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NEDS: Brutal Como o Destino

Estado Crítico

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Uma fusão muito hábil e crua de uma época com a violência entre e sobre adolescentes

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É o que se chama a tempestade perfeita: todas as fúrias dos céus e mares conspiram contra o barquinho à deriva e lá se vai qualquer salpico de livre-arbítrio - seja a remos, a motor ou à vela. Sabemos que o naufrágio é iminente. Desde muito cedo neste filme torna-se tarde demais, e o determinismo impõe-se. Ainda assim, nós esperamos a redenção - e ela até acontece numa cena bizarra, absolutamente incrível e absurdista que acontece no final do filme. E que contrasta com o realismo social dos primeiros dois terços. Por que no restante terço, já estamos noutra dimensão, muito mais diluída, fluida e esbatida. E grotesca também. Realizado pelo premiado ator escocês Peter Mullan, que também interpreta um pai alcoólico e violento, o filme tem ressonâncias com a sua própria infância. Passa-se em 1972, nas cruas ruas de Glasgow (e a reconstituição está de tal maneira cuidada que nem se nota que é uma reconstituição de época), entre bandos de adolescentes em fúria, alvos e vítimas, uns dos outros, também dentro de casa, também, e sobretudo, na escola, onde os professores de capas de Batman dão chicotadas e humilham o sucesso. Na televisão está a dar um "sketch" muito conhecido dos Monthy Python, aquele em que um grupo de donas de casa chafurda na lama, numa batalha campal de malas de senhora. Lá fora, a guerrilha urbana faz-se com navalhadas e muita violência e há um menino de coro, num dia muito solar, que é orgulho da sua mãe por ser o melhor aluno da classe. Só que tem o destino traçado, numa espiral descendente. Pela frente só lhe aparecem "desoportunidades", se a palavra existisse. E nenhuma complacência. O menino de coro cresceu, tornou-se um brutamontes com cara de bebé (o casting deste filme é espantoso - até as faces parecem antigas), mas está já infetado pela violência pandémica da zona. E catalogado com o terrível acrónimo muito civilizado da época, NED: "not educated delinquent". A coreografia da violência faz-se cinicamente com a banda sonora de Cheek to Cheek, "I'm in Heaven...", à maneira do "Laranja Mecânica". E o barquinho há de seguir como a maré o determinar. Para o fundo.