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Florbela : A Mulher que tinha sede de infinito

Estado Crítico

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O seu castelo era a dor, Florbela Espanca, "castelã da tristeza", bem o dizia, e no filme, Vicente Alves do Ó desfia este colar de malogros, inquietações, exaltações eróticas, mórbidas e premonitórias  - com um sentido estético muito próprio: o seu

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Não lhe interessa, não quer saber. Diz que "a beleza" que põe nos seus filmes acaba virando-se contra ele, isso não o atinge, mas sente "o preconceito". Já o criticaram por fazer filmes "demasiado bem acabados"... Foi assim com Quinze Pontos na Alma (2011), talvez volte a acontecer com Florbela (estreia-se hoje, dia 8), o filme sobre a poetiza que exaltava nos seus poemas uma espécie de solenidade ritual da desgraça, e cujo neo-romantismo rimava funestamente com a desdita da sua vida. Mas Vicente não fez o biopic mais óbvio (isso reserva-o para a série televisiva, que se encontrará com Florbela desde o nascimento, não reconhecido pelo pai, até à sua desistência de viver, aos 36 anos, fragilizada pela doença, pelo desgosto e por três tentativas de suicídio). Neste filme, Vicente "captura-a" (como gosta de dizer que as câmaras fazem aos momentos, "aprisionamo-los para a eternidade") na altura em que ela está numa fase de bloqueio criativo. Não escreve mais, não consegue, após dois casamentos malogrados e dois divórcios, Florbela (Dalila Carmo) está novamente casada com um médico de Matosinhos (Albano Jerónimo). "Agora já sou o que todos esperam que eu seja: uma mulher casada, honrada e, acima de tudo, discreta". Mas no próprio dia do casamento, no mesmo momento em que, por fora, pronuncia esta frase de apaziguamento, por dentro já toda ela é ânsia e alvoroço. Queixa-se do mar, que não pára: "O mar nunca se cansa". No fundo, explica Vicente, "ela ao falar do mar, está a falar dela própria e do que está a viver na sua cabeça. É uma ideia inquietação e já de perturbação". Vicente percebe do que fala, ele próprio viveu junto à costa, em Sines, até aos 27 anos, e sabe como o mar no inverno, numa praia despovoada, se pode tornar opressivo: "Não é bonito, não". E ele tem sempre de "se trazer" um bocado para dentro dos filmes, "senão não fazem sentido". E afinal, a mulher que "só via a floresta e era incapaz de olhar a árvore", que se olhava como "uma pantera enjaulada na vida", porque, continua o realizador, "ela sentia a sua garra felina presa aos convencionalismos da época", essa Florbela Espanca "sou eu", Vicente Alves do Ó, 40 anos, natural de Sines, autor de uma vintena de guiões, um romance (Kiss Me), outro a caminho, três curtas e duas longas. "No meio do cinema eu sou a Florbela Espanca", insiste, como Flaubert e a Madame Bovary. "Eu sou um outsider do sistema. Não tenho telhados de vidro, só devo os meus filmes ao meu esforço. Não venho de escolas, não pertenço a tribos...". Uma vez, António da Cunha Telles disse-lhe, a propósito da sua curta que não foi seleccionada para o Festival de Vila do Conde: "Tu és o gajo mais marginal do cinema português".    

"É sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,/a mesma angústia funda, sem remédio,/ andando atrás de mim, sem me largar".

Com os sonetos de Florbela Espanca Vicente travou conhecimento na adolescência. Com a prosa, logo a seguir. No bolso traz a prova do amor e de um delito, "a única coisa que roubei na vida". Não foi tecnicamente um roubo, chamemos-lhe, antes, não devolução a uma biblioteca municipal. Uma primeira edição dos contos de Florbela Espanca, já com as folhas amareladas e a desagregarem-se do volume. Impressionou-o As Máscaras do Destino, dedicado à memória do irmão, "ao meu querido morto", o aviador Apeles, que se terá suicidado no Tejo no seu hidro-avião, aos 30 anos: "Os mortos são na vida os nossos vivos, andam pelos nossos passos, trazemo-los ao colo pela vida fora e só morrem connosco". Interessou-se por esta relação estranhamente próxima com o irmão. São quase os únicos momentos em que Dalila Carmo sorri no filme, aqueles que passa na companhia do irmão (Ivo Canelas).

 "E quanto mais no céu eu vou sonhando,/ E quando mais no alto ando voando/ Acordo do meu sonho... E não sou nada!..."

No filme anterior, a história de uma mulher (Rita Loureiro) que tem tudo para ser feliz, até ao dia em que recebe um beijo de um suicida e desiste de tudo para perseguir um fantasma, Vicente convocava todos os seus amores, a moda, o design, o cinema, a fotografia... "Esse filme era muito à volta de mim, este não tanto". Mas ainda assim os filmes comunicam-se através de um beijo lésbico entre a actriz Rita Loureiro e Dalila Carmo, num lelião de uma festa dos loucos anos 20. "Eu vejo os dois como the light and the shadow. Os Quinze Pontos... era um filme frio, sombrio, diabólico, com aquela anti-heroína, uma mulher que procura o sofrimento, porque 'se não doer como sabemos que estamos vivos?'. A Florbela, pelo menos verbaliza o que sente, não está morta, ainda não congelou". Curiosamente, são sempre beijos de mortos ("a visita da dama dos dedos descarnados", nas palavras de Espanca), que despertam os vivos, ao contrário da história da Bela Adormecida. "É a morte dos homens que as salvam, uma espécie de sacrifício que nunca é cobrado", continua. Toda esta vocação de plenitude de Florbela Espanca votada ao desastre, o não reconhecimento pelos círculos literários, os casamentos infelizes, a neurose acentuada, a depressão, a ânsia de maternidade nunca consumada, os abortos espontâneos... no filme, o beijo do irmão morto, que surge do mar, é o ponto de viragem. Ela salva-se - ainda que por pouco tempo - porque volta a escrever.

"O amor de um homem? - terra tão pisada, /gota de chuva ao vento baloiçada.../Um homem?- quando eu sonho o amor de um Deus"

"O cinema português tem um problema com a beleza, não acreditamos nela porque a associamos a algo artificial", comenta o realizador. "Trata-se a moda e o design como se fossem futilidades. O cinema parou de sonhar e de fazer sonhar, não ajuda a transcender como ser humano. Não consigo lidar com a arte que apenas me duplica, não preciso de espelhos, mas de caminhos e luz. Preciso que a arte me leve a outro sítio, que me eleve, transcenda e me rasgue...". Entre a pulsão da poesia, o apelo da morte, um marido "que é terra", e um irmão "que é loucura", talvez Floberla, lá da sua enseada suicidária, tenha sentido o mesmo estigma do convencionalismo e as marcas do kitsh que sempre se lhe colaram aos seus arrebatados sonetos.

 

 

 

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À margem do soneto

Nascida em Vila Viçosa em 1894, filha ilegítima de uma mulher humilde e de pai burguês (este só a reconheceria postumamente),

Florbela Espanca viveu os conturbados tempos da República, o início da ditadura, chegou a frequentar o curso de Direito em Lisboa(14 mulheres entre 350 homens), sempre completamente alheada das convulsões políticas e sociais. Tinha olhos de olhar para dentro, para os seus três casamentos e outros enamoramentos malogrados, dois divórcios, os abortos espontâneos, a morte do irmão, as suas assombrações, os suicídios tentados e outras vicissitudes existenciais. Numa colectânea recente da Editorial Presença, José Carlos Seabra Pereira, académico estudioso da poesia florbeliana refere-se à sua obra, notando "a presença axial da vocação da plenitude e a sua configuração quimérica, votada ao malogro por choque brutal com a realidade adversa ou por estiolamento na vida medíocre e no desencanto interpessoal".