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O crime do século

Estado Crítico

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Quem precisa de ficção quando a realidade é tão pungente? O assassínio de Humberto Delgado é o tema do primeiro filme de época de Bruno de Almeida. Uma história da História contada para memória futura e para tirar lições para o presente. O JL falou com o realizador e com Frederico Delgado Rosa, neto do general sem medo, investigador, argumentista e autor do livro que esteve na origem desta Operação Outono.

Quem precisa de ficção quando a realidade é tão pungente? O assassínio de Humberto Delgado é o tema do primeiro filme de época de Bruno de Almeida. Uma história da História contada para memória futura e para tirar lições para o presente. O JL falou com o realizador e com Frederico Delgado Rosa, neto do general sem medo, investigador, argumentista e autor do livro que esteve na origem desta Operação Outono.





O rigor acima de tudo. No filme de Bruno de Almeida não há cedências em nome da ficção ou da dramaturgia que impliquem falhas no rigor histórico. Para mentiras, já bastam aquelas que se criaram em torno do caso de Humberto Delgado (HD), desde os agentes da Pide que contaram as mais diferentes versões em tribunal, ao próprio Salazar que atribuiu o assassinato aos comunistas. E é dentro desses parâmetros que se desenvolve esta Operação Outono, que não é um filme sobre o General sem Medo, mas antes sobre a operação que levou à sua morte, em 1965, em Espanha.

O filme partiu de Biografia do General Sem Medo, livro escrito pelo seu neto, Frederico Delgado Rosa, após sete anos de investigação. Defende, entre outras, a tese que o general não foi morto a tiro e traz grandes revelações sobre um dos mais chocantes casos da ditadura salazarista.

Operação Outono conta com um elenco de luxo, que inclui o americano John Ventimiglia, Marcelo Urghege, Nuno Lopes, Diogo Dória, Carlos Santos e a surpreendente estreia de Camané. É um passo improvável no percurso de Bruno de Almeida, autor de, entre outros, Love Birds e o documentário The Art of Amália. O filme estreou-se em Lisboa e no Porto e agora vai entrar em digressão, com projeções em cineteatros e auditórios por todo o país.



JL: Há muitas histórias fascinantes no período do Estado Novo. O que o levou a Humberto Delgado?

Bruno de Almeida: Tinha acabado o Love Birds (2008) e li uma entrevista que o Frederico deu ao Expresso. Comprei de imediato o livro e li-o num fim-de-semana. Achei fascinante. Conhecia aquela história desde sempre, mas numa versão errada. Na segunda-feira seguinte tivemos uma reunião. Houve logo uma grande cumplicidade. Pensámos o início do filme da mesma maneira. A partir daí, convidei-o para escrever o guião e começámos a trabalhar. Foi a melhor colaboração que já tive. Um escritor, que serviu de consultor histórico e é neto da figura. Uma das coisas que está bem conseguida no filme é o rigor histórico. Isso deve-se ao Frederico.

 

Enquanto fazia a investigação e escrevia o livro, ficou logo com a sensação de que isto poderia dar um filme?

Frederico Delgado Rosa: Sem dúvida. A ideia da história de Humberto Delgado se transformar num filme foi materializada pelo Bruno, mas o sonho já é muito antigo. Não só meu, mas da minha família. Este é o assassínio político da ditadura de Salazar. E os seus contornos conseguem ser ainda hoje surpreendentes. Aquilo que já era por si um caso fantástico antes do 25 de Abril, com o que vem depois torna-se ainda mais palpitante e aterrador. É um filme explosivo.

BA: Há muitas pessoas que saem dali a chorar. Porque a passagem para o ecrã torna tudo muito mais forte. Há qualquer coisa que se passa no cinema que nos afeta de forma diferente.

FDR: O facto de HD ter sido morto de determinada maneira tem implicações políticas profundas. Não me lembro de encontrar isto num outro assassínio: o modo tem grandes implicações.

 

Também há o JFK, mas nesse caso, Oliver Stone força uma tese...

BA: Nós não forçamos uma tese. Chegamos à verdade através de vários depoimentos. Se pensarmos bem os depoimentos são todos diferentes.

FDR: As maiores respostas são dadas pelo espectador, nomeadamente a questão de Salazar. Ligam-se umas coisas às outras e deixa-se o público tirar as suas próprias conclusões.

 

Este é um filme sobre a Operação Outono e não sobre HD. Não se conta a história do general. Porquê?

BA: Tivemos a dúvida se era de incluir uma folha informativa, que explicasse quem é HD. Roberto Perpigani, o nosso montador, disse logo que as pessoas percebiam imediatamente a figura, e quem quiser saber mais pode sempre pesquisar. O filme não conta tudo. Fala sobre o Estado Novo através de uma das figuras mais relevantes.

 

Aliás, há uma grande parte do filme em que HD nem sequer aparece.

BA: Sim, ele é morto aos 20 minutos de filme. Há uma proximidade com alguns filmes feitos nos anos 60, do Salvatore Giuliani, entre outros. Não é um "Who done it", é um "How they did it". É através da complexidade dessas teias que se percebe o que aconteceu.

 

Junta dois géneros.

BA: Tem dois ou três géneros. Há o antes e o depois. No fundo o filme é sobre uma mentira. Gosto muito de começar com o Silva Pais a dizer que não queriam assassinar, mas apenas raptar HD. Há várias mentiras. Até a do Salazar quando diz que foram os comunistas. E é incrível como depois do 25 de Abril se perpetua a mentira, dizendo-se que o Silva Pais não sabia da operação, o que faria dele o maior idiota da História. É uma história macabra.

 

O que tem o filme de ficção?

BA: De ficção não tem nada, mas de dramaturgia tem muito.

FDR:  Há algumas coisas que são mudadas de sítio e de tempo, por uma questão de dramatização. Por exemplo, um testemunho dado na fase de instrução do processo foi colocado no tribunal, na verdade o subinspetor Lopes Ramos fugiu ainda antes do julgamento começar. São pequenas coisas.

BA: E há muitas histórias que não entraram, por termos de condensar a narrativa. Por vezes, mistura-se duas personagens, numa só, porque têm a mesma função e por isso tornam-se redundantes.

FDR: Há sempre cenas históricas sobre as quais não existem documentos e cabe ao filme preencher essa lacuna. Mas acho que isso até aconteceu mais nas cenas cortadas.

BA: Houve uma história que teve que cair, a do HD com a Arajaryr Campos, por uma questão de tempo. Há toda uma relação pessoal que foi filmada e depois cortada. Para mim é muito importante o que Samuel Fuller chamava de terceiro olho, ou seja,  aquilo com que se sai do cinema. É o terceiro olho que, durante a montagem, dá esse tipo de indicação ao realizador.

 

O papel da Arajaryr Campos é minúsculo, quase uma figuração.

BA: Nunca foi grande, até porque o papel do próprio HD é relativamente pequeno. São fragmentos. Não é a história dele é a história do que lhe aconteceu.



A parca produção do cinema português faz com que a abordagem destes temas crie versões mais ou menos definitivas para o grande público. O filme transforma-se em mais do que isso. Sentiram essa responsabilidade?

BA: Há uma componente negativa em relação aos filmes históricos em Portugal. Mas é preciso não esquecer que os filmes são objetos artísticos, de determinado autor. Nós quisemos transpor uma história verídica, mantendo os seus elementos. Esta foi a nossa visão. Não teria de ser assim. Poderia fazer um filme mais sensacionalista, como há outros.

 

Mas não há essa responsabilidade acrescida?

BA: Tentei que não houvesse. E sobretudo que o filme não fosse pretensioso. Há muitas vezes a tentação de tornar o HD um herói. Eu tentei que fosse um homem. Acho que ele é tratado de uma forma mais real. De resto, é uma questão de estilo. Estes filmes podem ser até íntimos. Não precisam de ser megaproduções, com grandes gruas e tudo isso. O mais importante é mesmo o que fica quando se sai. Nós como cultura não olhamos para a nossa História. Temos 50 anos de fascismo, fomos a mais longa ditadura da Europa. Como é que só temos três ou quatro filmes sobre isso? Como é que não há mais filmes sobre a tortura, sobre África, sobre as perseguições?

 

Isso, por outro lado, para um realizador não é mau, porque há muito por fazer...

BA: Sim, é fantástico. Se pensarmos nas coisas que há para contar... Não uma tradição, como em Itália, em que no final dos anos 60 há uma série de filmes históricos. Mas o HD dava dois ou três filmes.

 

Fica a ideia que a história não acaba aqui. Há muito por contar no presente. O que se pode deduzir daí?

FDR: Em 2008, o processo criminal ainda estava em aberto, porque não se sabia se o Casimiro Monteiro estava vivo. Encontrava-se numa cave, no Tribunal da Boa-Hora. Eu alertei o juiz que não era o local correto para guardar documentos históricos. Quando  pedi autorização e fui fotografa-lo, a funcionária disse-me: fez muito bem em vir cá que qualquer dia vai tudo para o lixo. Se o processo estava ali era para desaparecer. São ligações neopidescas.

BA: Há milhares de histórias assim, basta abrir os jornais...

FDR: Não quero fabricar teorias da conspiração exageradas, mas 50 anos de fascismo não se evaporam com 30 anos de democracia. Há aquela ideia de que o Salazar é uma coisa e a ditadura outra. Como se o Salazar fosse um santo e nunca soubesse de nada.

 

Essa parte final, não é aprofundada.

FDR: O filme prefere deixar isso pairar. Mas os juízes têm nome, são pessoas reais.

 

É uma história do presente?

BA: Fiquei muito impressionado quando o Frederico e a mãe se comoveram a ver o filme. Para mim ficou claro. Isso é a família dele. Não é nenhum herói.  Há um lado humano e um lado mais global. É olhar para uma história e pensar como é que isto foi possível, mas, por outro lado, verificar que as coisas passam-se mesmo assim. Se tiver essa vertente de análise, já tem a sua função. Não tem uma marca política assim tão forte.

 

Pode fazer justiça, onde os tribunais não chegaram?

FDR: Na consciência das pessoas. A justiça não é dada de bandeja. O filme tem a subtileza de obrigar as pessoas a montar as peças de forma a tirarem as suas próprias conclusões.

 

O filme deixa implícita a participação de Salazar, não só porque é interessante em termos cinematográficos, mas também porque, atendendo a esse rigor, não há um documento que implique diretamente essa ligação....

FDR: Não há o documento, mas há um testemunho crucial do Silva Pais, em tribunal, em que, defendendo a teoria que a Operação Outono era apenas para raptar e não para matar HD, diz que Salazar foi informado que a brigada ia encontrar-se com HD. E terá respondido: "Tenham muito cuidado". Mas, segundo Silva Pais, Salazar não aprofundou muito a conversa, passou um cheque em branco à PIDE.

 

Como os padrinhos da Máfia, terá pedido que tratassem no assunto.

FDR: Exatamente. Salazar não teve que explicitar, mas deixou que acontecesse. E depois fez ainda pior: encobriu declaradamente o crime, de forma escandalosa, mentindo ao embaixador de Espanha e difamando a memória de HD, dizendo que ele era um delator e que se ia entregar às autoridades para delatar os seus companheiros. Um ultraje.

 

Salazar está presente, como uma sombra, mas não é uma personagem.

BA: Essa foi uma decisão importante. O Salazar sente-se ao longo de todo o filme, mas não há um ator. Aparece a sua fotografia por todo o lado e depois a falar na televisão.



Por momentos funde-se a realidade, as imagens de arquivo, com a ficção.

BA: Há dois pontos no filme que são assim: o discurso de Salazar e as imagens do 25 de Abril. Neste último caso, foi recriado o interior da sede da PIDE. Fundimos a ficção com a realidade, quebramos essa parede e assumimos isso plenamente.

 

O filme é contra o esquecimento?

BA: Sem dúvida. O apagamento da memória é chocante. Como não há um museu sobre a tortura do Estado Novo? É bom que nada disto se esqueça, embora o filme não tenha uma forma didática. Se tocar numa pessoa já é bom, se tocar em muitas é ótimo.

 

John Ventimiglia faz de HD e depois é dobrado. Estamos sempre a tropeçar nessa dobragem, porque o movimento dos lábios não coincide com o que ele diz. Não havia alternativas?

BA: Foi uma questão puramente técnica, com mais dois dias a dobragem ficava como deve ser. O John fez uma interpretação muito boa. O facto de ser estrangeiro funciona bem, porque coloca o HD como alguém exterior às outras personagens. Houve atores portugueses que pensei para a personagem, mas aconteceu assim. Acho que o John foi uma excelente escolha. Deu uma qualidade muito nobre à personagem.

 

Há outro ator que temos que falar: a magnífica estreia de Camané...

BA: Uma revelação. Nós fizemos o casting através de fotografias. Achei por bem seguir uma lógica de parecenças físicas. Quando olhei para a figura do António Semedo, o homem de fronteira, reparámos que era igualzinho ao Camané. A olhar para a foto até a namorada do Camané pensava que era ele. O Camané faz uma mistura entre os atores clássicos e os não atores. Fez uma interpretação fabulosa, com esses toques de humor, que têm a ver com ele. São importantes esses toques de humor ligados à improvisação, tornam as personagens menos estereotipadas. O Camané vai ser protagonista num dos meus próximos filmes. Será feito a partir de uma sinopse do Fernando Lopes que me foi oferecida pela Maria João Seixas. O Camané e o Rogério Samora serão os atores principais.

 

Esse será o seu próximo filme?

BA: O próximo não sei qual é, depende do financiamento. Acabei agora uma curta, em Guimarães, chama-se Palestra, com o John Fry, a Ana Padrão e o Marcelo Urgeghe. A Operação Outono faz parte de uma trilogia sobre a repressão no Estado Novo. Mas os outros dois não quero fazer já.



Destaque 1:

Não quis que o filme não fosse pretensioso. Há muitas vezes a tentação de tornar o Humberto Delgado um herói, eu tentei que fosse um homem



Destaque 2:

50 anos de fascismo não se evaporam com 30 anos de democracia Frederico Delgado Rosa