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EU E TU Crisálidas na arrecadação

Estado Crítico

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Um surpreendente regresso, 10 anos depois de Os Sonhadores, e 30 anos depois de A Tragédia de um Homem Ridículo, o seu último filme em língua italiana. Eu e Tu não só é underground no sentido estilístico, como é subterrâneo DE muitas outras formas

Aos 72 anos, sentado numa cadeira de rodas, a lenda viva do cinema italiano, Bernardo Bertolucci, faz um filme underground. Um surpreendente regresso, 10 anos depois de Os Sonhadores, e 30 anos depois de A Tragédia de um Homem Ridículo, o seu último filme em língua italiana. Eu e Tu não só é underground no sentido estilístico, como é subterrâneo de muitas outras formas. A começar, literalmente, pelo cenário: centra-se numa cave de um apartamento, onde um adolescente se deixa estar, fingindo-se a esquiar nas montanhas. Dir-se-ia que desta vez Bertolucci descobriu a grandiosidade dos pequenos espaços, longe da megalomania de alguns filmes que o distinguiram, como 1900 (1976) ou o Último Imperador (1987), e também da forte contextualização histórico-política de A Estratégia da Aranha (1970), 1900 ou Os Sonhadores, e sem sombra da provocação de O Último Tango em Paris (1972). Bertolucci partiu de um romance de Niccolò Ammaniti, escritor que gosta de ambientes claustrofóbicos, contudo não levou a sua opção ao extremo de Roman Polanski, que fez Carnage (2012) sem sair do apartamento. Ao italiano não lhe interessa o exercício de estilo, um jogo pelo jogo. Deixou antes fascinar-se pelo misterioso universo da adolescência. O primeiro grande mérito de Bertolucci em Eu e Tu, antes de planos e sequências, é a escolha do ator. Tão difícil que é filmar crianças e adolescentes, que o realizador italiano sabia que não encontraria alguém capaz dentro do circuito regular. Então, esforçou-se por descobrir a pessoa certa fora do cinema. Foi certeiro. A força de Eu e Tu está em grande parte na expressão do estreante Jacobo Olmo Antinori, as borbulhas que tem na cara, o olhar esguio, o temperamento furioso, de quem se zanga com o mundo. O avô Bertolucci crispa o hiato entre a geração do rapaz e dos seus pais, apontando para ali toda a base dos conflitos, contudo abrevia para um feliz estar a relação com a avó, que apesar de hospitalizada, ilustra a capacidade de amar. Bertolucci entra a fundo na depressão adolescente, tentando compreendê-la intimamente, encontrando-se diretamente na idade crisálida. Já não há lagarto, mas ainda não há borboleta. Perante a possibilidade magnífica de esquiar ao ar livre, que permitiria a Bertolucci os planos amplos e majestosos de O Último Imperador ou Um Chá no Deserto (1990), Lorenzo escolhe, enganando a mãe, esconder-se por sete dias numa cave pouco iluminada, onde prova em simultâneo o isolamento e a independência. Contudo a voluntária provação do outro é brutalmente interrompida por Olívia, a segunda personagem do filme (Tea Falco não cumpre o papel com a mesma genuinidade), a sua meia-irmã, toxicodependente, colocada ali também para lhe mostrar os perigos e desventuras de um futuro próximo. Olívia é o que Lorenzo poderá ser. Lorenzo usa o espaço para crescer e recriar-se. Aprende sobre a organização social com uma colónia de formigas. Experimenta a idade adulta. E quando a semana acaba está quase borboleta. A banda sonora é outro ponto surpreendente. Também nesse domínio, Bertolucci quis entrar a fundo no espírito adolescente, com canções de belo efeito, dos Cure e de David Bowie, situadas nos anos 70 e 80, que apesar de não serem o melhor retrato dos adolescentes do século XXI, são funcionais pela energia que transmitem. Facto estranho ou extraordinário é a inclusão de uma versão de Starman, em italiano, com a voz do próprio David Bowie, com o título Ragazzo Solo - Ragazza Sola. Eu e Tu, de Bernardo Bertolucci, com ?Jacopo Olmo Antinori e Tea Falco, 103 min