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Guia para um final feliz BIPOLAR, MANÍACO, SENTIMENTAL

Estado Crítico

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um bem-disposto elogio à autoajuda. Entre a sorte e a determinação. Boas interpretações de Bradley Cooper, Jeniffer Lawrence e Robert De Niro



O desafio dos filmes de género é conseguir criar qualquer coisa de diferente sem sair das balizas predefinidas que os caracterizam. Enquanto se tenta inovar numa estrutura fechada logra-se manter a coerência. Nesse sentido, construir um bom filme de género, poder ser mais desafiador do que fazer um filme de autor, em que os limites não existem. Tal como originalidade é mais difícil no fado do que no jazz. A comédia romântica é um dos exemplos mais acabados de género. Tem regras inquebráveis que pedem grande imaginação aos argumentistas. O final feliz é um dado adquirido. Se não existir, deixa automaticamente de se tratar de uma comédia romântica. A questão não é o princípio, o meio e o fim, mas a qualidade dos ingredientes e a forma como se prepara o cozinhado. O armadilhar das tramas, a força do cenário, a originalidade das situações. O justo equilíbrio entre o riso e o choro, a dose certa de emoção, sem ultrapassar certos limites intoleráveis pelo espetador: a comédia romântica tem que ser leve, a pensar nas famílias e agradar a um certo tipo de sensibilidade feminina (é estatístico, as mulheres são o público alvo).

Tudo isto para se chegar a Guia para um Final Feliz, o último filme de David O' Russell, a partir de um romance de Matthew Quick. O' Russell ganhou crédito junto do grande público e em Hollywood depois de ter realizado The Fighter (2010), um drama familiar, com o pugilismo em pano de fundo, que foi nomeado para os Oscars. O filme até era apresentado em estilo indie e, também por isso, se levantou alguma curiosidade sobre como resultaria esta sua investida num cinema leve e descomprometido. Curiosamente, Jennifer Lawrence, a atriz principal, candidata a nomeada aos próximos oscars, também se havia destacado em 2010 pelo seu extraordinário papel em Winter Bones (também nomeado para oscars). Por isso, convergem aqui argumentos indie naquele que talvez seja o mais mainstream dos géneros hollywoodescos.

À parte da sensação de conforto que o género sempre proporciona, o comentários que se apraz à saída da sala é: "Afinal, isto é apenas mais uma comédia romântica". Enfim, talvez não seja apenas mais uma, mas fica essa impressão, porventura fruto de um preconceito, de saber a pouco. De início, o filme até nos engana, porque, ao contrário do habitual do género, o gancho da trama amorosa é lançado tardiamente. O' Russell ocupa-se mais com a caracterização das personagens, sobretudo Pat (Bradley Cooper) e a sua família (Robert De Niro e Jacki Weaver). Um investimento certo e bem conseguido. A riqueza das personagens é o sumo do filme, um pouco ao estilo extravagante de Little Miss Sunshine. Pat sai do internamento compulsivo de um hospital psiquiátrico, onde passou oito meses, após agredir violentamente o amante da sua mulher. É-lhe diagnosticada bipolaridade. Mas está decidido a recuperar-se ao ponto de refazer o casamento. Entretanto, O' Russell diverte-se a ilustrar que "de sábio e de louco todos temos um pouco", mostrando as pequenas grandes insanidades dos vários elementos da família e alguns amigos, a começar com o pai paranoico por superstições à volta do futebol americano, passando pelo amigo que, às escondidas na garagem, destrói objetos à pancada. Até chegar a Tiffany, uma louca 'oficial', que tal como Pat tenta vencer os seus dramas.

É só com a entrada de Tiffany em cena, o incidente que faz com que se adivinhe a alteração na trajetória obstinada de Pat (que aparentemente só pensa em recuperar a mulher), que o engodo da comédia romântica se monta, em todos os seus trâmites de previsibilidade. Sim, sim, serão felizes para sempre, como nos contos de fadas e o amor curá-los-á. Resta deixarmo-nos entreter com as 'loucuras' das personagens, com bons momentos ao lado de alguns clichés. Tem a habilidade de juntar mundos afastados - o futebol americano e a dança - criando com isso alguns momentos de humor. As interpretações são boas, apesar de Bradley Cooper não fugir ao padrão do menino bonito das comédias românticas. Robert de Niro é sempre excecional e Jeniffer Lawrence cumpre. Talvez lhe falte alguma força cinematográfica para elevar o clímax, o concurso de dança, mas aí faltou-lhe rasgo ou imaginação. Quanto ao resto, é um bem-disposto elogio à autoajuda. Entre a sorte e a determinação.



Guia para um final feliz, de David O' Russell, com Bradley Cooper, Jeniffer Lawrence e Robert De Niro, 122 min