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The Master - Cheio de Som e de Fúria

Estado Crítico

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the master

Uma história de vadios, aventureiros, vagabundos, boémios, charlatães, fanáticos, crédulos, um líder carismático, pregador magnetizante e sua enternecida tribo - tudo no mesmo saco

Desta vez não haverá sangue- ou muito pouco. Mas se virmos para além da tela, ele até está lá, na Améria do pós-guerra, a recuperar dos traumas e dos horrores, cheia de ânsias optimistas no futuro, mas a carregar os corpos deixados para trás, os fantasmas do passado, que lhe ensarilham os passos e as consciências. Portanto há sangue, afinal, neste novo filme de Paul Thomas Anderson (O Mestre, Leão de Prata em Veneza), mas escondido, negro e pisado, desse de que se alimentam os parasitas. Sementes que precisam de apodrecer antes de desabrochar e que lançam as suas insidiosas raízes pela terra, a calcularem o terreno, antes de lançarem a primeira haste ao foco de luz. E a luz, para toda esta gente cheia de demónios que habita o filme, é Phillip Seymour Hoffman, cara de pugilista terno, adorável e solar personagem (mas com um lado oculto sinistro e lunar), magnetizante orador, que se dizia intelectual, filósofo, escritor, cientista, que fazia acreditar que era possível expelir as ameaças das más memórias e os espectros pretéritos, e prometia ao seus seguidores uma viagem, sem encalhar nos baixios da vulnerabilidade humana.

E o mestre encontra um pobre diabo (Joaquin Phoenix), o jovem problemático, veterano de guerra, alcoólico, socialmente inapto, emocionalmente perturbado, dado a explosões de ira, e a renúncias de afecto. Cobaia e protegido, todo o filme se joga nesta relação. Como num intenso e dilacerante estudo de personagens. Entre a fresta de luz e a planta rasteira num pedaço de vaso esconso que pode despontar ou permanecer para sempre apodrecida no seu próprio invólucro. Entre o mestre e o discípulo. Entre o criador e a selvagem criatura. Que ele quer moldar, domesticar, conformar como se fosse de barro o seu parco e confuso espírito. Aqui, nas relações entre os dois antipodais seres, o filme ganha dimensões épicas. Porque PTA (como é chamado em Hollywood) tem esta capacidade de transformar dois pares de olhares, uma conversa cheia de som e de fúria, quase sem nenhum significado, num momento de tensão, e de perturbação emocional com uma extensão que quase roça o sublime. Claro que os primeiros laivos de uma seita estão a ser alimentados. Ainda a germinar (é sociologicamente interessante ver como as seitas e as religiões brotam quando o terreno é fértil e as almas carentes). Claro que as referências subterrâneas à Cientologia estão lá, nas próprias características do líder, que se adivinham no seu real fundador L. Ron Hubbard, nas semelhanças dos seus métodos, nas alusões nunca explícitas à dianética, o poder da mente que pode aliviar o corpo e as existências das emoções indesejadas, dos medos irracionais, na forma como os dissidentes eram encarados, como os membros eram recrutados - por biliões de anos. Nas confluências improváveis da crença, no paralelo dos conceitos trazidos da ciência, outros da ficção científica, outros de entidades inter-galácticas, outros da psicanálise e da hipnoterapia (a altiva e insolente balbúrdia do "absurdismo")... A Cientologia tem um lobbie fortíssimo - e arrogantemente ameaçador- em Hollywood, daí nada ser óbvio no filme, apenas insinuado. Mas quando se lida com o irracional todos os alarmes se accionam e mesmo tendo o realizador dito e repetido em conferências de imprensa que não pretendeu retratar a seita, só as meras coincidências das semelhanças com a realidade serviram para produzir alarde. Cheio de som e de fúria - como sempre.

 Magistralmente filmado, musicado e interpretado, na realidade o filme baseia-se, quase todo ele, neste encontro improvável. De amor e de ódio. De ambiguidade, de tensão e violência, às vezes apenas evocada, outras concretizada. Entre duas criaturas opostas, uma serenizada, cheia de certezas, outra perdida, cheia de mínguas. Um comunicador brilhante, o outro um "balbuciador". Um tipo culto e sofisticado, brilhante, magnetizante e um ser animalizado, embrutecido, descontrolado, obcecado por sexo (há uma cena em que todas as mulheres lhe aparecem nuas).  Pode ser uma história de amor, até. O que os liga tanto, que faz a própria mulher do líder (Amy Adams, uma espécie de Lady Macbeth que se esforça por nunca perder o controlo do marido) sentir ciúmes? Não pode ser mero interesse científico, como um outro Dr Frankenstein... Aí reside todo o mistério e espessura da história. Se calhar revêem-se um no outro, nas cenas em que contracenam, que são superlativas (todos os três atores estão nomeados aos óscares e o mínimo que se pode dizer sobre as performances de Seymour e Phoenix é que são avassaladoras), embora muito cerebrais e atmosféricas. Aliás, é isto que PTA, o seu descomunal talento e seus actores conseguem neste filme - algo único, especial, e muito visceral: tornar o abstracto em emoção pura, muito sufocante, de uma estranha intimidade, agonizante mesmo. Há ali muita faísca entre os dois. Algo de tão intenso, quando os dois homens se olham, que talvez os intermedeie um espelho de duas faces. Domesticador e domesticado, entre a ternura e o repúdio, ambos encaram o que já antes foram e o que poderiam continuar a ser, quando se focam mutuamente. Como no jogo infantil de não piscar os olhos: Quem é o primeiro a perder o controlo?