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Uma Vida Melhor - COM ACESSO BLOQUEADO

Estado Crítico

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Uma vida melhor

Quando tudo está mal ainda pode piorar. Uma viagem muito contemporânea até aos abismos dos empréstimos e das dívidas

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É um filme extraordinário. Sobretudo na forma quase discreta (diríamos indirecta) com que consegue fazer um arco da narrativa, num subtil crescendo. Primeiro a banalidade de um encontro entre um homem e uma mulher (um cozinheiro parisiense e uma empregada de mesa libanesa), depois a trivialidade de um quotidiano a três (ela tem um filho de 9 anos), depois a credulidade legítima de fazer projetos de uma vida melhor, montar um restaurante, num local edílico demais, junto a um lago, num parque nos arredores de Paris. Só que uma brincadeira, também muito ténue para se lhe dar importância. O homem e a criança brincam com um helicóptero telecomandado, que teima em desgovernar-se e despenhar-se. O controlo talvez seja demasiado remoto. E Uma Vida Melhor é sobre isto. Quando o controle é tão remoto, tão remoto, que a vida se pode despenhar a qualquer momento. E nesta fase é que o filme começa na sua fase ascendente, o casal numa escalada suicidária entre empréstimos e operações bancárias, créditos e juros, e quanto mais o argumento sobe de tom, mais se afundam as personagens, de pingo em pingo até à tempestade final. Só porque vivem num tempo - este- um tempo em que não se podem ter sonhos: nem que seja o de abrir um negócio de sobrevivência. Tudo se desmorona. A criança passa para plano central. São as cenas mais fortes do filme, aquela em que um homem enterrado até ao pescoço por dívidas, acossados por agiotas mafiosos, curvado de tragédia, arrasta uma criança que nem é seu filho, se senta com ela a  discutir, a contar tostões, a partilhar aquela existência em que do mundo se faz submundo, tão rapidamente que nem damos conta. Mas depois há aquela cumplicidade encantadora entre o cozinheiro (fantástico ator, Guillaume Canet ) e a criança, as gargalhadas que ainda é possível dar debaixo de água, tudo sem pieguice nem artifícios, apenas alguns momentos de distensão, para melhor deixar subir a tensão. E a música redentora há-de chegar no fim, não tanto para aliviar as personagens, mas a nós. Seus contemporâneos.