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Oscars 2013: Era uma vez na América...

Estado Crítico

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E o Oscar vai para... A emoção para a noite de dia 24 é proporcional à incerteza, que este ano é invulgarmente grande, não pela qualidade extrema das obras a concurso, mas antes por nenhum filme parece ser suficientemente grande para os habituais critérios de Hollywood. Aliás, a 'colheita' de 2012, passo a expressão, é sensaborona, à exceção de Amor, de Michael Haneke, e Django Libertado, de Quentin Tarantino, que, sejamos francos, não têm grandes hipóteses de ganhar - é demasiado cinema para o gosto pequeno da Academia, e só lá estão porque a Academia quer convencer-nos da sua abertura de espírito, dos seus dotes ecléticos. Desde que as nomeações para melhor filme se alargaram para nove que os 'outsiders' ultrapassaram os favoritos e são mais os filmes que, sabemos à partida, não poderão ganhar. Isto embora o caso Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow, o filme que contra todas as expectativas derrotou Avatar (e assim, por uma vez, a Academia escolheu o cinema em vez do espetáculo), nos impeça de ser demasiado assertivos nos palpites.

E o Oscar vai para... A emoção para a noite de dia 24 é proporcional à incerteza, que este ano é invulgarmente grande, não pela qualidade extrema das obras a concurso, mas antes por nenhum filme parece ser suficientemente grande para os habituais critérios de Hollywood. Aliás, a 'colheita' de 2012, passo a expressão, é sensaborona, à exceção de Amor, de Michael Haneke, e Django Libertado, de Quentin Tarantino, que, sejamos francos, não têm grandes hipóteses de ganhar - é demasiado cinema para o gosto pequeno da Academia, e só lá estão porque a Academia quer convencer-nos da sua abertura de espírito, dos seus dotes ecléticos. Desde que as nomeações para melhor filme se alargaram para nove que os 'outsiders' ultrapassaram os favoritos e são mais os filmes que, sabemos à partida, não poderão ganhar. Isto embora o caso Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow, o filme que contra todas as expectativas derrotou Avatar (e assim, por uma vez, a Academia escolheu o cinema em vez do espetáculo), nos impeça de ser demasiado assertivos nos palpites.

Dentro das incertezas, há lógicas que imperam. Seria altamente estranho uma obra receber o prémio para o melhor filme sem sequer estar nomeada pela realização. Pelo menos, na maneira de pensar europeia, em que o realizador é o deus do filme, não existe um bom filme com uma realização medíocre. Estariam assim excluídos do prémio principal quatro dos nove filmes. O que pode causar alguma estranheza, porque além de Django Libertado e 00:30, A Hora Negra esta lógica poria de parte Argo e Os Miseráveis que são precisamente aqueles que têm dado nas vistas nos 'barómetros' Golden Globes e BAFTA. Se assim for, a disputa pelo Oscar será entre Lincoln, de Steven Spielberg, e A Vida de Pi, de Ang Lee. Bestas do Sul Selvagem, de Benh Zeitlin, e Guia para um Final Feliz, de David O. Russell, apareceriam numa segunda linha. Os grandes ausentes são O Mentor, de Paul Thomas Anderson, e Moonrise Kingdom, de Wes Anderson.





A Vida de Pi

Por algum misterioso acaso da natureza, um escorpião e um cavalo caminhavam lado a lado, fitando-se com respeito, temendo um o outro. Chegaram a um rio e não sabiam como atravessá-lo. O cavalo disse ao escorpião: "Se prometeres não me picar, eu levo-te no meu dorso". O escorpião anuiu. Só que, a meio da travessia, não resistiu e ferrou o cavalo com o seu veneno. "O que foste fazer?!", exclamou, assustado, o cavalo, "Agora vamos os dois afogar-nos". "Eu sei, respondeu o escorpião, mas não pude evitá-lo, está na minha natureza". Esta parábola, cujo autor desconheço, encaixa-se n'A Vida de Pi. A natureza funciona, pois, com grande... naturalidade. Mas, como qualquer fábula ou parábola, o filme não pode ser analisado no estreito ponto de vista da verosimilhança - o tigre em toda e qualquer circunstância devoraria o rapaz, pois é algo que está na sua natureza. Na perspetiva das fábulas, em que tantas vezes os animais falam e antropomorfizam-se, tudo é aceitável. Até porque esse 'buraco' é coberto pelo próprio filme, que deixa margem para crermos no episódio como apenas uma história. Enfim, aqui pouco interessa a verdade. Antes um universo mágico que está inserido num contexto budista, que faz de A Vida de Pi o segundo filme new age da cerimónia, ao lado de Bestas do Sul Selvagem. Depois de Quem quer ser Milionário, de Danny Boyle, Hollywood volta a mergulhar no universo indiano, sem piscar o olho a Bollywood. Mas, na verdade, o filme de Ang Lee, ocupa o lugar geralmente destinado às animações (o ano passado estava nomeado Toy Story 3). Mais do que infantil, o filme é ingénuo e é essa falsa ingenuidade habilmente construída que o torna particularmente irritante. Não é uma grande obra, mas é mostra do ecletismo de Ang Lee, intermitente nos resultados, capaz de alternar entre estilos, que tão depressa faz um melodrama à inglesa, como um western ou filme de artes marciais, sem nunca ter o génio de um Kubrick, nem sequer de um Spielberg.



Lincoln

Se há um favorito, é Lincoln. Mas não deixaria de ser irónico se a academia premiasse Steven Spielberg por um dos seus piores filmes. Ou um dos mais assim assim. O filme levantou alguns anticorpos por, de certa forma, desmistificar o Presidente Lincoln, um dos grandes heróis americanos (já tão bem retratado em dois filmes de John Ford), e sobretudo a 13.ª  Emenda, em que se aboliu a escravatura, transformando a América, grosso modo, na terra de oportunidades que hoje conhecemos. Daniel Day Lewis, constrangido por uma 'máscara', está longe dos melhores momentos da sua brilhante carreira. É preferível Tommy Lee Jones, numa interpretação extraordinária. Calhar-lhe-ia bem o Oscar. Lincoln faz parte do quarteto de filmes sobre a História da América, que vai inevitavelmente ser pano de fundo da cerimónia.



Argo

Foi o grande vencedor dos Globos de Ouro e dos BAFTA. E seria o principal candidato aos Oscars não se desse o caso da Academia ter excluído Ben Affleck dos nomeados para melhor realizador. O filme, verdade seja dita, não merece assim tantos prémios. Parte de uma boa história, baseada em factos reais, da operação que evacuou do Irão seis diplomatas americanos, que se haviam refugiado na residência do embaixador do Canadá, após o ataque do regime de Ayatollah Khomeini à embaixada americana. Montou-se uma operação com contornos surrealistas, para criar um disfarce que permitisse a saída do grupo do país. Para isso contaram com a cumplicidade da indústria de cinema (o ponto a favor, Hollywood gosta de se ver ao espelho). Argo consegue uma boa caracterização de época, mas acaba por enrodilhar a história, não tirando proveito do seu potencial de ficção. É um filme mediano, de um realizador pouco experiente, ao qual a academia não deu o benefício da dúvida.



Os Miseráveis

Os musicais têm recuperado estatuto em Hollywood, mas através de uma segunda via, que não corresponde a clássicos como Serenata à Chuva ou Música no Coração. Filia-se antes nos musicais da Broadway, como Chicago ou Os Produtores (ou, se quisermos recuar, West Side Story). Esta adaptação do romance de Vítor Hugo corresponde ainda a um terceiro conceito, colado a uma ideia de ópera pop, em que se descura a coreografia e todos os diálogos são cantados. Ao contrário do que estamos habituados a ver no género, aqui a ação não é interrompida para o número musical, o número musical é a própria ação. Nada disto justifica ou esconde os muitos defeitos que o filme tem. Um descuido estético, com um abuso de close-ups, a ausência de coreografias (que desaponta os apreciadores do género) e uma certa monotonia melódica. O que nos leva à pergunta: porque insistem em cantar se isso tanto nos aborrece?



Amor

Como prova do seu ecletismo, nos últimos anos a Academia tem mantido o bom hábito de nomear um filme europeu, de língua não inglesa, para o Oscar de melhor filme. É só para americano ver. Não haverá um segundo Artista e Amor, de longe o melhor filme em competição, não receberá a principal estatueta. Mais uma obra soberba de Michael Haneke que, desta feita, resolveu afligir-nos com uma dose brutal de realidade. Um filme cruel como a vida, que não deixa ninguém indiferente. Emmanuelle Riva é uma das favoritas para o Oscar, além de, muito provavelmente, não escapar a Amor o galardão para o melhor filme estrangeiro.



00:30, a Hora Negra

O cinema revê a História ou criam uma para seu proveito. 00:30, a Hora Negra é quase a História do presente, mostra o que todos queriam ver, mas quase ninguém viu: a operação que levou à morte de Bin Laden, o maior vilão dos nossos tempos. Conta toda uma trama de bastidores, entre pistas certas e pistas falsas. Cria polémica, causa desconforto, mostra cenas de tortura, de agentes sem escrúpulos 'ao serviço do bem'. Jura a pés juntos que foi mesmo assim, e coloca em polvorosa as autoridades americanas. É filmado de forma seca e fria, como Bigelow nos tem habituado, num estilo próximo dos filmes de ação e espionagem, mas acentuando um certo realismo. De resto, Bigelow limpa a personagem de pormenores de passado, o que é bastante atípico para o género, causa grande estranheza, mas acaba por se transformar num traço distintivo. Kathryn Bigelow, a primeira realizadora a ganhar um Oscar, não poderá repetir o feito, porque não está nomeada para a categoria. Mas vendo 00:30 fica a ideia de que, tal como Maya, Biggelow é uma mulher num mundo de homens.



Django Libertado

Ainda não é desta que a Academia vai reparar a injustiça de 1994, em que deu o Oscar a Forrest Gump, em detrimento de Pulp Fiction, o filme mais marcante da década. Em Django Libertado, no meio de alguma polémica, suscitada sobretudo por Spike Lee, Tarantino, ao seu melhor estilo, cria um herói ou anti-herói, em vésperas da Guerra Civil Americana. Em muitos aspetos, o filme aproxima-se de Cães Danados, mas também se encontra a vontade de reescrever a história de Sacanas sem Lei. Mais do que Jamie Foxx, há um grande papel de Christoph Waltz, que não lhe deve valer um novo Oscar. Mas, inevitavelmente, Tarantino é um grande candidato à estatueta para o melhor argumento original.



Guia para um Final Feliz

E eis quando senão aparece... uma comédia romântica. O género nunca foi muito querido pelos Oscars, que não leva a sério aquilo que nos faz rir. Mas a única justificação para Guia para um Final Feliz ter desbravado caminhos até chegar à nomeação para o melhor (e melhor realizador), não é a qualidade da obra por si só, será antes o estatuto que David O. Russell conquistou depois de The Fighter, obra que esteve nomeada para os Oscars e de que muito se falou (era de resto superior a esta). Guia para um Final feliz é uma comédia romântica independente, sobretudo em termos estéticos, que se dá ao luxo de ter Robert De Niro num papel secundário. Há um bom movimento de câmara, sobretudo no início, uma história leve e bem contada, uma certa ideia de que de louco todos temos um pouco, a conjugação explosiva de baseball com danças de salão. Mas também algumas falhas a nível de argumento que fazem com que não seja uma obra brilhante dentro do género.



Bestas do Sul Selvagem

Nem todo o outsider é bom, nem todo o mainstream é mau. O grande outsider dos Oscars 2013 é o pior filme de todos. Misterioso apetite new age terá levado a Academia a nomear um filme de um realizador estreante. É tudo tão básico, pequeno, cheio de filosofia barata, em que a manipulação da câmara mais do que um estilo parece um tique indie, essencialmente gratuito. Que filma a natureza, num pântano do Luisiana, sem sequer conseguir imagens magníficas, e conta uma história descabelada que quase prova o oposto daquilo que se predispõe a provar. Bestas do Sul Selvagem é o embuste do ano. E até custa a crer como é que a academia nomeou isto, deixando de parte filmes como O Mentor ou Moonrise Kingdom.