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Três curtas portuguesas: A fúria das imagens

Estado Crítico

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Três Curtas-Metragens mostram a produção recente da O Som e a Fúria. E antes de mais, Sandro Aguilar, claro está...

Por mais díspares que possam parecer as sinopses, estas três curtas-metragens têm mais a ver umas com as outras do que um ciclo Western Spaghetti. As ligações entre os filmes de Sandro Aguilar, Miguel Fonseca e Mariana Gavião descobrem-se mais nas raízes do que na superfície, embora seja determinante o facto palpável de todos terem o carimbo da O Som e a Fúria. Esta produtora, formada em 1998, por Sandro Aguilar e João Figueiras, é a mais importante das últimas duas décadas em Portugal, correspondendo quase a uma nova 'era' no cinema português (a par do Curtas de Vila do Conde, do Onda Curta da RTP e da política ministerial iniciada por Carrilho de maior apoio às curtas metragens). O Som e a Fúria é responsável não só pela visibilidade nacional e internacional de uma dezena de realizadores (incluindo Miguel Gomes e João Nicolau), mas também enquanto fonte criadora de linguagens, mudando mesmo o paradigma do que se pode entender como curta-metragem. Com algum esforço, podemos vislumbrar as linhas de fundo em O Som e a Fúria, quase desde a sua génese: uma próxima do estilo de Sandro Aguilar, outra de Miguel Gomes. A primeira mais abstrata do que a segunda, mas sempre com vários pontos de interceção. Para tal, não foi preciso escrever uma carta de princípios ao estilo do Dogma, de Lars Von Trier & C.ª, a 'escola' ou 'corrente' apareceu de forma espontânea, fruto de referências e conceitos comuns e da rotina de trabalharem nos filmes uns dos outros, como técnicos ou atores. Nestas curtas a linha seguida está naturalmente mais próxima de Sandro Aguilar. Sinais de Serenidade por Coisas sem Sentido é um filme abstrato de alto primor estético. Em Sandro Aguilar nada é deixado ao acaso, nem há desvios de uma coerência interna peculiar. Há sempre uma intenção, firme e determinada, a liberdade do seu cinema não é nada casualista. Tudo se pauta por um enorme rigor que não serve uma narrativa pura, mas antes uma linguagem criada para o filme. A construção do ambiente por si só pode tornar Sinais de Serenidade um objeto de culto, sempre numa ligação próxima do cinema com as artes que o estruturam, particularmente a fotografia e a música. Em termos fotográficos há um experimentalismo controlado com resultados magníficos. Feito, por exemplo, através do justo ponto da contraluz, a hábil e precisa gestão de recursos pouco usais como a luz de lanternas, os reflexos nos vidros e nas paredes. A ideia que fica não é de alguém que está num experimentalismo estético, mas de um mestre que domina os efeitos secundários, assim como um grande guitarrista que sabe perfeitamente controlar os mais dissonantes efeitos de feedback. A música é outro ponto fulcral em toda a obra de Sandro Aguilar, até porque a montagem de som é um das suas mais prezadas qualificações técnicas. Aqui, a música, de certa forma, é a intriga. E o que dá ao filme sinais de inquietação por coisas sem importância. A música adensa o ambiente em direção ao medo. A um medo do desconhecido, de um monstro, de uma bactéria, do invisível, das coisas que não têm sentido. Miguel Fonseca apresenta aqui a sua terceira metragem, depois da ficção científica sem efeitos especiais de Alpha e do experimentalismo I Know You Can Hear Me. Em As Ondas encontra um meio caminho entre os universo de Sandro Aguilar e Miguel Gomes. Uma história de juventude, muitíssimo bem filmada, que confronta, em cenário paradisíaco, a vida e a morte. Solo é a promissora estreia de Mariana Gaivão. O filme tem uma história bastante linear, que pode ser descrita como um 127 Horas em versão curta-indie-portuguesa - uma bombeira que encarcerada num buraco. Mas ali o interesse está, mais uma vez, nas opções estéticas, de fotografia e montagem. Encontramos, mais uma vez, Sandro Aguilar, num certo arrojo em ambiente controlado, como, por exemplo, logo no início, os efeitos conseguidos com o fumo da queimada. Vale a pena ver estas três curtas-metragens de espírito aberto, enquanto manifestações conscientes de arte cinematográfica.