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O DESCONHECIDO DO LAGO O silurus e a morte

Estado Crítico

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Todos os personagens são colocados lado a lado, como no teatro e, talvez, na pintura. Evita-se o campo-contra-campo, evita-se a hierarquia, estão em palco, frente ao público que os olha nos olhos e no sexo

João Eduardo Ferreira

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"O Desconhecido do Lago" (L'inconnu du Lac) de Alain Guiraudie, 2013

 

O silurus e a morte. "Le Déjeuner sur l´Herbe"

A situação é muito clara, a imagem também.

Sentados lado a lado, Henri (Patrick d'Assumçao), gordo, melancólico, espera pelo fim das férias e conversa com Franck (Pierre Deladonchamps) que vem decididamente para o engate. As margens pedregosas da albufeira são a plateia ideal para contactos homossexuais. A conversa tem por tema o silurus, peixe-gato, espécie invasora, carnívoro, navegador pelo fundo. O predador pode atingir quatro ou cinco metros e assusta alguns dos banhistas que se aventuram até à outra margem. O mote está lançado entre uma hipotética Comédia e uma provável Tragédia. O seu reflexo está no plano de água que tarda em devolver um cadáver. As cenas sucedem-se em repetição, lentamente, tendo por separadores a ondulação da vegetação, das nuvens, da superfície aquática, do crepúsculo. A posição dos automóveis no parque de estacionamento improvisado dá as entradas de cena e incita a intriga policial a precipitar-se. Todos os personagens são colocados lado a lado, como no teatro e, talvez, na pintura. Evita-se o campo-contra-campo, evita-se a hierarquia, estão em palco, frente ao público que os olha nos olhos e no sexo. Franck está inevitavelmente atraído por Michel (Christophe Paou) apesar de tudo sinalizar a sua perigosidade de predador, carnívoro, navegando na obscuridade das águas. Mesmo assim Franck entrega-se recusando distinguir a expectativa do desejo. As cenas dos encontros sexuais entre Franck e Michel são programáticas, essenciais para confrontarem o espectador com a irremediável proximidade da pele e a vaga possibilidade do amor. Mas o medo permanece entre os fios da acção. A noite surge com o aprofundar das investigações policiais, a cargo do inspector Damroder (Jérôme Chappatte), uma de entre as muitas figuras caricaturais que compõem o cenário torpe da busca sexual nas margens do lago. Deste modo, ficam isolados na ribalta os dois protagonistas, esculturais. Franck está sozinho mas não deseja a solidão, tenta salvar do sacrifício Henri, que não está só mas talvez prefira a solidão, foge, esconde-se do predador de fundo. No centro do palco, a expectativa, talvez o desejo, adensa-se com o baixar das luzes, a noite invade a plateia, Frank chama silenciosamente por Michael. O público é convocado para o desfecho truncado da Tragédia.

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