002): a genial história de um realizador (interpretado por ele próprio) que perde a visão a meio de um filme, mas que por circunstâncias várias tem de ocultar esse "pormenor" e continuar a filmar. Tudo corre mal, o caos instala-se e o filme é arrasado, excepto pelos críticos franceses. A película tem assim um final à Casablanca, o realizador recupera a visão, sim, fica deprimido com as reacções hostis ao seu filme, mas... "teremos sempre Paris". E é este o ponto de viragem geográfica na cinematografia de Allen. Foi o seu outro "Hollywood ending". A Europa recebeu-o de braços abertos. A partir de 2005, realiza quatro filmes em Londres, um em Barcelona, outro em Paris e o último em Roma (ver caixas).

Basicamente aceita instalar-se com a sua equipa em sítios que não sejam "sujos ou perigosos", e suficientemente interessantes para ficar não se aborrecer, e levar a família. E de repente, uma série de cidades passaram a fazer-lhe "encomendas", acenando com financiamentos. "Os europeus financiam e não interferem, não leem os guiões, não querem saber o que eu estou a fazer, confiam". Israel e o Rio de Janeiro tem feito bastantes acenos , mas Woody não se decidiu, apesar de ser um admirador de Tom Jobim (e a música é para ele algo, sem dúvida, muito inspirador, senão quase decisivo). Diz que ainda não arranjou a história certa para o Brasil, "cada cidade tem de ter a sua história própria" e o próximo filme será novamente nova-iorquino.

Estar na Europa, insiste, foi um "feliz acidente": "Vou aonde sou bem-vindo, onde os meus filmes possam ser financiados sem restrições à minha visão criativa e onde possa passar três meses agradáveis". No fundo, a sua formação intensa e absolutamente sapiente, em cinema europeu, reflete-se nestas aventuras turístico-cinematográficas, e neste detalhe que ele sempre achou extremamente divertido: fazer um filme com legendas. "O meu grande sonho sempre foi ser um realizador estrangeiro; desses que fazem filmes com legendas".

Volare, Ouuuuoooô

Começar um filme passado em Roma com um tema tão estafado como Volare, "Nel blu dipinto di blu", que entrou num Festival da Eurovisão no final dos anos 50, seria o mesmo que abrir um filme sobre Lisboa com "É uma Casa Portuguesa, com certeza", ou com "Sei quem ele é...", ou algo parecido. É normal que dê a volta ao estômago a qualquer romano. Allen assumiu o risco da indigestão por consumo auditivo excessivo. Em Match Point usou ópera, em Vicky Cristina Barcelona uma banda local contemporânea, em Paris Cole Porter, em Roma optou por... Volare, e não terá sido por acaso. Woody Allen é um admirador confesso de filmes italianos. Alguns estão mesmo na sua lista pessoal de melhores filmes do mundo. Nomeadamente O Sheik Branco (1952), de Fellini, que mantém algumas ressonâncias óbvias com um dos episódios de Para Roma, com amor, um filme-mosaico, em que os quatro plots nunca se entrelaçam (e o facto das personagens de um e de outro não se cruzarem é uma das características refrescantes deste argumento - bem mais complexo e difícil de intercalar do que os habituais multi-plot do pós-Magnólia). E com uma música batida, Woody Allen parece querer mostrar que não lhe interessa só a Roma da atualidade, nem a do classicismo, mas também a Roma sonhada, acumulada no seu referencial privado pelos filmes da idade de ouro que consumiu. A intemporalidade.

E então temos nel blui dipinto di blu e um apanhado geral de vários pontos turísticos de Roma (da mesma forma, começa aliás, Meia-noite em Paris), as vielas, o coliseu, as lambretas, a famosa "máquina de escrever", de encontro a um sinaleiro, que não entra na história - é apenas aquele que vê tudo, narra e prevê (como um coro grego) , gesticula imenso (se os italianos são os campeões na sinalética gestual imagine-se um sinaleiro italiano) e manda avançar as primeiras personagens e o primeiro contacto com a língua, que nitidamente Woody Allen aprecia: "Porca Miséria!".E de facto é a única língua onde pronunciar-se um insulto -"imbéchilê"- pode parecer foneticamente um elogio.

Mas apesar de as histórias não se tocarem - existe apenas unidade espacial (todas se passam em Roma), mas não há unidade temporal (uma ocorre apenas num dia, outras num mês, numa semana, ou num ano) - há um sentimento, ou um síndroma, que as "assombra" (e esta é a palavra indicada). Ou seja, não é uma mixórdia de temáticas, no melhor dos sentidos que a expressão ganhou com Ricardo Araújo Pereira: Há uma espécie de pastoreio que as reúne e aqui remete-se para o tal síndroma ufano, com jactâncias pretensiosas, que ficou lá para longe, no alto deste artigo: "síndroma de Ozymandias". Já em Stardust Memories (1980), Allen tinha recorrido a esta expressão, quando o cineasta enfadado com os admiradores e a celebridade, ostenta um desânimo quanto à materialidade da vida diante da morte, e amaldiçoa a própria finitude e a não perenidade da arte. Ozimamdias é o nome em grego do Faraó Ramsés II, dono do mais longo e poderoso império no Egito. E desta grandiosidade, sobrou uma estátua disputada por Napoleão e pelos britânicos (hoje pode ser vista no Museu Britânico) e o resto... é areia. Percy Shelley, poeta romântico, também conhecido por ser o marido de Mary, criadora de Frankenstein, dedicou-lhe um poema, muito conhecido na cultura anglo-americana: "Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos/ Nada mais resta: em redor a decadência/ Daquele destroço colossal, sem limite e vazio". E não há melhor sítio do que Roma, com os seus imponentes cacos e maravilhas da humanidade esventradas, embora não totalmente despojadas de dignidade, para num olhar ao passado ver no presente o espelho escurecido da decadência . Apesar de todas as "vontades indómitas". Por isso, logo no início, a personagem de Alec Baldwin, não por acaso um arquiteto, está neste estado de melancolida de Ozymandias, prefere não contemplar "os destroços colossais", perde-se na vielas de Roma e torna-se uma espécie de grilo falante de um estudante de arquitectura (Jesse Eisenberg) - ou será ele próprio, enquanto jovem?-, e tenta desmoralizá-lo, e impedir que ele se apaixone pela mulher errada, porque na vida não vale a pena correr riscos: Ellen Page, que recita Yeats ("ela decorou os primeiros versos só para impressionar") e sonha interpretar a Menina Júlia de Strindberg, é muito neurótica, teve experiências lésbicas, fez psicanálise cinco dias por semana, logo absolutamente atraente e provocadora de "frémitos sexuais" nos homens - segundo os padrões habituais das mulheres nos filmes de Allen. Entretanto, há um italiano de uma banalidade confrangedora (Roberto Benigni), que acorda todos os dias às sete da manhã, comenta o preço do mel, as consequências da tecnologia nos empregos,a secretária do chefe, o filme do Discurso do Rei e que uma bela manhã fica famoso (por ser famoso), e é assediado por paparazzi vorazes (estamos na terra deles) que querem saber se ele barra o pão com manteiga ou marmelada, se dorme de lado ou virado para cima, se usa cuecas normais ou boxers... Quando a "fama" transita para um condutor de autocarros, o ex-famoso já não lida assim tão bem com o anonimato do comum dos mortais. Porque é sempre da finitude da nossa existência que se trata. E já é tempo de introduzir Woody Allen (volta a contracenar seis anos depois de Scoop), no papel de encenador de ópera reformado que já vem a caminho de Roma, conhecer o noivo italiano da filha, carregado das suas típicas neuroses no avião por causa da turbulência, ele que "é ateu".. Tem a angústia de nunca ter feito uma obra que deixasse marca, "é um encenador à frente do seu tempo", mas talvez não fosse grande ideia pôr o Rigolleto, com as personagens vestidas de ratos brancos, acrescenta a mulher psiquiatra (a magnífica Judy Davis). O noivo é comunista, opai do noivo agente funerário, "e a mãe dirige uma leprosaria?", pergunta Allen, prestes a ficar encantado com o tenor em que o italiano-sogro se converte quando canta no duche. Quer de imediato fazer um espetáculo com ele, tenta convencê-lo, "quando não estiver ocupado a cremar pessoas". O problema é que ele só é brilhante no duche. Depois há um recém-casal algo anacrónico que chega da província à procura de uns velhos tios muito ríspidos e influentes, e de um bom posto na empresa, e a vulcânica Penélope Cruz interfere numa cena de qui-pró-quos, mesmo à comédia italiana. A rapariga recém-casada e astrónoma, também não por acaso, perde-se nas ruas, encontra velhos ídolos do cinema italiano, e hesita em trair o marido num quarto de hotel "para ter alguma coisa para contar aos netos". E se não for um astro de cinema, também serve um vulgar assaltante... Há que deixar marca, perpetuar qualquer coisa. E de uma melancolia irrevogável de alguém que se senta as ruínas de algo majestoso e suspira, Woody Allen constrói uma comédia. É sempre assim, o melhor humor vem desta fatalidade que é a consciência da morte e de que infinito só mesmo o universo e a nossa mediocridade: "As pessoas pensam que não há limites para aquilo que podemos fazer, mas, na verdade, não conseguimos fazer grande coisa que tenha realmente significado. Todos sofremos e nos enfurecemos com a natureza humana, mesmo quando somos famosos. Eu exagero estes problemas e ansiedade , recorrendo a todos os artifícios que posso para provocar o riso. Não tem piada nenhuma sermos apenas um ponto no espaço. É disso que se trata. É isso que somos -membros de uma espécie falhada".

 

caixas

LONDRES-

Match Point (2005), Scoop (2006), O Sonho de Cassandra (2007), Vais conhecer o homem dos teus sonhos (2010)

A ambiência brumosa de Londres parece ter-lhe sugerido sempre filmes de crimes e mistérios. Match Point foi considerado obra-prima.

 

BARCELONA

Vicky Cristina Barcelona (2008)

Um filme totalmente solar, com cores saturadas, sobre um quadrilátero amoroso, em que Javier Bardém anda à vez, e em simultâneo, com três mulheres, todas diferentes, todas lindíssimas: Scarlett Johansson, Penélope Cruz, Rebecca Hall.

PARIS

Meia- Noite em Paris (2011)

Um história que já estava no baú de Woody Allen, o seu encontro com os ídolos do passado, misturado com o síndroma da idade de ouro, a sensação de que se nasceu demasiado tarde e de que o período anterior é sempre melhor que o atual. Foi o seu maior sucesso de bilheteira, reconciliou-o com o público e ganhou um Óscar de melhor argumento (de entre as quatro nomeações).