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RUGAS Tempo dos mais velhos

Estado Crítico

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Não vá ao engano: nem todos os filmes de animação são para crianças e o seu filho/neto ainda tem tempo para se angustiar com problemas de adultos. Se quer ir com os miúdos ao cinema, mais vale ir ver o Flora Gomes. Rugas é um filme de animação para maiores de 70.

Não vá ao engano: nem todos os filmes de animação são para crianças e o seu filho/neto ainda tem tempo para se angustiar com problemas de adultos. Se quer ir com os miúdos ao cinema, mais vale ir ver o Flora Gomes. Rugas é um filme de animação para maiores de 70. Enfim, pelo menos assim crescidas são as personagens, o público-alvo pode ser quase qualquer um. Passa-se num lar de terceira idade, em Espanha, entre a demência e o abandono. Um Amour sem amor, disfarçado pela textura dos desenhos. Ou uma feroz crítica à sociedade bruta, dedicada aos velhos de hoje e de amanhã. O filme talvez prossiga o sucesso de obras como Persépolis, de Majane Satrapi, que, com sucesso, conseguiu levar animações fora do universo infantojuvenil e das grandes produtoras americanas a um público lato. No caso, é também um exemplo da extraordinária vitalidade da animação espanhola. Os portugueses acumulam prémios nas curtas-metragens, revelando o talento incrível de realizadores como José Miguel Ribeiro, Regina Pessoa ou Pedro Serrazina. Mas a produção de longas-metragens é nula (ou como se fosse), revelando um atraso substancial do país neste domínio. Quem dera a Portugal ter um terço da produção de longas animadas da Galiza. Rugas, mais um belo exemplo, parte de uma banda desenhada, de Paco Rosa, sobre o qual João Ramalho Santos escreveu: "Um desenho clássico subsidiário da 'linha clara', um livro extremamente bem feito, que trata um tema complexo com respeito e simplicidade" (no JL 1111, de 1 de maio de 2013). O mesmo se aplica ao filme. Enquanto objeto 'artístico' não é nada de particularmente estimulante, seguindo uma linha pouco imaginativa que faz da animação uma banda desenhada em movimento: não há uma exploração eficaz do potencial que faz com que a animação transcenda a imagem real em vez de meramente a substituir (a história poderia ser filmada cena por cena com atores); e o filme não é rico em texturas, nem em técnicas, além do próprio desenho. Enquanto objeto artístico, já que estamos a falar da Galiza, preferimos, sem qualquer dúvida, De Profundis, de Miguelanxo Prado. O filme vale pelo seu contexto realista, num modo de representação que nos sugere fantasia - não só por ser animação, mas sobretudo por partir de uma BD em desenho clássico. Quase como colocar a letra de um fado na música dos Bee Gees. Mas há essa simplicidade de trato, com um humor que não se perde, conseguido em parte devido à deliberada confusão entre o lar e um estabelecimento prisional. Torna-se, no seu mais profundo conteúdo, uma reflexão sobre a forma como a sociedade lida com as pessoas mais velhas, tratando, ao mesmo tempo, de temas tão delicados como o Alzheimer. No meio de um mundo cru, sobra uma imagem final de carinho e camaradagem. Rugas, de Ignacio Ferreras, a partir de BD de Paco Roca, 80 min