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Uma Vida Melhor: PARA PIOR JÁ BASTA ASSIM

Estado Crítico

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Uma Vida Melhor, de Cédric Khan, realizador premiado em Cannes, ilustra de forma exemplar a dimensão económica da pobreza neoliberal. O paradigma da ideia de terra de oportunidades, em que o fácil acesso ao crédito pode até gerar riqueza, mas, regra geral, resulta em miséria. A sociedade neoliberal tem por hábito degolar aqueles que ousam trepar pela sua própria estrutura. É com a corda que nos tiram do poço que nos enforcam



As coisas podem sempre piorar. E nesta crise em catadupa em que o país se acha, esta é uma noção vivida na pele: o buraco não tem fim. Repita-se o verso da Chula como se fosse uma oração: "Para melhor está, está bem; para pior já basta assim". A crise é europeia e o capitalismo, ou melhor, o neoliberalismo (que em Portugal atingiu uma dimensão selvagem) cria as suas vítimas. Isso faz com que o neorrealismo contemporâneo, o cinema social europeu tenha características próprias que se distinguem bem do neorrealismo italiano dos anos 40. A nova pobreza tem características diferentes do drama de Ladrões de Bicicletas (1948). A Europa francófona entendeu bem isso, pelas mãos dos Irmãos Dardenne, Ursula Meyer (o último filme vai estrear em breve) ou por Laurent Cantet. Uma Vida Melhor, de Cédric Khan, realizador premiado em Cannes, ilustra de forma exemplar a dimensão económica da pobreza neoliberal. O paradigma da ideia de terra de oportunidades, em que o fácil acesso ao crédito pode até gerar riqueza, mas, regra geral, resulta em miséria. A sociedade neoliberal tem por hábito degolar aqueles que ousam trepar pela sua própria estrutura. Tal como, no caso português, Margarida Leitão documentou tão bem em Muitos os Dias tem o Mês (2009).

Cédric Khan ilustra-o numa história bem contada, no seio da progressista e rica sociedade francesa. É uma história vulgar de sonho frustrado, que se transforma em mais do que isso, numa espiral de desespero, em que só com o crime se redimem os pecados. Ou usando, uma imagem forte que se aplica a uma sociedade civil sufocada de dívidas: é com a corda que nos puxam do fundo do poço que mais tarde nos enforcam.

Tal como os irmãos Dardenne, Cédric Khan aplica o seu neorrealismo a um contexto europeu e branco. Contudo, em vez de se remeter a uma classe baixa, eventualmente oculta, alarga-o a uma classe média, teoricamente sustentável, mas que não se pode dar ao luxo do mais pequeno deslize. Como um sonho americano invertido. Um passo em falso e a miséria aproxima-se e num mundo de valores esgotados as saídas são difíceis de encontrar.

Por tudo isso, Uma Vida Melhor não poderia chegar em tempo mais oportuno. É uma perspetiva atenta e atual, que não procura refazer géneros, nem buscar ingredientes rebuscados ou demagógicos (como o último de Meyer) para recuperar o olhar preciso do cinema neorrealista. Uma obra atual e sem subterfúgios melodramáticos. A realidade é que é bruta.



Uma vida melhor, de Cédric Khan, com Guillaume Canet, Leïla Bekhti e Slimane Khettabi, 110 min.