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VIRGEM MARGARIDA Má vida, vida má

Estado Crítico

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Na euforia do 'comunismo' anticolonialista, as forças governamentais, fieis à FRELIMO, recolheram as prostitutas das cidades para as levar para campos de reeducação, em buusca da 'nova mulher'

Enquanto na América as histórias quase se esgotam, noutros pontos do mundo todas as histórias estão por contar (em termos cinematográficos, claro).  Tivessem os americanos um processo de pós-independência tão atribulado como o de Moçambique que já um milhar de filmes teriam sido feitos à volta de temas semelhantes. Assim não sendo, vale a pena apontar o foco da nossa atenção a Virgem Margarida, a primeira longa de ficção do veterano documentarista Licínio Azevedo, que nos conta uma incrível e triste história da primeira infância da República de Moçambique. Ajuda-nos a compreender o próprio pais (o passado é sempre a chave do presente e do futuro) e levanta grandes questões. Na euforia do 'comunismo' anticolonialista, as forças governamentais, fieis à FRELIMO, recolheram as prostitutas das cidades para as levar para campos de reeducação. A seu ver, a prostituição é uma maleita do colonialismo da qual aquelas mulheres precisavam de ser curadas à bruta, para se reabilitarem e converterem-se em boas donas de casa. Assim, são enviadas para um campo de trabalhos forçados, em condições sub-humanas, em que se permitia a tortura como método de disciplinação. A Comandante Maria João, que acaba por ser uma das personagens principais, juntamente com Rosa, acredita convictamente no método e na revolução. Apesar da sua dureza e impiedade, a carrasco, como as outras lhe chamam, acredita piamente que está a servir uma causa e uma ideologia. Ela é genuína. Só que o sonho destrói-se por si só. Na chegada dos comandantes ao campo, deparamo-nos com todo o futuro de Moçambique, como os princípios ficaram inquinados à partida, e tudo se traduziu em corrupção e traição de ideais. São piores que os colonos, diz Rosa. A revolução ficou por fazer. Na estreia na ficção pura de Licínio Azevedo nota-se a escola do documentário. A realidade é retratada com alguma dureza, numa viagem no tempo. Falta qualidade em alguns atores, o que faz com que se perda algum balanço na gestão das emoções. Mas sem dúvida que Moçambique precisava de mais filmes assim, em que o pais se encontrasse consigo próprio.