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POST TENEBRAS LUX O túnel ao fundo da luz

Estado Crítico

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Em Post Tenebras Lux, a luz depois das trevas, não há uma ressurreição à Carl Dreyer, como em Luz Silenciosa, mas mantém uma intenção metafísica, que por vezes lembra Apichatpong Weerasethakul, e uma conotação religiosa ou espiritual. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Para ver com olhos de sentir.

 

 

Um dia alguém escreverá uma tese de doutoramento sobre Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas. Há filmes assim, ricos, que vão para além do domínio da compreensão, e qualquer análise arrisca-se a parecer superficial ou arrojada. Mesmo para quem se dá ao trabalho de desmontar, peça por peça, na tentativa de descobrir o seu funcionamento interno, a complexa lógica do todo. Pode colocar-se o volante na bagageira e o pneu suplente no motor. Sobrarão sempre peças e duvido que se chegue a alguma conclusão. Um filme de resto não está particularmente desordenado, funciona em harmonia. Exibe uma fluidez contemplativa rara, apesar de juntar elementos aparentemente dissonantes, como um Natal familiar, uma orgia numa sauna na Bélgica, um jogo de rugby em Inglaterra ou um diabo digital. Não tem de criar irritação a irracionalidade dos elementos. A aceção "não percebi nada, mas gostei imenso", é preferível à de "não percebi, por isso não gostei". E não há qualquer pretensiosismo nisto. Até porque Reygadas não me parece o tipo de realizador que ande a brincar aos códigos secretos de cineasta-escuteiro, nem que haja uma pedra de roseta que descodifique todos os elementos. O filme flui pelo seu deslumbre estético e, na fronteira entre o percetível (a história da família e a descrição do ambiente) e o alegórico ou onírico, ficam sobretudo impressões e emoções. Tal como em David Lynch, o simbólico e metafórico atravessam-se de forma quase indistinta na realidade. O sonho confunde-se com o real, o palpável com o fantasmagórico, tal como, de resto, a vida e a morte equivalem-se no imaginário mexicano. É de tal forma assim, que, com um experimentalismo formal, Reygadas deixa uma moldura de distorção no enquadramento das imagens, como um espelho de cantos torcidos. Essa moldura serve precisamente para marcar a presença do fantasmagórico nos planos reais, para exibir a subjetividade do real. No olhar de Reygadas não é tão clara a tentativa da formação de uma tese explicadora do universo, como fez, em estilo megalómano e pretensioso, Terrence Mallick, em A Árvore da Vida. Muito menos embevecimento new age do sobrevalorizado Bestas do Sul Selvagem, de Benh Zeitlin. Há uma partida do microcosmos para o macrocosmos, uma busca do sentido da vida, mas feito de forma mais prosaica. As tais cenas dispersas, oníricas, são mais ilustrativas que explicativas. E o filme lida acima de tudo com emoções. O próprio Carlos Reygadas diz não gostar muito deste jogo interpretativo. Contudo deixa algumas pistas, através de referências exteriores ao próprio filme. Uma citação de Tolstoi, de Guerra e Paz, em que Pierre diz que o prazer de conquistar poder e dinheiro é equivalente ao de deixar tudo isso. E uma música de Neil Young, cantada por Natália, algo a despropósito, It's a Deram, do álbum Prairie Love, gravado precisamente quando Neil Young esteve à beira da morte, depois de um aneurisma cerebral. Há uma colagem perfeita com a personagem, mas também com a ideia vulgar de que a vida é um sonho... ou que um sonho é uma outra vida. Carlos Reygadas venceu, com toda a justiça, a palma de ouro para o melhor realizador em Cannes. Também merecia todos os prémios pela fotografia. É excecional a forma como filma a natureza, com a câmara rasteira numa busca de assimilação do meio. Mas também por aí o filme não é assim tão linear e seria estranha a sua passagem num festival ecológico, porque essa harmonia entre o homem e o meio camponês (tão bonita logo na primeira cena), está constantemente a ser posta em causa, como mais à frente na cena dos cães ou no corte das árvores. O mexicano gosta de trabalhar com não atores. Já em Luz Silenciosa, visitou e usou a comunidade menonita no México. Aqui os atores (magníficas as duas crianças) são os seus próprios filhos. E a atriz e personagem que faz de esposa tem o mesmo nome da sua mulher. São mais elementos para baralhar o espetador, na busca de pequenos códigoz ou sinais, mas, apesar disso, não se vislumbram grandes potencialidades autobiográficas para além do lugar-comum de que toda a escrita é autobiográfica. Em Post Tenebras Lux, a luz depois das trevas, não há uma ressurreição à Carl Dreyer, como em Luz Silenciosa, mas mantém uma intenção metafísica, que por vezes lembra Apichatpong Weerasethakul, e uma conotação religiosa ou espiritual. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Para ver com olhos de sentir. Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas, com Adolfo Jiménez Castro, Nathalia Acevedo, Rut e Eleazar Reygadas, 120 min