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HOLY MOTORS Todos os Filmes num só

Estado Crítico

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Ação, melodrama, ficção científica, animação, aventura, musical, terror, comédia, realismo social, surrealismo, em Holy Motors, de Leo Carax, cabe tudo

 

 

É um extraordinário exercício de condensação e dispersão. Leos Carax, realizador francês porventura maldito, conseguiu fazer um dos multigéneros mais completos da história do cinema. Ação, melodrama, ficção científica, animação, aventura, musical, terror, comédia, realismo social, surrealismo, em Holy Motors cabe tudo e muito mais. A 'armadura' é montada de forma suficientemente sólida e engenhosa para resultar, como um todo, num objeto híbrido e apaixonante.

Holy Motors é a primeira longa-metragem de Carax, depois da polémica Pola X, em 1999. Pelo caminho tem feito várias curtas, incluindo um segmento do filme coletivo Tóquio, Merde, do qual resgatou uma das personagens, porventura a mais fascinante, desta nova obra. Esse recente caminho pelas curtas é notório em Holy Motors, que na sua estrutura aglomera pequenas histórias, perfeitamente divisíveis, embora funcionem como um todo. Esclareça-se que não se trata de uma série de curtas disfarçada de longa. É antes uma longa, com toda a propriedade, que possivelmente se desdobra em pequenos episódios (se é que a questão tem algum interesse).

Importa mais verificar que um dos mais inconformados realizadores franceses da sua geração conseguiu voltar a surpreender, com um filme difícil de catalogar, que questiona a própria natureza do cinema (como o faz, por exemplo Michael Haneke em Funny Games ou Tom Tykwer em Corre, Lola, Corre). É que, entre os aspetos, Holy Motors é uma dessas obras que desconstrói, desmistifica e recria a ilusão criada por si próprio, passando o conceito de filme ensaio. Num primeiro plano, reflete sobre o trabalho de ator (tão exigente e conseguido é o papel de Denis Lavant); num segundo plano, reflete sobre o próprio cinema, sobre o espaço entre a verdade e a verosimilhança e a forma como lidamos com esta dicotomia. Que é como quem diz: até que ponto estamos dispostos a deixarmo-nos iludir? Não é por acaso que Carax evoca a história do cinema em interlúdios de cinema mudo.

Como ponto de partida, temos um homem, um empresário, provavelmente um banqueiro, que sai de sua casa, despede-se da família e entra numa limusina, conduzida por uma senhora loira. Durante o caminho disfarça-se de uma velha pedinte, que mendiga nas ruas de Paris. Cada vez que entra na limusina encontra a e prepara uma nova personagem, que satisfaz um serviço, solicitado por uma misteriosa figura: um Deus que ordena.

Há um desdobramento de planos. A personagem, que se chama Oscar, refaz-se em outras personagens ao longo do filme, mas voltamos sempre à sua realidade. Mas essa interação entre a personagem transformada e o plano da realidade não funciona de forma tangível: o plano do real nem sempre é realista - tal como no cinema, não tem consequências sobre Oscar (a não ser psicológicas) é uma ilusão que se desdobra em ilusão, porque tudo isto é cinema. Leo Carax joga e sabe brincar com tudo isto, revelando-nos até a preocupação das personagens com a invisibilidade (só existem na medida em que há espectadores), mas também brincando com os buracos do próprio filme, dando-lhe uma estrutura maleável, em que o realismo aparente é desconstruído por uma ideia de encenação, em que constantemente se monta o palco e se desfaz.

A título de curiosidade Oscar é o nome verdadeiro do próprio Leo Carax, que construiu o seu pseudónimo através de uma combinação das letras dos seus dois primeiros nomes Alex e Oscar. Entretanto, a obra completa de Leo Carax vai estar em retrospetiva no Espaço Nimas.