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Nas Neves de Kilimanjaro: A LOTA CONTINUA

Estado Crítico

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O que leva um ex-sindicalista a fazer um safari no Quénia? A coisa apresenta-se de forma tão perversa e chocante como um padre num clube se strip.Nas Neves de Kilimanjaro é um filme sobre uma má consciência de esquerda que adquire a dimensão religiosa da culpa. Culpa sem culpa ou relaxamento sem desculpa.

As Neves do Kilimanjaro (1951) é um clássico de Henry King, com Gregory Peck e Ava Gardner, baseado num conto homónimo de Ernest Hemingway. Nada tem a ver com este filme francês. Nem Hemingway, nem King, nem Peck. O Kilimanjaro de Robert Guédiguian é um destino incompleto, assim como a Paris, de Casablanca, ou o Alasca, de Wendy and Lucy. Mas não da mesma forma. Nos filmes citados, Paris e Alasca aparecem como paraíso, terra de sonhos ou, pelo menos, de esperança, nem que seja de esperança frustrada. O inalcançável Kilimanjaro de Guédiguian ganha rapidamente o estatuto de paraíso artificial, pior do que isso, diabólico objeto de tentação. O que leva um ex-sindicalista a fazer um safari no Quénia? A coisa apresenta-se de forma tão perversa e chocante como um padre num clube se strip. Nas Neves de Kilimanjaro é um filme sobre uma má consciência de esquerda que adquire a dimensão religiosa da culpa. Culpa sem culpa ou relaxamento sem desculpa. A desmobilização não se perdoa. Um ex-líder sindical não se pode dar ao luxo. Qual luxo? Uma viagem ao Kilimanjaro, presente dos filhos e amigos, pelo seu despedimento/reforma antecipada e uma cerveja ao final da tarde no terraço. Ideologicamente, o filme é demasiado duro com as suas próprias personagens, remetendo-as a uma espécie de presbitério social, em contrabalanço com o tenebroso aburguesamento.

O ponto de partida é laboral. Michel sorteia os nomes daqueles que vão ser despedidos da fábrica. Assim, pelo menos, salvam-se os outros. É obviamente uma inadmissível cedência a uma chantagem do patronato que nenhum dirigente sindical aceitaria. Mas Michel, que talvez seja um sindicalista já frouxo, em fim de carreira, põe o seu próprio nome na tômbola que acaba por sair entre os despedidos. Ato corajoso que o transforma num herói. E por momentos, Michel parece aquele desempregado feliz, cheio de oportunidades, a personagem de ficção de que Passos Coelho fala. Há, efetivamente, um aburguesamento, que até parece ser justo e merecido, e um amolecimento. É pecado. E um castelo de areia, que se desfaz... com um assalto.

Não é o assalto, por si só, que o desfaz. Mas é que aquele assalto, bruto e criminoso, passa a ser lido como uma ação justificada de confronto de classes. E, segundo esta lógica mirabolante, os papéis invertem, e os assaltados transformam-se em maus da fita, os assaltantes em vítimas da sociedade. Resumindo, ao ser assaltado por um desempregado, ex-camarada de fábrica, Michel apercebe-se que está do lado errado da trincheira e regenera-se. Neves de Kilimanjaro é um filme esquerdista ortodoxo, de forte engajamento ideológico, que reflete sobre os caminhos transviados da geração do Maio de 68. O filme tem como mote a canção de Pascal Daniel, de 1967, Les Nieges du Kilimanjaro, mas, para banda sonora, também lhe calhava bem A Cantiga é uma Arma (contra a burguesia), de José Mário Branco.



Nas Neves do Kilimanjaro, de Robert Guédiguian, com Ariane Ascáride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Marilyne Canto e Grégoire Leprince-Ringuet, 90 min