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O Passado: O Que Fica Quando Tudo Acaba

Estado Crítico

le passé

Uma quantidade de tralha emocional, que é a nossa, a das nossas pequenas vidas quotidianas, os nossos infinitos particulares, tão tragicamente triviais- num dos melhores filmes do ano

Há uma espécie de história filosófica que se conta a propósito dos optimistas e dos pessimistas: um pessimista é o que acha que é o fim, que batemos no fundo, que não há nada que nos possa salvar. O optimista é o que diz não, isto ainda pode ser pior, mais e mais e mais... Neste, e apenas neste, sentido, O Passado é um filme muito optimista. Ainda bem que estreia antes de 2014, para o podermos colocar logo à cabeça nas listagens dos melhores do ano: brilhantemente escrito, magnificamente realizado, cheio de boas ideias plásticas até, mas que nunca nos desviam do fluxo da história que vai sempre a subir a subir (no tal particular sentido de optimismo), e nós a sentir-mos que o sol está quente de mais, e as asas de Ícaro vão acabar por derreter... E não é por acaso que convocamos para aqui a mitologia grega. Este filme está impregnado de tragédia, logo desde o início: Édipo, no sentido de Sófocles, e não de Freud, parece espreitar-nos, o tempo todo. Há enigmas, mas esses resolvem-se, como fez o desgraçado herói junto à esfinge. O problema são os mistérios: essas nebulosas insolúveis. Tal como Édipo começa in medias res. Ou seja, quando o protagonista Ahmad (um iraniano) chega a Paris, para tratar do divórcio com a sua ex-companheira, já a peste ou seja o caos está instalado nas famílias daquela gente. E depois o caos adensa-se, tudo sem emaranha, complica e arrepela. Primeiro, é só o desconforto. Dois homens(o ex e o actual) e uma só mulher a partilharem a mesma casa, depois há miúdos problemáticos, depois uma dolescente mais problemática ainda, e em permanência, pequenos indícios de inquietação, muitos: a tralha acumulada na parte de trás do carro, a vertigem do combóio que abala as estruturas, um cano entupido, uns pulsos misteriosamente doloridos e enfaixados, uma casa em obras também enfaixada e descomposta, uma lata de tinta que se entorna deixando as pequenas pegadas do infrator, os estranhos arranhões na barriga de uma mulher em coma, a alergia nos olhos provocados pelos químicos da tinta,  a chuva, tinha de estar a chover... A inquietação cresce, mais desenvolvimentos, mais pormenores: um menino que quase se perde num estação de metro, uma discussão da adolescente em pleno viaduto, uma mãe grávida que fuma e se enerva. O realizador iraniano, que já tinha assinado o espantoso Separação, continua a levantar o que de mais inquietante pode trazer as conjugalidades e as famílias, e consegue-nos manter sempre no fio instável do desconforto, num equilíbrio entre a humilhação, a aflição e o alívio, com um nó na garganta, no corpo todo, que não se desata nunca- e ainda se torna mais górdio. E a personagem do forasteiro que chega àquela família, vindo de longe, está sempre um passo à frente das restantes personagens, sabe sempre um bocadinho mais do que elas. É uma espécie de Tirésias, o cego que vê e avisa. Mas o passado é um novelo que vai acumulando mal-entendidos e equívocos e, de uma forma sempre elegante, jogando com uma espécie de fora de campo do som e das palavras, quando as conversas acontecem do outro lado dos vidros,  Farhadi vai-nos alertando para o que ficou por dizer. E como numa verdadeira tragédia grega não há redenção possível. Seja como for, o odor é a última memória a ir-se....       

O Passado

De Asghar Farhadi Le Passé, com Ali Mosaffa, Bérènice Bejo, Pauline Burlet, Tahar Rahim Drama. 130 min. França. 2013