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Hitchcock Ele preferia as louras

Estado Crítico

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As perversidades do costume do mestre do suspense, com Psyco e a lady Hitchcock pelo meio



Há uma coleção de best-sellers que se intitula "For Dummies". Em Portugal, traduziram "Para Totós". A ideia é uma espécie de auto-ajuda motivacional, que explica coisas de forma supostamente divertida: "Economia para Totós" ou "Marketinga das PMEs Para Totós" ou "Farmville para Totós" e por aí fora... Este filme do realizador e argumentista Sacha Gervasi também parece ser um "Hitchcock para Totós" (será que existe?), embora a parte do divertido seja também muito "supostamente". Uma espécie de iniciação ao universo Hitchcock, sem alguma revelação. O filme gira na órbitra da performance de Hopkins que não se desgruda do registo confrangedoramente caricatural: muitas boquinhas e um pretenso ar britânico, snob, cheio de enfases e maneirismos . Depois, como satélite, temos a pequena mulher, Alma Reville, por detrás do grande planeta Hichcock, mas como esta conjugalidade não tem qualquer interesse e não agarra ninguém- nem sequer os próprios um ao outro- acaba por ser mais simpático reparar em todos os meteoritos que vogam em torno do mestre do suspense, como uma lista de presenças : o seu fetiche pelo fato cinzento com sapatos pretos que Kim Novack detestava, em Vertigo (consta); o fascínio pelas louras frias de Hollywood (confere); a associação aos programas de televisão que o banalizaram (presente)... O filme abusa do perfil rotundo de Hitch, do seu lado voyeurista e das suas aparições súbitas e sinistras, como quem insiste "reparem, que ele é o mestre do suspense, e costuma fazer 'cameos' nos filmes" E apanhamo-lo numa fase de enfado, amofinado com o que os críticos dizem de "Intriga Internacional", sem inspiração para o próximo filme, todos os livros lhe parecem "sleeping pills" encadernadas. Se adaptar o Diário de Anne Frank, diz, o espectador vai ficar o tempo todo à procura do corpo no sótão. A piada já era conhecida, em versão Cinderela. Até que Hitch descobre Psyco, manda comprar todas as edições, mas os produtores tiram-lhe o tapete por acharem a história demasiado "tasteless". Ainda para mais, a famosa cena da banheira fazia adivinhar problemas com a censura. Contra tudo e todos, Hitch hipoteca a casa e a piscina, e avança com o filme em que a "leading lady" morre nos primeiros 30 minutos. Está lá a famosa situação em que Hitch teimou (erradamente) com Bernard Herrmann em não colocar a famosa música no esfaqueamento da banheira, todo ele construído com planos de curtíssima duração, um puzzle sem lógica, mas que depois de montado faz todo o sentido. E com a música torna-se genial. Ele, aliás, ensaia esta cena com a faca na mão, uma coreografia perversa, como uma valsa macabra.  

 

Hitchcock

De Sacha Gervasi. Hitchcock, com Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Danny Huston, Jessica Biel, Michael Wincott, Toni Collete.  Drama. 98 min. EUA. 2012