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Operação Outono JUSTIÇA SEJA FEITA

Estado Crítico

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Neste caso, o cinema foi mais longe do que a justiça, e fez justiça onde a justiça não chegou ou não foi competente. Talvez seja um fraco consolo, mas pelo menos que no cinema a História fique bem contada.



Portugal não sabe tratar bem dos seus heróis. Talvez por falta de recursos, são raros os filmes de época, que retratam episódios ou personagens da nossa História que é invulgarmente rica, atendendo ao tamanho e geografia do próprio país. Nunca se levou D. Afonso Henriques, Vasco da Gama, Fernão Mendes Pinto, D. Pedro IV ou o Marquês de Pombal ao cinema. E mesmo da História mais recente são raras as personagens tratadas e, na maioria dos casos, em filmes de fraca qualidade. Para trás, esquecidos, ficam Camões (1946, Leitão de Barros, o tal que fazia arder os olhos a Salazar), A Severa (1930, Leitão de Barros, o primeiro filme sonoro português) ou José do Telhado (1945, Armando Miranda). E esse é o primeiro e inegável mérito de Operação Outono, de Bruno de Almeida (que também se aplica a O Cônsul de Bruxelas, de Francisco Manso, sobre Aristides Sousa Mendes), oferecer ao cinema uma personagem fundamental e heróica da História de Portugal do século XX, o General Humberto Delgado.

Há filmes cuja pertinência ultrapassa a questão cinéfila, pois o objeto retratado impõe-se além das fronteiras da arte (tal é óbvio, por outros motivos, em Isto Não é um Filme, do iraniano Jafar Panahi). Também é o caso de Operação Outono que, sem a megalomania bacoca de Oliver Stone, ganha o estatuto de filme-denúncia, contando a história da operação salazarista que resultou na morte do general Humberto Delgado, seu opositor mais feroz, candidato à Presidência da República, que preparava um golpe militar. É mesmo um filme que precisava de ser feito (ainda há tantos outros por fazer). Neste caso, o cinema foi mais longe do que a justiça, e fez justiça onde a justiça não chegou ou não foi competente. Talvez seja um fraco consolo, mas pelo menos que no cinema a História fique bem contada.

Não se trata de um Watergate português, embora reste sempre a sensação de que deste infeliz episódio muito ficará por contar. O filme, no entanto, com um rigor exemplar, serve, se não de documento histórico, pelo menos para não apagar a memória (cada vez é mais necessário lembrar as barbaridades do regime salazarista). Realizá-lo é também um ato cívico. Mas, à parte de tudo isso, é uma grande trama cinematográfica, empolgante, com ingredientes de ação e mistério, que até a Hollywood interessariam (nesse ponto de vista bem mais fascinante que Watergate).

Bruno de Almeida faz um filme bem arrumado com uma preocupação extrema de fidelidade às fontes (talvez por se ter apercebido da delicadeza do assunto), que não lhe permitiu maiores voos em termos cinematográficos. Claro que, desta forma, também não correu o risco de se estampar, como aconteceu com Maria de Medeiros e o seu Capitães de Abril (2000).

Faz do tribunal, nos anos 80, em que Silva Pais e outros elementos da Pide são julgados, o ponto de convergência, contando a 'história' em analepses. O ritmo e o recurso a legendas que indicam os locais fazem lembrar o filme que a SIC fez para os 25 anos do 25 de Abril, em que recriava os passos da revolução nos minutos exatos (um excelente trabalho televisivo, diga-se). Demora algum tempo a libertar-se desse formato, mas mais tarde consegue bons momentos de cinema, como, por exemplo, a descoberta dos corpos pelos miúdos ou, melhor ainda, o 25 de Abril e a entrada na sede da Pide, onde faz uma brilhante colagem entre imagens de arquivo e cenas filmadas.

Ganha pontos em relação às recriações históricas recentes, como Assalto ao Santa Maria (2010, Francisco Manso), em parte por estruturar melhor a narrativa, em parte por uma maior capacidade dirigir atores. O recursos ao ator americano John Ventimiglia, no papel do general obriga à dobragem, o que provoca alguns tropeções do espetador, sobretudo no início do filme. O filme está cheio de bons atores com interpretações de bom nível. Todos eles. Ventimiglia, Diogo Dória, Nuno Lopes, Ana Padrão... E até Camané que é extraordinariamente feliz no pequeno papel que tem.

Tal como feliz acaba por se revelar a estrutura não linear, mas que em grosso modo se divide em duas partes: antes e depois do crime. Operação Outono é um filme de serviço público ou pelo menos de serviço cívico. Uma investida importante do Autor de A Arte de Amália (provavelmente o filme português mais visto em todo o mundo). Num pais normal Operação Outono seria um sucesso de bilheteira.



Operação Outono de Bruno de Almeida, com John Ventimiglia, Nuno Lopes, Marcelo Urgeghe, Carlos Santos, Pedro Efe, Ana Padrão, Camané, 90 min