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O mordomo: a grandeza do pessoal menor

Estado Crítico

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o mordomo

Depois do brilhante Django, de Tarantino, ou do mais turvo Lincoln, de Spielberg, ou até do histriónico As Serviçais, de Taylor, os EUA continuam a revolver o seu passado sórdido (e recente): o racismo. O Mordomo, a história vagamente verídica de um criado negro da Casa Branca que segurou a porta a sete presidentes, por mais de três décadas, revela-se um filme de estilo tão "à Hollywood" que é bem capaz de fazer um brilharete nos Oscars. E, afinal, o que nos traz de mais provocador? Pôr Jane Fonda a fazer de Nancy Reagan...





A história de um mordomo negro da Casa Branca. Ou a história do filme que reunia todas as condições para ser razoável, e que, no fim de contas, se torna tão menor como o pessoal que muitos pretendiam menorizar. Começamos pela segunda história, por razões absolutamente aleatórias, calhou, é assim.

Já em Precious (2009), o realizador Lee Daniels provava não querer nada com subtilezas, tenuidades e delicadezas. No filme da miúda negra XXL, do Harlem nos anos 80, maltratada, espancada, engravidada pelo pai, abusada pela mãe, e ainda analfabeta, com obesidade mórbida, excluída e insultada pelos colegas, agredida com latas na cabeça enquanto estava a dar à luz, progenitora de um bebé com trissomia 21, e ainda não acabou... portadora de HIV, o realizador tentava arrancar a fórceps a comiseração, quando tangia as cordas do fado da desgraçadinha.

Agora, em O Mordomo, também não resiste ao fator acumulação e coloca todos os maus artifícios da narrativa cinematográfica contra o próprio filme (como o chamado fogo amigo) que lhe vai estropiando membros, e atingindo órgãos vitais, deixando-o a arrastar-se até ao final, já em bastante mau estado, exausto, mas ainda vivo. Ora lhe atira com uma voz off desnecessária e embaraçosamente denotativa (do género "é para toda a gente perceber a história"), ou lhe lança montagens gratuitas, ou enxerta, de forma forçada, episódios da vida pessoal em momentos históricos reais (um dos grandes riscos dos biopics...), ou nos lança uma série de momentos melodramáticos acentuados pela banda sonora de Rodrigo Leão, ou desperdiça boas cenas e insiste nas irrelevantes, ou deixa as personagens incipientes, como se ainda estivessem em esboço, e não resiste ao mau gosto. E milagre! ainda assim, o filme salva-se: a story line tem um grande potencial (foi inspirada numa reportagem do jornal The Washington Post sobre o tal mordomo real, o já falecido Eugene Allen) e Forest Whitaker (oscarizado por O Último Rei da Escócia) é um ator multirresistente.

O 'servente' servido

Quanto à milionária Oprah Winfrey (que já tinha produzido o anterior filme de Lee Daniels), a mais bem paga e influente apresentadora televisiva, muito empenhada na campanha de Obama, regressa aos filmes, depois de 1998 (Beloved), e de ter sido nomeada para um Oscar para melhor atriz secundária em A Cor Púrpura, de Spielberg (1985).

Curiosamente, ou não, o seu papel o de mulher do mordomo Cecil Gaines parece rivalizar com o protagonizado pelo próprio Whitaker, o que desequilibra o guião.

Não lhe tendo sido encontrada qualquer espessura como personagem, a sua presença constante torna-se bizarra. Parece que o argumento lhe criou um espaço gigantesco que ela não consegue preencher, apesar de toda a sua exuberância, apesar do seu (não vale a pena escamotear, só por ser poderosa e rica) talento interpretativo.

O mordomo, sim, é a figura que assiste, na primeira fila, às grandes mudanças sociais do século, desde a semiescravatura dos campos de algodão, no Sul, até ao Yes We Can, de Obama. Ela fica para ali, a boiar no seu próprio vazio, como um pleonasmo. Farta-se de fazer salada de batata, pintar os lábios antes de dormir e de costurar e daí? Queixa-se por o mordomo tomar mais conta da outra casa a Branca do que da sua, mas não é, convenhamos, um forte argumento o espeto de pau em casa de ferreiro... Embebeda-se e trai o marido com um vizinho a quem falta um dente da frente mas também nada por aí além... Condói-se pelos filhos, porque um anda nas brigadas pacifistas de Martin Luther King (que prefacia o filme) e, depois, nas Panteras Negras, e passa o tempo todo preso e a ser linchado por fanáticos e racistas, e o mais novo vai para o Vietname mas também não parece demasiado sofredora.

Deslumbra-se quando entra, pela primeira vez, na Casa Branca e esta é talvez a sua única cena imprescindível no filme. Reagan, que não retira o seu apoio ao sinistro regime de apartheid da África do Sul, convida o mordomo de longa data e sua esposa para um cocktail, com intenção de os exibir. E o "servente" torna-se "servido" embora sinta que se estão a "servir" dele.

As luvas brancas levam nelas um poder negro.

É mais ou menos esta a teoria do filme, numa tentativa de dar grandeza ao mordomo, sempre servil, de bandeja estendida, a acudir às pretensões caricaturais dos presidentes como Eisenhower (Robin Williams) a ponderar intervir para integrar meninos negros nas escolas federais enquanto pinta um quadro com florinhas; ou Lyndon Johnson (Liev Schreiber) que decreta diretamente da retrete. E ele assiste, impassível, sem poder falar, ouvir ou ver, como na fábula dos três macacos, às grandes decisões na Sala Oval, sobre as liberdades dos cidadãos, e à decrepitude que se vai acentuando, com o tempo, do terrível regime de segregação racial, enquanto o filho, lá fora, participa nas jornadas de luta.

A preto e branco

Na primeira, e muito convencional, sequência, com inserts de enforcados perfeitamente desnecessários, que condena logo todo o filme com o registo exploitation série B, num campo de algodão da Jórgia, o pequeno Cecil assiste à violação da mãe e ao assassínio do pai pelo patrão. "O mundo é deles [dos brancos]; nós apenas vivemos nele", tinha-lhe explicado o pai. Em seguida, torna-se "um negro de casa" pelas mãos da patroa velha (Vanessa Redgrave). E vive nesta ambivalência de servir e agradar aos brancos, os mesmos que lhe mataram o pai e emudeceram a mãe, sem que estes o sintam sequer respirar. Aprende a adivinhar, pelos olhos deles, o que eles querem, a antecipar-lhes os desejos. Passa a ter dois rostos: o dele e o que mostra ao patrão e é sempre gentil, distinto e ausente. Whitaker podia ser excelente, neste jogo, com o seu ar de gigante bom, nesta ambiguidade das mãos enluvadas, mas o guião está demasiado minado, a realização é confrangedoramente convencional, sempre a bordejar o óbvio e o mau gosto, e, muitas vezes, ele parece vaguear dentro da personagem.

Quase nada dos protocolos, das rotinas, das práticas dos bastidores da Casa Branca é revelado a não ser o hábito do mordomo estender um prato de bolachinhas às excursões de meninos das escolas. Sempre brancos.

E é uma pena ter-se descurado estes pormenores ocultos, as intrigas da copa, todos os cerimoniais que ficam atrás do pano.

Pelo contrário, o filme foca-se nesta galeria de presidentes que vão desfilando pelo palco principal, cada um com a sua "especialidade ", e no último ato de rebeldia do mordomo: solicitar, com a devida vénia, ao chefe do pessoal um salário e condições de promoção iguais às dos serviçais brancos. A cabeça a preto e branco de Lee Daniels apenas está interessada na história da América, na perspetiva racial, o que é louvável (e ainda há muitas feridas recentes por cicatrizar), mas não parece ter mãos para abarcar uma temática tão profunda, e tudo é tratado de uma forma esquemática, dir-se-ia mesmo infantil, sem nuances nem cinzentos.

No final, Oprah e Whitaker, dentro de fatos de treino impossíveis dos anos 90, visitam as antigas plantações de algodão com o pesar de quem torna a pisar campos de concentração e há uma leve alusão a um holocausto negro. O Yes We Can de Obama apanha o mordomo já velhote e reformado, ansioso por ir votar: a sua derradeira bofetada de luva branca.