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Ruby Sparks: A namorada dele é uma personagem

Estado Crítico

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O efeito Pigmalião mais uma vez - numacomédia romântica, uns pontos acima da média

O tema "boy meets girl" continua ser umaideia genial para um filme, como na noite em que Hitchcock o sonhou. A questãoé como fazer dois seres encontrarem-se ou desencontrarem-se. A opção "criadorapaixonado pela criatura" não é de todo original, mas ainda assim o filme,realizado pelos autores de Little Miss Sunshine, protagonizado e escrito porZoe Kazan, neta de Elia Kazan, consegue uma certa frescura. Começa por ser umacomédia de situação: um escritor bloqueado - o opaco Paul Dano - está muitosolitário, usa máquina de escrever, não é um "dating type", e sofre do síndromado segundo livro; arranjou um cão a quem chamou Scottie, por causa de ScottFitzerald, a conselho do psiquiatra, mas sente-se embaraçado porque o cãocontinua a urinar agachado como as cadelas e baba-se. É então que das folhassoltas que se despegam da máquina sai a tal personagem feminina que ganha vida-porque sim. Estamos no território da meta-ficção e ela torna-se livre do seucriador, a não ser que ele continue a escrever e a moldar-lhe a disposição, apô-la a falar francês, mais eufórica, mais carente... Ela é a rapariga dos seussonhos - literalmente. E o mais engraçado é que não é nenhuma Julia Roberts,apenas uma rapariga banal, que usa sapatos vermelhos com collants roxos. Elenão está a escrever sobre ela, ele "está a escrevê-la". "E casar com umarapariga que criaste é alguma forma de incesto?", pergunta o irmão. A comédiade situação torna-se numa comédia de personagens, aparecem uns sogrosexcêntricos (Antonio Banderas e Anette Bening), mas nesta fase, o filme já saiudo túnel do mistério, não descarrila, mas está a chegar ao apeadeiro, a uma velocidademorna, sem nenhum twist, nem mudança de agulhas, que o faça retomar algum rumonovo. É pena...