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WOODY ALLEN No céu pintado de azul

Estado Crítico

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Não entrando na fábula encantatória de Meia-Note em Paris, Woody Allen faz uma comédia encantadora. Com o seu melhor humor, menos psicótico e mais solar. Foram assim as histórias que Roma lhe pediu que contasse.



Na sua digressão europeia, que já passou por Londres, Barcelona e Paris, Woody Allen tira a temperatura às cidades e reverte os estereótipos a seu favor. O mistério londrino de Match Point (2005), a sensualidade catalã de Vicky Cristina Barcelona (2008) ou a intelectualidade nostálgica de Meia-Noite em Paris (2011). Roma é do amor e das fantasias. Mas é também das pessoas e da forma aberta e desorganizada de estar em sociedade. Em nenhum outro filme europeu Woody Allen juntou tantas personagens e histórias. Mas nem por isso se dispersa. Não há uma unidade temática evidente, comum a alguns filmes multiplot que cercam um assunto (Traffic,  por exemplo, sobre a questão das drogas; Pret-á- Porter, sobre o mundo da moda), mas de forma talvez mais subtil Allen consegue levar essa unidade para além da evidência de contar histórias que se passam em Roma e assim dar uma perspetiva sobre a cidade. Consegue-o não através das personagens por si só, mas sim do percurso que fazem através da ilusão que lhe oferece. Nisso há uma proximidade maior até Vais encontrar o homem dos teus sonhos (2010), o seu último filme nova-iorquino, só que ali grande parte das personagens vivia iludida, numa ilusão impossível de desfazer. Em Para Roma, Com amor, a ilusão faz parte de um percurso, genericamente é apenas um instante, um instante de luz, um momento de felicidade ou de epifania. A ilusão desfaz-se, mas nem por isso desilude, é aceite como um remate inevitável de que se tira a conclusão: valeu a pena o momento - e que provoca, possivelmente, uma transformação. Como um incidente feliz. Expressa-se bem no dilema Milly (Alessandra Mastronardi), que se convence a ir para a cama com um ator (Antonio Albanese), porque assim já tem qualquer coisa na vida que possa contar aos filhos.

Muito ao estilo de Woody Allen, as situações são oferecidas às personagens de forma escancarada e irrealista. Num filme de outro género seriam inaceitáveis, mas aqui fazem parte das regras do jogo. Essa aparente inverosimilhança lógica no contexto está logo no primeiro plot: a turista americana (Alison Pill) apaixona-se por um jovem italiano descomprometido e bem-parecido (Flavio Parenti) que encontra por acaso na Fontana de Trevi. Está dado o tom: é um filme de sonhos e efabulações, de mitos tornados realidade. Acontece de forma mais assombrosa na personagem de Leopoldo (Roberto Benigni), um italiano médio que subitamente se torna famoso por ser famoso. De modo algo excêntrico com Giancarlo (Fabio Armaliato), que canta ópera no duche e torna-se um cantor de ópera... no duche. De modo falsamente altruísta em Woody Allen, que tem uma última 'epifania' que serve para evitar a reforma. De modo algo subconsciente com Milly, cuja história repete pormenores da comédia O Sheik Branco (1952), de Fellini, que na confusão da grande cidade encontra meio de realizar as suas fantasias. De modo igualmente subconsciente com Antonio (Alessandro Tiberi), que acaba por ganhar, em duas etapas, a mulher dos seus sonhos. John (Alec Baldwin) cumpre a fantasia de se encontrar literalmente com o seu passado e dar conselhos ao miúdo que já foi (Jess Eisenberg).  

A questão é a forma como as personagens lidam com a fantasia que o argumento lhes oferece (que lhes cai do céu): Woody Allen permite várias opções, tornando-se um filme essencialmente positivo, apesar de algumas personagens neuróticas. Naturalmente, perante um vasto naipe de personagens negativas é necessárias erguerem-se outras que são negativas ou neutras, como Phylis (Judy Davis), Michelangelo (Flavio Parenti) ou Sally (Greta Gerwig).

Não entrando na fábula encantatória de Meia-Note em Paris, Woody Allen faz uma comédia encantadora. Com o seu melhor humor, menos psicótico e mais solar. Foram assim as histórias que Roma lhe pediu que contasse. E, no final, fica sugerido que poderá voltar a Itália. Mas no próximo filme, já se sabe, regressa à América.



Para Roma, com amor, de Woody Allen, com Roberto Benigni, Alison Pill, Penélope Cruz, Woody Allen, Alec Baldwin, Ellen Page, Jess Eisenberg, 112 min