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Fausto: Sair com vida desta vida

Estado Crítico

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Fausto

Um desalmado filme do génio Sokurov e alma de Goethe a pairar por ali

E já agora sair com memória deste filme (Leão de Ouro em Veneza), onde o realismo e o onírico convivem  de uma forma tão bizarra quanto grotesca, tão repugnante como delicada. Não é a primeira vez que a lenda alemã (apropriada por Goethe, entre outros) do homem que vende a sua alma se junta ao atribulado espírito russo. Já Puchkin tinha feito a sua versão. Deste novo encontro entre um russo e a obra-prima do romantismo alemão, saiu um objeto estranhamente identificado por quem conhece a cinematografia anterior de Sukorov, onde as personagens são sempre ambulantes, seres errantes, viandantes o tempo inteiro em circulação - e a câmara encontra-se sempre genialmente colocada no sítio certo para captar os seus perpétuos nomadismos. Logo na primeira cena, a mais indigesta autópsia, e até o morto se move, erguido por cordas, e os seus órgãos se deslocam com a força da gravidade. O médico, cientista, sábio, astrónomo, botânico, erudito Fausto anda numa inquietação, inquietação (e a infelicidade é perigosa e o sonha da razão gera monstros), porque tem fome de conhecimento e de comida também. E não encontra a alma em recanto algum do corpo humano. E caminha desalmado, por ruas apertadas medievais, porque as pessoas andam sempre engalfinhadas umas nas outras, desastradas, todas elas, Didis e Gogos de Beckett (e na verdade há muito absurdismo neste filme) recurvadas, embrulhadas, aglomeradas esbarram o tempo todo umas nas outras, apertadas, como numa carruagem de metro em hora de ponta. Os pensamentos e o discurso direto de Fausto sucedem-se com uma fluidez notável e o diabólico e esponjoso Mefistófeles ( não assim nomeado) é uma espécie de penhorista,  rodeado de tralha inútil por todos os lado. Há cenários espantosos, interiores e exteriores, às vezes parece que trilhamos caminhos por quadros de Brueghel ou Tintoretto, e a cena da aparição da afamada Margarida num tanque de lavar roupa branca está admiravelmente bem filmada. Essa e as outras cenas grupais, como a do bando de cães raivosos que invade um funeral..A atriz é tão irrealmente bonita que parece uma figura de animação. Tão bonita assim, só mesmo pintada com pincel e óleo.       

Fausto

De Aleksandr Sokurov. Faust, com Anton Adasinsky, Georg Friedrich, Hanna Schygulla, Isolda Dychauk, Johannes Zeiler. Drama. 140 min. Rússia. 2011