Polícia sem lei, de Herzog: Tenentes, cobras e lagartos
18.05.2010 às 16h00
Quando Werner Herzog se encontra com Abel Ferrara sobre o que conversam?
Dez anos depois de Werner Herzog ter filmado Fitzcarraldo, na Floresta Amzónica, com uma interpretação visceral de Klaus Kinski, Abel Ferrara filmou um thriller chamado Polícia sem Lei, em que Harvey Keitel fazia de polícia corrupto. Quase 40 anos depois de Werner Herzog ter filmado uma das suas obras primas, Aguirre, o Aventureiro, com Klaus Kinski, Werner Herzog realizou um filme, chamado Polícia sem Lei, em que Nicolas Cage faz de polícia corrupto. Onde é que me perdi? Será que é o mesmo Herzog? Será que é o mesmo filme? E o que é que Klaus Kinski tem a ver com a história?
Vamos começar de novo, para não me baralhar em demasia. Chegou às salas portuguesas um filme chamado Polícia sem Lei, em cujo cartaz Nicholas Cage empunha uma arma sugerindo, e bem, o género thriller. Olhando para aquilo sem saber ninguém imagina que se trata do último filme de Werner Herzog. O realizador alemão, autor de obras de génio, resolveu fazer um exercício de género. Não é um re-make de Polícia Sem Lei, um dos muitos filmes de culto série B de Abel Ferrara, mas recupera a personagem de Harvey Keitel e a história tem muitas parecenças. Uma diferença fundamental é que desloca o cenário da violenta Nova Iorque dos anos 90, para a Nova Orleães pós-Katrina. Aliás, a primeira cena mostra um recluso prestes a afundar-se numa prisão emergida de água.
O filme de Herzog permite a Nioholas Cage um dos seus melhores papéis dos últimos anos, como ser rastejante, viscoso, decadente, de um submundo podre, em que ele é a maçã e o bicho. Vale a pena debruçar-nos sobre os traços desta personagem, comuns a Herzog e a Ferrara. Junta todos os piores vícios da cidade: o jogo, a droga e a luxúria. E, como diz um spot promocional, "o único criminoso que não consegue apanhar é ele próprio".
Que não se confunda esta personagem com o Dirty Harry, de Clint Eastwood. Harry é um duro, um tigre atiçado disposto a tudo para capturar a sua presa. Infringe a lei com o nobre objectivo de fazer justiça. Este tenente é um réptil, sem escrúpulos, que age em interesse próprio, ainda que, por caminhos tortuosos, consiga resolver os seus casos. É um policial em que os maus estão de ambos os lados.
Onde mora Herzog? Nas subtilezas, como aquela iguana que está sentada na cadeira do detective. Afinal, há pontos em comuns, no Louisiana, tal como na Amazónia, os répteis abundam.