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O Gebo e a Sombra - É desgraça ser pobre

Estado Crítico

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Manoel de Oliveira volta a surpreender pelo seu olhar, sagacidade e densidade filosófica naquele que talvez seja o seu melhor filme da última década

 

Seria legítimo embora injusto e redutor reduzir o Gebo e A Sombra, ao filme possível de um realizador de 103 anos, que já não está disposto a grandes aventuras de rodagem. Mas sendo um filme possível, o Gebo e a Sombra não é de todo um filme limitado, as balizas construídas engrandecem-nos e a verdade é que Manoel de Oliveora volta a surpreender pela sua olhar, sagacidade e densidade filosófica naquele que talvez seja o seu melhor da última década. O Gebo e a Sombra, uma adaptação da peça de teatro homónima que  Raul Brandão escreveu nos anos 20. Como é comum em grande parte dos filmes do no decano dos realizadores mundiais a qualidade resulta da feliz combinação de um texto de elevado valor literário com uma fotografia cuidada. Desta vez, acresce-se ainda a participação de grandes atores, destacando-se Jeanne Moreau, Michel Losdale e o regresso de Leonor Silveira.

A ação tranca-se em quatro paredes, sendo raras as cenas exteriores, e há uma transposição de formas de arte, do teatro para o cinema (Oliveira já o tinha feito várias vezes). Contudo, não se deve confundir com teatro filmado. Há uma constante busca de planos, um sentido muito próprio de colocação de câmara, dentro da sua habitual descrição, com padrões que se aplicam exclusivamente ao cinema. O nosso olhar é pois direcionado, condicionado a subtis perceções estéticas que timidamente influenciam o todo.

O texto, contudo, está lá, em francês, mas fiel à obra (sem o último ato) e ao espírito, como é mister de Oliveira. A riqueza da prosa de Raul Brandão, esta peça é uma preciosidade, serve de sustentáculo para todo o resto e também de novo ponto de partida para a quimera do cinema de Oliveira: filmar o pensamento. Mas, neste caso, também, o desafio de filmar a pobreza.

Em termos físicos o filme encerra-nos naquela casa de aldeia, numa limitação prática (como em A Corda, de Alfred Hitchcock, ou no Carnage, de Roman Polanski), mas que não vai ao ponto de excluir o espaço exterior só pela pirraça de não estragar o exercício. Essa é só uma aparência cénica, pois na realidade quase toda a ação decorre fora de cena. O que condiciona o espaço de diálogo para uma teorização sobre a vida através dos factos. Ao drama do filho próprio que, no caso, é o filho ruim sobrepõe-se o tom reflexivo sobre a condição humana e a moralidade. E desenha-se a teia de forma quase metafísica. O amor ilimitado de Gebo (Michel Losdale) pela esposa faz com que ele proteja o amor ilimitado da esposa (Jeanne Moreau) pelo filho (Ricardo Trêpa). Mesmo que para isso crie um mundo de ilusões, até a um extremo fatídico. O filho, por seu lado, desama e confunde rebeldia com estupro, crime com inquietude. É um ser de consciência imoral. Sobra-nos a nora (Leonor Silveira), a personagem que se equilibra, do bom senso, à qual falta coragem, que age em conforme com os padrões e personaliza o bem enquanto se rodeia das suas dicotomias. É neste quadrado de personagens que Oliveira/Brandão se movimentam, questionando os limites e as contradições da condição humana, mais do que descreveram uma empolgante história de amor, ódio, traição e culpa. É um filme em que mais do que se faz conta o pensamento sobre as ações. É feito de profundas questões universais sobre o Homem, de amplitude filosófica, psicológica e comportamental. E é nessa sua dimensão tão pouco terrena que o cinema de Oliveira se transcende: o mise-en-scène é do tamanho do mundo.