Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Este andar da carruagem

Estado Crítico

  • 333

No comboio descendente/ Mas que grande reinação!/ Uns dormindo, outros com sono/ E os outros nem sim nem não. À ditadura descrita por August faltam-lhe pormenores que a especifiquem: o que ele faz é replicar os clichés de todo e qualquer regime ditatorial, sem qualquer preocupação de rigor

A cidade de Lisboa já pode considerar Bille August um amigo do peito. Depois ter filmado aqui A Casa dos Espíritos (1993), regressou a bordo deste Comboio Noturno para Lisboa. E desta vez não foi preciso esconder a cidade (em A Casa dos Espíritos foi necessário ocultar as referência para que Lisboa se assemelhasse a Santiago do Chile). O filme, e talvez essa seja mesmo a sua maior valia, é um belíssimo postal ilustrado da capital portuguesa, das suas ruas e vielas, de Alfama ao Bairro Alto, dos miradouros, do elétrico e do cacilheiro, do rio que se parece com o mar, da luz. Bille August sabe filmar a cidade e os seus clichés de forma a torná-lo num sítio apetecível e quase mágico para potenciais turistas, se bem que exasperante e previsível para os locais. Apesar de tudo, apetece mais conhecer Lisboa do que Berna, de onde o filme parte, e onde encontramos uma rapariga portuguesa prestes a saltar de uma ponte com um livro no bolso. Com Bille August, também regressa à cidade, além de Bruno Ganz, Jeremy Irons, um dos grandes atores ingleses, que faz aqui um papel relativamente vulgar, de um homem meio perdido, que tenta compensar a monotonia da sua vida com a vida dos outros. Comboio Noturno para Lisboa é um bestseller europeu escrito pelo suíço Pascal Mercier. Tornou-se de tal forma popular que a expressão 'apanhar o comboio noturno para Lisboa' passou a ser sinónimo de mudar de vida. Pascal Mercier escreveu um livro sobre um livro misterioso, que nos embrulha na luta portuguesa contra o regime fascista. Assim, ao mesmo tempo que nos transporta para a beleza física de Lisboa, na atualidade, mas num tempo para além do tempo (só filma Lisboa antiga), também dá a conhecer e envolve-nos num período relativamente recente da História de Portugal, revelando mazelas e sequelas do regime salazarista. Se bem que à ditadura descrita por August faltam-lhe pormenores que a especifiquem: o que ele faz é replicar os clichés de todo e qualquer regime ditatorial, sem qualquer preocupação de rigor. Tudo isto nos é caro e seria aceitável, não se desse o caso do filme estar arrumado de forma enrodilhada, sem grande fluidez. Avançamos aos solavancos, repetindo percursos, de conversa em conversa, de flashback em flashback, num cruzamento pouco ágil entre os dois tempos da ação. Há uma incoerência linguística. Todas as personagens falam inglês (o que até podemos admitir), mas apenas Mariana (Martina Gedeck ), emprega um sotaque afrancesado. Sofre também de problemas de verosimilhança. Não consegue transmitir o poder mágico de O Ourives das Palavras, o livro que faz com que Raimund Gregorius, num impulso, abandone tudo e parta para Lisboa. A justificação do para-suicício é patética. O desfecho da história de Amadeu e Estefânia simplesmente não faz sentido. E todos estes pormenores juntos fragilizam o filme. É pena. Até porque o filme reúne alguns atores portugueses talentosos, sempre em papéis secundários, e o pano de fundo merecia mais. Ou, como diz Pessoa, que é mais citado no livro do que no filme: "No comboio descendente/ Mas que grande reinação!/ Uns dormindo, outros com sono/ E os outros nem sim nem não". Comboio Noturno para Lisboa, de Bille August, com Jeremy Irons, Mélanie Laurent, Jack Huston, August Diehl Bruno Ganz, Charlotte Rampling, Beatriz Batarda